Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Diálogo interreligioso
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Superando as barreiras culturais Alberto Garuti É possível aceitar e viver o Evangelho sem abandonar a própria cultura? Uma das dificuldades que sempre existiram na evangelização além-fronteiras é o diálogo intercultural. A seguir, apresentamos dois exemplos desse diálogo: de um sacerdote africano que exerce seu ministério pastoral na Bélgica e de um ex-budista do Camboja, que se tornou cristão e que vive numa cultura profundamente budista Um africano, pároco na Bélgica Um sacerdote da República Democrática do Congo, no centro
da África, exerce seu sacerdócio na Bélgica, o antigo
país colonizador. Uma sensibilidade diferente O padre Kabongo conheceu os Padres Brancos (um instituto missionário
fundado na França para a evangelização da África)
em sua infância, antes de entrar no seminário. "Deus
serviu-se deles, diz, para fazer nascer em mim a vocação.
Temos o mesmo desejo de proclamar o Evangelho. A diferença é
que eu não me sinto investido de nenhum poder..." O Sul evangeliza o Norte Consciente do mal que a colonização (por parte da Bélgica,
no caso) fez a seu país, o padre Emery não tem nenhum problema
em perdoar. "Certamente, sem a colonização, a evolução
africana teria sido diferente, provavelmente melhor... ou pior... Quando
volto a minha terra, o povo me pergunta se os brancos me aceitam como
pároco negro. Parece-me importante poder testemunhar-lhes que as
coisas mudaram, que nos enriquecemos mutuamente". Tradução da revista Peuples du Monde Do budismo ao cristianismo Chamrun é cambojano com cerca de 45 anos. Casado e pai de 5 filhos, funcionário da alfândega do porto de Phnom Penh. Foi batizado em 1995. Sua mulher é membro de uma Igreja evangélica. Desde 1996, é catequista de adultos. Leigo convertido do budismo, ele mostra que nem sempre é fácil para um cristão não ser considerado um traidor de suas tradições culturais. Mas para ele, o Evangelho completa o que disse Buda. Eis a seguir um depoimento do próprio Chamreun. Eu sou da etnia khmer. Meus pais eram budistas, eu era budista assim
como 99% das pessoas de meu povo, originário do campo, perto de
uma aldeia onde viviam alguns católicos vietnamitas. Desde a adolescência,
eu me perguntava algo a respeito de Deus: "será que há
um Deus dos khmers e um Deus dos franceses? Há então vários
deuses? E qual será o verdadeiro?". Um Deus estrangeiro? Quando me tornei cristão, muitas pessoas me criticaram e me insultaram.
Diziam que eu tinha abandonado as tradições dos khmers e
que era um traidor de meu povo. Alguns me perguntavam: "Por que você
honra um Deus estrangeiro?". Dentro de mim eu pensava: "Mas
Buda também não era khmer, não era do Camboja, era
do Nepal!". Depois descobri que Jesus nos leva ao Pai e que completa
o que Buda disse. Quando digo isso, os meus conterrâneos não
me chamam mais de traidor da religião budista, ainda que não
compreendam o que eu estou dizendo, pois é novo demais para eles.
Nosso diálogo com os budistas é quotidiano. Buda é sempre um sábio Quando os evangélicos pregam a Boa Nova, dizem que Buda é
o demônio, que é o inimigo. Antigamente, isso me revoltava,
mas eu não sabia o que dizer. Depois, refletindo com outros cristãos,
achei que ele foi um sábio que refletiu sobre os problemas do homem
e que achou uma teoria pela qual os homens pudessem fugir do sofrimento
e viver juntos. Portanto, ele não é o demônio, mas
um "Grande Mestre" que nos ensinou um caminho. Eu gosto do budismo Eu estou convicto de que somente quem conhece profundamente a própria
religião pode compreender a verdade das outras religiões.
Um khmer que não ame o budismo não pode ser um bom cristão,
pois não tem desejos religiosos profundos. Eu gostaria que a Igreja
tivesse um aspecto mais "khmer" para que nossos irmãos
budistas pudessem se tornar cristãos sem renunciar a toda sua cultura.
Afinal, Jesus transformou a água da cultura khmer em vinho do Reino,
mas o jarro continuou o mesmo. Testemunho e profecia Os evangélicos me disseram que gostariam que fizesse parte de
sua Igreja, como minha mulher, mas eu lhes disse que é bom que
haja um coração em cada um dos dois lados. Há muita
coisa bonita, mas eles se preocupam demais em separar-se dos outros para
pertencer aos puros, um pouco como os fariseus. Eu lhes digo que me orgulho
de pertencer a uma Igreja que vem diretamente de Pedro e, portanto, diretamente
de Jesus, sem interrupção, até hoje. Respeitando a cultura Em meu serviço na alfândega, acontece com freqüência
de falarmos de religião. Há três funcionários
abaixo de mim. No começo, não gostavam de mim porque sou
cristão. Diziam-me: "Quem é esse Deus pregado na madeira?"
Diziam com desprezo, pois isso não tinha nada a ver com a tradição
khmer. Pensando comigo mesmo, achei que, de fato, tratava-se de uma tradição
dos judeus que precisava ser explicada a partir da mentalidade khmer para
que a entendessem. Então falei: "Quando vocês estão
doentes, procuram os feiticeiros que lhes dizem de pregar uma galinha
sobre uma madeira e deixá-la nas encruzilhadas para sararem ou
escaparem das desgraças. Vejam: não se trata de uma galinha,
pregada na madeira, mas do próprio Jesus com seu corpo. Os que
acreditam nele escapam do pecado e das desgraças". Uma luta para o bem de todos Ser cristão hoje tem muitos sentidos. Por causa das dificuldades
que suportamos durante 29 anos, por causa da invasão da cultura
estrangeira que aproveitou do fato de o país estar tentando se
reerguer de uma situação de desastre total, cada um pensa
somente em tornar-se importante, esmagar os pequenos, praticar a corrupção.
Nessa situação, a Palavra de Deus com meu testemunho de
vida cristão, sob a influência do Espírito Santo,
pode mudar, pouco a pouco, o jeito de viver dos khmers e da sociedade.
Cada um aprende a partilhar, a buscar o interesse co-mum, o interesse
dos fracos. Como cristão cercado por budistas, o que posso fazer
é ser modelo de moralidade, de seriedade no trabalho, honestidade.
É o meu jeito de reclamar justiça para os pobres, para os
que são esmagados porque não têm apoio. Agora, depois
do período comunista, adora-se o deus dólar, o Deus poder.
Não há mais receio de praticar a corrupção,
de se matar um a outro. Desse jeito, o papel do cristão é
ser testemunha do valor e da dignidade da pessoa. Presença humilde Em nossa Igreja, existem projetos para cuidar dos doentes, ajudar as
crianças a freqüentarem a escola, programas de alfabetização,
de ajuda aos estudantes universitários, aos trabalhadores nas fábricas.
É muito pouco, não podemos, certamente, falar de participação
na reconstrução do país. Por enquanto, contudo, nossa
Igreja é somente um sinal do Reino que está para vir. Tradução e adaptação de Spiritus, n.º 158, março de 2000. |
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