Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
|
Matteo Ricci Giorgio Paleari Conhece-se o trabalho de Matteo Ricci a partir de muitos escritos: um tratado sobre a amizade e, especialmente, os comentários sobre a China, uma espécie de diário. Vestiu-se como um monge budista, antes, e, mais tarde, assumiu os costumes dos sábios confucionistas chineses. Entendeu que precisava se tornar chinês com os chineses. Por isso aprendeu a língua, assumiu os costumes e comportou-se em tudo como um chinês. Para Ricci, uma das tarefas fundamentais do missionário é a capacidade de adaptação ao contexto em que é chamado a viver. A língua deve ser conhecida, estudada e assimilada como ponto de entrada em outra cultura. Ela revela toda uma maneira de pensar e concentra a memória histórica de um povo. Faz parte da missão o processo de inserção na cultura do outro, viver segundo os costumes e revelar a mensagem de Jesus Cristo a partir dos pa-râmetros culturais. É preciso passar as fronteiras culturais e tornar-se solidário com o diferente. O respeito que Ricci teve pela cultura chinesa levou-o a assimilar a cultura confucionista que sublinha a harmonia das relações humanas: a afinidade entre o pai e o filho, a retidão entre os governantes e os súditos, a distinção entre o marido e a esposa, a harmonia entre o ancião e o jovem e a confiança entre os amigos. Tudo isso permitiu que Ricci aprimorasse a compreensão e o relacionamento com os sábios chineses.
Aliás, quando se tratou de elaborar um catecismo, já esboçado por Michele Ruggieri, outro grande missionário, Ricci não hesitou em realizar algumas adaptações. O catecismo, datado aproximadamente de 1582, tem como título: Tien-chu shi-lu (Vera et brevis divinarum rerum expositio, ou seja, Verdadeira e breve exposição das coisas divinas). Sendo uma síntese da doutrina católica, quando o texto trata da situação das almas depois da morte, apresenta as quatro situações tradicionais: o inferno, o purgatório, o limbo e o paraíso. O que fazer, no entanto, com os sábios confucionistas, tidos como os pais fundadores do Confucionismo? Não podiam ser desprezados a ponto de serem colocados no inferno, lugar dos não-batizados e maus. Não podiam também estar no purgatório porque nada havia para ser purificado. O limbo era reservado somente às crianças. E o paraíso era somente para os santos batizados. O catecismo de Ricci, curiosamente, inclui um quinto lugar para os sábios confucionistas: O lugar dos santos da Antigüidade (Sheng-jen). O grande respeito pela cultura confucionista e chinesa levou o eminente missionário a rever alguns conceitos sobre o método e os conteúdos da evangelização e a inovar a prática que hoje chamamos de inculturação. Todo esse percurso, no entanto, não ficou imune a críticas e desentendimentos. A polêmica que surgiu foi chamada a controvérsia sobre os ritos chineses. No entanto, por esse tipo de atitude dialógica, Ricci é considerado uma ponte entre a civilização chinesa e ocidental. O papa João Paulo II (Osservatore Romano, 27 de outubro de 1982, p. 2) disse que Matteo Ricci é uma ponte ainda segura. Falando do Evangelho, ele soube encontrar o modo cultural apropriado de quem o escutava. Começava com a reflexão sobre temas caros ao povo chinês. (...) Em seguida, ele introduzia, de modo discreto e indireto, o ponto de vista cristão (...). Foi graças a esse trabalho de inculturação que Matteo Ricci, com a ajuda de seus colaboradores chineses, conseguiu realizar uma obra que parecia impossível: elaborar a terminologia chinesa da teologia e da liturgia católica, criando, assim, as condições para fazer Cristo conhecido e encarnar sua mensagem evangélica e a Igreja no contexto da cultura chinesa. A espiritualidade missionária, em Matteo Ricci, significa, ainda hoje, uma paixão pela missão, no respeito e no diálogo com os diferentes povos e culturas. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]