Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Anúncio

ANUNCIAR OU DIALOGAR?

Costanzo Donegana

Um documento do Vaticano suscita perplexidades no campo do diálogo ecumênico e inter-religioso. Mas o desejo geral é continuar

Diálogo foi uma das palavras "mágicas" do Concílio Vaticano II que, sob o impulso profético de João XXIII e Paulo VI, colocou a Igreja numa nova atitude e num posicionamento diferente diante do mundo, das outras Igrejas e religiões. Iniciou-se a caminhada do ecumenismo e do diálogo inter-religioso: barreiras históricas, teológicas e psicológicas caíram; descobriu-se que o que une é maior que aquilo que divide; relacionamentos fraternos se tornaram normais.
Neste contexto, surpreendeu - dentro e fora da Igreja católica - a Declaração Dominus Jesus da Congregação sobre a Doutrina da Fé (presidida pelo card. Joseph Ratzinger) "sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja". Palavras como "surpresa", "perplexidade", "decepção", escândalo", "mágoa" expressam as várias tonalidades das reações.
A preocupação principal da Dominus Jesus é alertar sobre as posições de alguns teólogos, sobretudo da Ásia, que, na tentativa de estabelecer o diálogo entre cristianismo e as outras religiões, parecem, às vezes, pôr em dúvida alguns princípios fundamentais da doutrina cristã, como a realidade de Cristo, único salvador da humanidade e o caráter definitivo da revelação em Jesus Cristo. Simplificando, chega-se a dizer: "todas as religiões são iguais". Isso prejudica a ação missionária da Igreja, que deve continuar a anunciar Cristo a todos os povos. O texto en-tra também no âmbito do ecumenismo, confrontando a Igreja católica com as outras Igrejas.
A doutrina apresentada não contém novidades substanciais em relação ao Vaticano II; infelizmente, porém, quando há mudanças, elas estão no sentido de um recuo e não do progresso que teve a partir do próprio Concílio. Assim, quando a declaração afirma que "a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só (grifo nosso) na Igreja católica"; o Concílio, ao invés, diz simplesmente que ela "subsiste na Igreja católica" (LG, 8). Outra expressão que magoou os evangélicos foi ter aplicado a palavra "Igreja" só à católica e às ortodoxas; as outras seriam "comunidades eclesiais". Esta expressão é do Vaticano II que, porém, não quis definir quais seriam, de fato, tais "comunidades eclesiais".
A Dominus Jesus opera uma leitura do Vaticano II que se refaz mais ao pé da letra (nem sempre) do que ao espírito do Concílio, porque o ponto de partida é a preocupação doutrinal e não o diálogo. Muito interessante é a reação do card. Edward Cassidy, presidente do Conselho para o Diálogo Inter-religioso: "Aquele texto foi redigido para a Igreja e não para o ecumenismo e foi escrito em estilo acadêmico por quem está acostumado a dizer sempre: isso está certo, isso não está certo, e não por quem tem o ouvido treinado para entender as razões dos outros".
Tudo isso não significa que dizer a verdade e afirmar a própria identidade não é legítimo. Pelo contrário, às vezes, é necessário, também no processo de diálogo. Neste sentido, a Dominus Jesus vai dar, depois que baixar a poeira da polêmica, uma contribuição positiva. Mas a verdade pode ser dita sem fazer comparações ofensivas e sem dizer aos outros que "se encontram numa situação gravemente deficitária" (assim o texto julga as religiões não cristãs).
O diálogo progride quando as Igrejas e as religiões não olham para si, mas para Cristo e para o Reino rumo ao qual estão todas caminhando. É uma meta ainda distante e não bem definida, porque escondida no mistério do plano de salvação, conhecido unicamente por Deus. Só caminhando lado a lado, na humildade, na caridade e na escuta recíproca, descobrirão a verdade total e o lugar que cada uma e todas juntas ocupam nesse plano.

Nota da CNBB sobre o compromisso
ecumênico da Igreja Católica

APresidência e a Comissão Episcopal de Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em comunhão com o papa João Paulo II que, no dia 18 de setembro de 2000, reiterou "ser irrevogável o empenho da Igreja Católica para com o diálogo ecumênico", por motivo da recente Declaração Dominus Iesus da Congregação para a Doutrina da Fé, deseja reafirmar o seu compromisso ecumênico.
Manifesta a todos os cristãos a estima da Igreja católica que os reconhece justificados pela fé e incorporados a Cristo e os abraça com fraterna reverência e amor como "irmãos no Senhor". Considera também que "suas Igrejas de forma alguma são destituídas de significação e importância no ministério da salvação" (Cf. UR,3). Acredita que o movimento ecumênico, surgido entre os irmãos e irmãs de outras Igrejas para restaurar a unidade de todos os cristãos, é uma obra do Espírito Santo.
Reafirma também os compromissos assumidos com as Igrejas parceiras nos organismos ecumênicos CONIC e CESE, para cuja constituição contribuiu como membro fundador.
De acordo com os estatutos solenemente assinados, garante a todos os irmãos e irmãs que continuará a sentar-se à mesa do diálogo "de igual para igual", na busca comum da verdade e no serviço à humanidade.
Continua examinando, com espírito sincero e atento, o que, no interior da própria Família Católica no Brasil, deve ser renovado e realizado, para que sua vida dê um testemunho mais fiel e luminoso da doutrina e dos ensinamentos recebidos de Cristo por meio dos Apóstolos.
Exorta o clero e os fiéis católicos a fazerem do ecumenismo uma prioridade e a promoverem tudo o que for necessário a fim de que o testemunho da comunidade católica possa ser compreendido em toda a sua pureza e coerência, superando as incompreensões herdadas do passado e estabelecendo com os irmãos e irmãs evangélicos laços cada vez mais fortes de recíproca confiança e amizade.
Consciente de que o propósito da reconstituição da unidade da Igreja é um dom de Deus que nos impele a seguirmos juntos pelos caminhos da plena comunhão, coloca inteiramente a sua esperança na oração de Cristo pelos discípulos, no amor do Pai para conosco e na força do Espírito Santo.

Dom Jayme Henrique Chemello
Presidente da C.N.B.B.

Dom Raymundo Damasceno Assis
Secretário-geral da C.N.B.B.

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