Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Diálogo interreligioso

Ainda é possível o diálogo com os muçulmanos?

 

Alberto Garuti

 

 

Observando o mundo islâmico como a
mídia hoje o apresenta, somos levados a dizer:
“Tem sentido fazer guerra em nome de Deus?
Há uma solução possível para esse problema
que parece ameaçar a todos?”


Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001

Os últimos acontecimentos, a partir do atentado ao World Trade Center em New York, no dia 11 de setembro, suscitam em muitas pessoas a dúvida: “Será ainda possível que as grandes religiões se entendam? De maneira particular, será possível o diálogo entre cristãos e muçulmanos ou tudo isso não passa de puro idealismo? Será que somos destinados a ver coisas ainda piores?”

Todos nós sabemos que o terrorismo não representa a verdadeira face do islamismo e que, por trás de muitas violências cometidas por adeptos de grandes religiões, estão interesses econômicos, políticos ou militares. Sabemos também que se nos chegam notícias de violências perpetradas em nome da religião, há também notícias de cristãos e muçulmanos que fazem de tudo para se entenderem, que dialogam e que tentam tudo o que for possível para conseguirem viver em paz e colaborarem, em nome de Deus. É o que está acontecendo agora, por exemplo, nas Ilhas Molucas, do arquipélago da Indonésia, onde cristãos e muçulmanos, depois de anos de luta, agora trabalham juntos para a reconciliação.

Os muçulmanos e o diálogo


muçulmanos numa mesquita em Kabul

Contudo, devemos admitir que o problema da convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos não é de fácil solução. É o que diz o padre Samir Khalil Samir, jesuíta egípcio, um dos maiores especialistas em relações entre cristianismo e islamismo, professor em Roma, no Pontifício Instituto Oriental e em Beirute, onde administra um curso junto com um docente muçulmano para estudantes de ambas as religiões.

Segundo o Padre Samir, estas seriam as principais dificul-dades para que possa haver um pleno entendi-mento entre seguidores das duas religiões:

  • O islamismo é um conjunto de política e religião, sem possibilidade de separação. Por conseguinte, é muito natural um país islâmico ser regido pela sharia, a lei inspirada no Alcorão.
  • O Islã está presente em todos os momentos da vida: no rádio, na televisão, na escola, no cinema, nos noticiários, na música, nos jornais. Todas as matérias ensinadas nas escolas fazem referência a ele.
  • O Islã dificulta a vida dos seguidores de outras religiões. Se um cristão carrega a cruz no peito, os fundamentalistas a arrancam. É praxe a realização de exames nas faculdades na Páscoa ou no Natal. Em teoria, os cristãos podem ficar em casa naqueles dias, mas quando prestarão os exames? Uma mulher de outra religião que não se vista como as muçulmanas, em pouco tempo será marginalizada.
  • O Islã discrimina as pessoas, especialmente quando buscam um emprego. Alguns trabalhos são vetados aos cristãos, como a ginecologia. No setor militar, um cristão pode alcançar somente certo grau. Quando alguém procura um trabalho, o empregador, pelo nome, descobre quem é cristão e quem é muçulmano. Com muita facilidade, ao primeiro diz: “não temos trabalho”, ao passo que o segundo encontra vaga.
  • É impossível a conversão de um muçulmano para outra religião. A apostasia é condenada com a pena de morte, muitas vezes modificada pela prisão. Mesmo em países liberais como o Líbano, é impossível abandonar a religião. Se uma mulher cristã casa com um muçulmano, a lei do Alcorão permite que ela permaneça cristã. Mas se assim fizer, não poderá herdar nada do marido e os filhos, mesmo batizados, são considerados oficialmente muçulmanos. Se uma mulher muçulmana casa com um cristão, não pode abandonar o Islã.

Tudo o que foi dito acima, faz parte do verdadeiro islamismo, ou representa a maneira como o islamismo está sendo vivido agora por seus sequazes? É difícil dizer, pois além do Alcorão, existe toda uma tradição, mais que milenar, que mostra como foi vivido o islamismo durante séculos e que ajuda a entender melhor essa religião. Essa tradição mostra que nem sempre houve guerra entre os seguidores das duas religiões.

É sempre possível que, com o tempo, essas dificuldades possam ser superadas, pois a maioria dos muçulmanos, continua padre Samir, é moderada, quer viver em paz com todos, e que cada um tenha a liberdade de praticar sua religião. Existe sempre, contudo, uma minoria que quer apoiar-se no Alcorão e tomar a todo custo o poder, melhor ainda se um poder sem limites.

Essas pessoas consideram os regimes moderados como traidores do islamismo e seguidores do Ocidente, e que por isso devem ser derrubados.

O fundamentalismo


Osama Bin Laden (detalhe) tornou-se o homem mais procurado do mundo

O que preocupa, hoje, em termos de relacionamento entre cristãos e muçulmanos, é o fundamentalismo, isto é, a radicalização de certos princípios que pode levar, como de fato levou, à violência. Essa tendência nasceu já alguns séculos atrás, quando, na Arábia, surgiu o movimento wahabita, que afirmava que o islamismo baseia-se unicamente no Alcorão, deixando de lado a tradição, os usos e os costumes, tudo enfim que foi feito durante os séculos. Só vale o Alcorão interpretado ao pé da letra.

Foi algo parecido ao que aconteceu com a reforma protestante, que deu importância unicamente à Escritura, esquecendo a Tradição da Igreja. E, no Alcorão, encontram-se textos que justificam a violência e outros, menos numerosos, que são contrários. Trata-se de uma ambigüidade que pode ser entendida (e às vezes mal entendida) de acordo com outros interesses.

Em certos casos, sempre segundo o Alcorão, a guerra é uma obrigação para cada muçulmano. Uma guerra com regras, não a qualquer momento, mas quando é preciso defender os direitos de Deus (por exemplo quando o Islã é contestado ou há perigo de uma revolta). Partindo desse princípio, torna-se muito fácil encontrar um texto que justifique e dê licença a quem estiver no poder de usar e incitar à violência, se ele o achar oportuno. Até na Bíblia há textos muito violentos.

A atual situação política tem servido para justificar a posição fundamentalista de muitos muçulmanos que, atualmente, detêm o poder.

Dois fatos especialmente:

  • o nascimento de Israel como nação e suas atitudes arrogantes tomadas contra os palestinos nestes últimos anos e
  • a tomada do poder por parte de muitos governos filo-ocidentais em países islâmicos, o que representaria um enfraquecimento da identidade religiosa muçulmana. Foi o que aconteceu no Irã antes da revolução de Khomeini. Mas a repressão e a violência extrema cansaram, a médio prazo, o povo e os líderes estão perdendo, pouco a pouco, o apoio das massas.

A Arábia Saudita e o fundamentalismo

A Arábia Saudita parece ser hoje o país líder do fundamentalismo wahabita.


Um taleban mostra ao repórter às provas das atividades de proselitismo cristão realizadas ilegalmente

A família de Ibn Saud tomou o poder em 1902 e o conservou até hoje. Até algumas dezenas de anos atrás, esse país, com pouca expressão do ponto de vista econômico no cenário mundial, pouco pôde fazer no sentido de difundir suas tendências radicais. Mas, agora, graças à fortuna acumulada nestes últimos anos com a venda do petróleo, trabalha ativamente para a difusão do islamismo radical no mundo inteiro. Já mandou construir mais de 1500 mesquitas em vários países do mundo e 210 centros culturais islâmicos. Financiou os estudos na universidade de Medina, de 1961 até hoje, de 11 mil estudantes provenientes de mais de 100 países.

De um lado, os árabes estendem a mão ao Ocidente e aceitam suas pressões para controlar o preço do barril de petróleo e, do outro, trabalham contra os interesses dos mesmos países. Com muita probabilidade, financiaram e apoiaram o próprio Bin Laden.

O que o futuro deixa prever

A história ensina que os regimes mais rígidos, opressores e que negam os direitos humanos, cedo ou tarde, desaparecem. O homem sempre lutou para conseguir mais liberdade e dignidade em seus relacionamentos. As ditaduras não são eternas.

Até nós, cristãos, já passamos por momentos de intolerância, repressão e radicalismo e, em seguida, vimos que o que se pensava fossem atitudes que deviam ser combatidas, porque podiam pôr em risco a integridade de nossa fé, não passavam de interpretações extremistas que acabavam reforçando o poder de grupos ou pessoas. Nada impede que o mesmo aconteça com outras religiões. Mas, para apressar esse momento, é importante que sejam eliminadas as injustiças que alimentam as posições mais radicais dos muçulmanos, como, por exemplo, a disputa entre judeus e palestinos. Até que esses últimos não sejam reconhecidos como nação e não tenham uma terra onde possam viver independentes, livres e soberanos, haverá sempre motivos que estimulam as posições mais radicais, como o terrorismo.

Os cristãos não podem só ficar esperando que o Islã mude. Poderiam e deveriam ajudar a apressar essa mudança. Os muçulmanos desejam a modernidade e, ao mesmo tempo, têm medo dela. Ela lhes parece atéia, anti-religiosa e, em certo sentido, o é, se observarmos a maneira como muitos cristãos a vivem. É tarefa dos cristãos mostrar que a modernidade é compatível com a fé, que é possível ser fiel e, ao mesmo tempo, moderno.

É importante também que os cristãos deixem transparecer em suas vidas os valores do Evangelho. Porque acontece que, quando um cristão visita um país muçulmano, logo percebe, na vida de todos, os valores daquela religião. Pode ser que, em muitos casos, se trate de valores interpretados subjetivamente, que não correspondam ao verdadeiro espírito daquela religião, mas não podem não ser vistos. Estão ali, diante de nosso olhos. Mas, quando um muçulmano visita um país cristão, fora das igrejas, dificilmente descobre, na vida de todos os dias, algo que se possa dizer evangélico. Os cristãos não falam com suas vidas aos fiéis de outras religiões.

Para haver diálogo, é preciso que cada um dos lados viva a fundo sua religião. Sem isso, não pode haver respeito, interesse de um pelo outro, diálogo autêntico. Além da falta de diálogo, durante mais de mil anos, cristãos e muçulmanos lutaram entre si. Essa situação criou uma desconfiança e uma falta de respeito recíprocas muito fortes. A situação atual fez com que essas atitudes se enraizassem muito mais. É preciso que apareçam sinais, de um lado e do outro, que nos ajudem a entender que fomos longe demais e que ainda é tempo para começar uma mudança.

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