Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

az 44 anos que os xaverianos e as xaverianas atuam com coragem nas terras da floresta amazônica. Um povo hospitaleiro e trabalhador desejava a presença de missionários para uma vivência cristã mais profunda. Em 1961, os xaverianos que estavam no sul do Brasil, enviaram os primeiros quatro missionários para o Pará. Era como partir para além-fronteiras. Eles foram acolhidos pelo arcebispo de Belém, dom Alberto Ramos, que lhes confiou uma parte de sua arquidiocese, a mais difícil, ainda imersa na floresta amazônica. A Prelazia recém-criada compreendia a sede em Abaeté do Tocantins, agora chamada de Abaetetuba (“terra dos homens fortes”), terra dos povos Gibirié, Kayapó, Asurini.

Os primeiros anos foram simplesmente heróicos. Só a paróquia de Moju era formada por 70 comunidades ao longo do homônimo rio, com mais de dois mil quilômetros de extensão. Eram necessários meses para alcançar todas, pelo menos uma vez por ano. Em 1966, chegaram também as xaverianas, que hoje estão presentes em quatro comunidades nas dioceses de Abaetetuba e Belém. Nessa terra, os xaverianos e as xaverianas viveram todo o tempo da ditadura. Apesar das ameaças contra “os padres e as irmãs marcados para morrer”, nunca faltou-lhes a coragem para defender os direitos humanos e as lutas populares.

Foram incansáveis na evangelização, nas obras de formação dos leigos, na construção de escolas e de hospitais, na implementação dos movimentos e das comunidades eclesiais de base, que cresceram e se multiplicaram sem medo e ricas de vida e de fé, como árvores plantadas ao longo dos rios. Com o tempo, a família xaveriana foi aceitando serviços de formação no seminário e na periferia de Belém, onde 200 mil pessoas vivem nas baixadas. Nos anos 70, estendemos nossa presença na maior prelazia do mundo, a do Xingu, no sul do Pará. O bispo, dom Erwin Kräutler, confiou-nos o trabalho entre os índios Kayapó e diversas paróquias em áreas marcadas por trágicos conflitos de terras.

Atualmente, o sul do Pará passa por vários problemas de transformação cultural, econômica e religiosa, devido às grandes migrações e invasões, sobretudo na região conhecida como “Terra do Meio”. A área atinge diretamente a Paróquia de São Félix do Xingu, confiada aos xaverianos. Trata-se de uma vasta região ao longo da estrada que, do Porto Xingu, vai até Canopos-Iriri com um percurso linear de 230 km. A paróquia tem, assim, uma região de mais de 350 km de comprimento para atender as mais de 40 comunidades e vilas que vieram se formando nestes anos.

Nas últimas duas décadas, as madeireiras abriram extensa rede de estradas e trilhas, deixando a porta aberta para outros tipos de “desenvolvimento” e destruição; com a conivência do Ibama, Iterpa, Incra, Funai e... do Judiciário. Por isso, o problema atual é a questão fundiária. A vastidão das terras e a falta de projetos e de demarcação atraem cada vez mais novos fazendeiros e grileiros que praticam desmatamento indiscriminado, trabalho escravo, tráfico de armas e narcotráfico. A terra se tornou fonte de lucro, não mais instrumento de sustento da população. A Igreja é assim chamada a enfrentar urgentes desafios como os conflitos no campo, a violência (denunciada todo dia pela mídia), as migrações, as invasões das terras indígenas.

A Igreja começou o seu trabalho na região com os dominicanos, de modo especial o Frei Dom Sebastião Tomás, bispo de Conceição do Araguaia, com três viagens pelo Rio Fresco, afluente do Rio Xingu, entre 1930 e 1935. Em seguida foram os missionários do Preciosíssimo Sangue, que acompanharam a evangelização do povo, com particular dedicação do saudoso dom Eurico Kräutler, tio do atual bispo Erwin Kräutler, à causa indígena. Os xaverianos passaram a morar na cidade em 1975; até então as visitas eram feitas duas ou três vezes por ano, chegando de Altamira, pelo Rio Xingu.

A característica da presença xaveriana é a defesa dos direitos humanos, com o olhar preferencial aos colonos e pobres, além de acompanhar as comunidades do interior, a formação das novas lideranças, a preocupação com o auto-sustento, o trabalho com as pastorais da Criança, da Família e da Juventude e, finalmente, com as celebrações que sustentam a vida do povo. Somos somente dois padres e duas irmãs Escolares para toda esta região. Mas a Igreja somos todos nós, e, por isso, merece a gratidão e o carinho dos inúmeros leigos e leigas que lutam pelo Reino de Deus. No sul do Pará há uma equipe xaveriana que trabalha na pastoral indigenista.

Após mais de duas décadas de presença nas aldeias Kayapó, os xaverianos abriram um Centro de acolhida e de mediação entre os indígenas e a sociedade ao redor da cidade de Redenção. A convivência entre mundos tão diferentes é marcada por desconfiança, conflitos, às vezes violentos como o que aconteceu há um ano e meio, envolvendo o assassinato de um moto-táxi, réu de ter atropelado e matado, “de propósito” segundo os índios, uma mulher Kayapó. Na ocasião, houve manifestações da população contra os índios que, tomados pelo medo, fugiram paras as aldeias. Os Kayapó começaram a freqüentar a cidade por necessidades econômicas (alimentação, serviços), sociais (assistência hospitalar, aposentadorias, Ongs de apoio às aldeias), educacionais (escolas e acesso aos estudos superiores), institucionais (contatos com a Funai e os órgãos do governo para documentação, etc.).

Por outro lado, a população de Redenção nunca esteve preparada a acolher e conviver com os Kayapó. Nós, xaverianos, então, abraçamos esse desafio junto à sociedade de Redenção e às comunidades Kayapó, sobre a difícil caminhada rumo ao encontro intercultural. Somos continuamente acusados de estar do lado dos Kayapó, por simpatia e/ou para a salvação das suas almas. Na realidade, o que nos move é a mesma razão pela qual Jesus ofereceu a sua vida: para que o mundo se torne uma só família, o lugar para todas as raças, povos e nações, especialmente as menos favorecidas.

Contudo, a resposta da Igreja no sul do Pará e, com ela, a missão dos xaverianos, é claramente inadequada, não comparável com a demanda da realidade geográfica, cultural e social da região. Mais uma vez escutamos o apelo apaixonado de Deus: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”. Isaías teve a coragem de responder: “Senhor, eis-me aqui” (Is 6,8). Cabe a cada um de nós escutar este novo grito do povo em defesa da justiça e da vida. A missão é a mesma paixão de Deus: por que não a sua também?

São Félix do Xingu

O majestoso rio Tuyá, “rio da solidão” para os nativos, após negociação com os indígenas, teve o nome mudado pelos exploradores do século 17, para Xingu, “Casa de Deus” (Xin = Casa, Gu = Deus). São Félix de Valois é um santo francês do século 11, de dinastia real. Ainda jovem, deixou a corte para fundar uma congregação, junto a João da Mata, com a tarefa de libertar os cristãos prisioneiros dos Mouros, que, na época, ameaçavam o Reino da França e da Espanha.

Sem dúvida, para proteger os seringueiros dos ataques dos índios, o coronel Tancredo Martins Jorge, dono do comércio da borracha no Alto Xingu, trouxe a imagem de São Félix, em 1900, colocando-a na “Ilhota de São Félix”, onde tinha sido construído o “barracão” dos seringueiros. O santo de Valois se tornou “São Félix do Xingu”, e ele deu o nome também à cidade.

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