Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Diálogo interreligioso

Obrigado! Só o senhor podia convocar um encontro como este. Mas não se teria realizado sem nós”, iniciou espontaneamente sua intervenção o rabino Israel Singer, dirigindo-se diretamente ao papa. É um dos vários testemunhos que, no histórico encontro inter-religioso de oração pela paz no dia 24 de janeiro de 2002 em Assis, reconheceu a coragem e o carisma de João Paulo II como líder moral das religiões no mundo.

O líder

O próprio Deus colocou no co-
ração humano um impulso instintivo para viver em paz e harmonia. É um anseio mais íntimo e tenaz do que todo instinto de violência, um anseio que juntos viemos reafirmar aqui, em Assis[...].

É necessário que as pessoas e as comunidades religiosas manifestem a mais clara e radical rejeição da violência, de toda violência, a partir daquela que pretende encobrir-se de religiosidade, até apelando ao nome santo de Deus para ofender o homem. A ofensa do homem é, afinal, ofensa de Deus. Não existe finalidade religiosa que possa justificar a prática da violência do homem sobre o homem[...].

Edificar a paz na ordem, na justiça e na liberdade exige o compromisso prioritário da oração, que é abertura, escuta, diálogo e, no fim, união com Deus, fonte originário da verdadeira paz. Rezar não significa evadir da história e dos problemas que ela apresenta. Ao contrário, é escolher de enfrentar a realidade não sozinhos, mas com a força que vem do Alto, a força da verdade e do amor, cuja última fonte está em Deus.

Do discurso de João Paulo II

1986

Tudo começou na mesma cidade, no dia 27 de outubro de 1986, quando, pela primeira vez, representantes das religiões se reuniram para rezar pela paz, sem confusões sincretistas, mas, ao mesmo tempo, sem a contraposição e a frieza que caracterizaram muitas vezes no passado as relações entre as religiões.

Naquele dia começou a soprar o “espírito de Assis”, que, sem aparecer nas crônicas da mídia ou nas reuniões dos diplomatas, penetrou os movimentos da história, produzindo frutos às vezes inexplicáveis.

Da “guerra fria” e dos “ateísmos de estado” passou-se à procura da “interdependência” dos povos e das nações. Em 1988 Gorbatchov, festejando no Kremlin o milênio cristão da Rússia, convocou representantes das diferentes religiões.

À queda do muro de Berlim em 1989 e do comunismo na Rússia em 1991, que pareciam inabaláveis, sem dúvida não é estranho o “espírito de Assis”. Em 1996, João Paulo II assim comentou: “Conforta-me profundamente constatar que a semente lançada há dez anos em Assis continua germinando. Não rezamos em vão naquele ano na cidade de Assis”.

Assis 2002 não é uma repetição do evento de 1986. Agora “cada vez mais gente diferente vive junta – documenta Andrea Riccardi, fundador de Sant’ Egidio –.

O problema da convivência entre povos e religiões diferentes interessa o mundo todo: da África das lutas étnicas e religiosas, à Índia complexa, à Terra Santa martirizada por uma guerra há mais de meio século, ou em outras partes.

Testemunhos

"A verdadeira paz vem de Deus[...]. A paz de Deus e a paz na terra têm um relacionamento entre elas de mãe e filha".
Bartolomeu I, Patriarca ortodoxo de Constantinopla

"Nos últimos meses experimentamos mais uma vez quanta seja a necessidade de um do outro"[..]. "Reconheçamos que nos ferimos um o outro e que, portanto, devemos acolher e oferecer o perdão".
Richard Garrand, bispo anglicano, representante do arcebispo de Canterbury

"Nós judeus estamos comprometidos em uma ideologia, em uma religião e em uma filosofia centradas sobre a paz, a bondade e a fraternidade. A guerra não é nossa cultura nem nosso objetivo. Devemos rejeitar as distorções dos ensinamentos surgidas no passado e não podemos sustentar a idéia da violência contra as outras religiões[...]. Somente com um sério diálogo e uma dedicação física pela paz por parte dos líderes religiosos, não só com pronunciamentos, mas com sacrifícios pela paz podemos começar a mudar a condição humana atual".
Israel Singer, rabino judeu

"Todas as religiões monoteístas recomendam que o ser humano promova o direito e a justiça. Nós aderimos ao apelo de paz, que tem uma ligação imediata e inseparável com a justiça".
Al Azhar Tantawi, xeque muçulmano

"Possa eu me tornar em cada momento, agora e sempre, um protetor daqueles que estão sem proteção, um guia para aqueles que perderam o caminho, um barco para aqueles que devem atravessar os oceanos, uma ponte para aqueles que devem atravessar os rios, um santuário para aqueles que precisam de abrigo, um servo para aqueles que se encontram em necessidade".
Tashi Tsering, budista, representante do Dalai Lama

"Jesus para nós cristãos é o Deus da paz. A Igreja católica inteira trabalha para a paz. Muitos são os caminhos que percorre. Muito eficazes são os diálogos dentro do sulco traçado pelo Concílio Vaticano II. Eles, gerando fraternidade, garantem a paz".
Chiara Lubich, católica

 

O nacionalismo acreditou poder construir países homogêneos nacionalmente e religiosamente.

Às vezes se realizou isso com a limpeza étnica”. A globalização une e divide os continentes, os povos e os grupos humanos e sociais.
O terrorismo tenta alimentar-se de motivações religiosas provocando respostas irracionalmente desmedidas.

Andrea Riccardi também revela em que consiste o espírito de Assis: “Podemos viver juntos na paz a partir das energias espirituais.

Não é tanto no acordo com o outro que se encontra a força de viver em paz, quanto indo em profundidade na própria fé ou tradição religiosa”.

É a descoberta (ou redescoberta) da dimensão “política” da religião, não para engaiolá-la nos jogos, à vezes mentirosos ou estéreis, da diplomacia, mas para deixar que ela expresse todas suas potenciali-dades e atinja âmbitos que muitas vezes lhe são vetados por preconceitos ou desconfiança.

2002

Às 8:40 horas do dia 24 de janeiro um trem muito especial sai da estação vaticana: carrega mais de trezentos passageiros do mundo todo e, sobretudo, de todas as religiões.

Entre eles o promotor do evento, o Papa. Nas duas horas de viagem os hóspedes se encontram, conversam, se conhecem: “Acho alentador que pessoas de diversas religiões façam juntas esta viagem rumo a Assis”, comenta o cardeal Ratzinger. “Atravessar a terra: já gosto desta dimensão da peregrinação, estamos em caminho juntos e juntos procuramos a meta da paz. É um sinal forte e me parece importante que as religiões mostrem de poder fazer a paz entre elas”.

Compromissos

• “Para construir a paz, é necessário amar o próximo respeitando a Regra de ouro: ‘Faça aos outros aquilo que gostaria que fosse feito a você’”.
Bartolomeu I – Patriarca ortodoxo de Constantinopla
• “Nos comprometemos a proclamar nossa firme convicção de que a violência e o terrorismo estão em contraste com o autêntico espírito religioso e, condenando todo recurso à violência e à guerra em nome de Deus e da religião, nos comprometemos a fazer quanto for possível para erradicar as causas do terrorismo”.
Konrad Raiser – secretário do Conselho Ecumênico das Igrejas
• “Nos comprometemos a educar as pessoas a se respeitarem e apreciarem reciprocamente, para que se possa realizar uma convivência recíproca e solidária entre os que pertencem a etnias, culturas e religiões diferentes”.
Bhai Sahibji Mohinder Singh – Sikh
• Nos comprometemos a dialogar, com sinceridade e paciência, não considerando como um muro intransponível o que nos diferencia, mas, ao contrário, reconhecendo que o confronto com a diversidade do outro pode se tornar ocasião de melhor compreensão recíproca”.
Abdel Salam Abushukhaidem – muçulmano
• “Nos comprometemos a nos perdoar reciprocamente os erros e preconceitos do passado e do presente e a nos sustentar no esforço comum para derrotar o egoísmo e a afronta, o ódio e a violência e para aprender do passado que a paz sem justiça não é paz verdadeira”.
Vasilios – bispo ortodoxo
• “Nos comprometemos a estar do lado de quem sofre na miséria e no abandono, tornando-nos voz dos sem voz e agindo concretamente para superas essas divisões, na convicção de que ninguém pode ser feliz sozinho”.
Chang-GyouChoi – confucionista
• “Nos comprometemos a encorajar toda iniciativa que promova a amizade entre os povos, na convicção de que o progresso tecnológico, quando falte um acordo solidário entre os povos, expõe o mundo a perigos sempre maiores de destruição e de morte”.
Nichiko Niwano – budista
• “Nos comprometemos a pedir aos responsáveis das nações e a fazer todo esforço, para que, em nível internacional se edifique e se fortaleça, sobre o fundamento da justiça, um mundo de solidariedade e de paz”.
Samuel-René Sirat – rabino judeu

 

O primeiro momento em Assis é uma troca de testemunhos dos representantes das religiões, concluída pelo discurso de João Paulo II. São vozes diferentes, que se encontram no desejo da paz e no reconhecimento da função da religião na construção de um mundo de fraternidade. Interessante que, em nome da Igreja católica, falam dois leigos e fundadores de movimentos, Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares e Andrea Riccardi (ver quadro Testemunhos). O papa reforça o que veio afirmando depois de 11 de setembro: “A ofensa do homem é ofensa de Deus. Não existe finalidade religiosa que possa justificar a prática da violência” (ver quadro “O Líder”).

Depois deste momento comum, os vários grupos religiosos rezam separados, cada um conforme sua tradição espiritual, para evidenciar que, apesar dos passos rumo à unidade, persistem fortes diferenças, que devem ser respeitadas.

O almoço em comum reúne todos juntos de novo numa grande confraternização. E o encontro final recolhe os primeiros frutos da oração e da unidade. Os líderes religiosos declaram diante do todo o mundo seu compromisso concreto para construir a paz. É um passo para frente em relação a Assis 1986, onde só se rezou. Em 2002, pela primeira vez na história, representantes cristãos, muçulmanos, judeus, budistas, das religiões tradicionais africanas e outras tomam solenemente um empenho comum pela paz (ver quadro “Compromissos”).

Três “nunca mais!”, pronunciados com voz firme pelo velho Papa recolhem as afirmações dos outros líderes: “Nunca mais violência! Nunca mais guerra! Nunca mais terrorismo! Em nome de Deus, toda religião leve à terra justiça, paz, perdão e vida, amor!”. Um gesto simbólico encerra a jornada: cada líder leva ao centro do palco uma lâmpada acesa, significando a chama da paz que deve aquecer os corações dos homens.“

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