Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão


Giorgio La Pira, ilustração de Giovanni Lupoli

Giorgio
LA PIRA

apóstolo da paz (1904-1977)

por Ernesto Arosio

estes tempos em que a corrupção domina os governos de muitos países, compartilhada por políticos que se locupletam, criam-se, nos povos, um desânimo e um descrédito generalizados a respeito da política.

É possível ser um político honesto e fazer uma política honesta para o povo? Não somente é possível, mas podemos citar pessoas santas que são exemplos de uma política justa e progressista em favor do povo.

Da América Latina, citamos Garcia Moreno (1821-1875), presidente do Equador, assassinado em frente à catedral de Quito e definido pelo Congresso Nacional como “regenerador da Pátria e mártir da civilização cristã”. Na Europa, após a Segunda Guerra, vários políticos distinguiram-se pela honestidade e dedicação aos valores cristãos. Foram os reconstrutores de países destruídos pela guerra, os inspiradores da união entre os povos: Konrad Adenauer (Alemanha), Robert Schuman (França), Alcide de Gasperi e Giorgio La Pira (Itália) e tantos outros. Alguns deles já têm a causa de beatificação em curso.

Giorgio La Pira, o “monge político”

Giorgio La Pira nasceu pobre, na Sicília, em janeiro de 1904. Chegou a se formar professor de Direito Romano. Escreveu livros fundamentais sobre a questão social, a pessoa humana e a política cristã. Perseguido pela Gestapo, a polícia nazista dos anos 1943/44, foi deputado e membro do governo italiano após a guerra. Incansável lutador e animador de importantes conferências de paz naquele mundo invadido por ódios ideológicos e ditaduras sangrentas, dialogou com a Rússia de Stalin e o Vietnã de Ho Chi Minh.

Foi mediador boicotado entre Israel e os árabes. Onde havia conflitos, ele estava presente como mensageiro de paz, nem sempre bem recebido pelos beligerantes. Tinha como lema de vida a frase do profeta Isaías (2,2-6): “Ele – o Senhor – julgará as nações e pronunciará sentenças entre muitos povos, de sorte que converterão suas espadas em enxadas e suas lanças em foices e não se levantará povo contra povo e não mais praticarão a guerra”.

O monge político

Foi como prefeito de Florença, destruída pela guerra e no caos, que demonstrou todas as habilidades e a coerência fundamentada e inspirada em sua inabalável fé religiosa. Chamado de “monge”, porque morava no convento dos servitas em Florença, dedicou-se à sua missão de reconstrutor como a uma vocação religiosa. Celibatário por escolha, católico praticante, de missa diária, quando lhe era possível, dizia que para se amar as pessoas é necessário fazer política, mas de maneira ética e cristã.

“Política – dizia La Pira – para os cristãos leigos, não é um opção, mas um compromisso de vida com a história da humanidade. Cristãos não somente pela oração, mas com a reflexão, a palavra, a ação. O prefeito é como um pai de família”. Ele assumiu, sem opção partidária, a difícil reconstrução de Florença, frente às emergências do pós-guerra, a desocupação, a falta de assistência sanitária aos doentes, crianças e idosos e dizia que “onde há alguém que sofre, o prefeito tem o dever preciso de intervir de todas as maneiras e todos os meios que o amor sugere e que a lei fornece, para que o sofrimento seja diminuído”.

Repetia que “o pão é sagrado e a casa é sagrada: não se toca impunemente em nenhum dos dois”. No momento das polêmicas, em que as obras sociais podiam ser confundidas com o marxismo, sempre dizia que isso é simplesmente o Evangelho. Construiu casas populares, fez vigílias com dois mil operários de uma grande indústria que ameaçava despedi-los, ajudou a transformar outras fábricas à beira da falência em cooperativas, para dar trabalho aos desempregados, requisitou casas vazias para abrigar os “sem teto” e as vítimas da inundação que aconteceu naqueles anos, na cidade.

Faleceu em 5 de novembro de 1977 e seu corpo foi transportado pelas ruas de Florença nos ombros do povo e dos operários que já o exaltavam como santo. No seu túmulo, simples, está escrito: “Esperança contra qualquer esperança”. Foi, de fato, o homem que, profundamente convicto em sua fé, esperou e semeou esperança até onde faltavam motivos para se esperar. Sua causa de beatificação já se encontra no Vaticano.

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