Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Diálogo interreligioso

As portas do céu

Ernesto Arósio

Cerca de 800 milhões de indianos professam o hinduísmo. Num ambiente como esse, o cristianismo é chamado a oferecer um testemunho de convivência, respeito e ajuda recíproca. É essa a experiência que padre Carlos Torriani anda fazendo junto aos pobres da Índia

Encontrando-se numa região onde vivem muitos leprosos, abandonados ou marginalizados pelos familiares, padre Carlos iniciou um ashram (eremitério), para hospedar esses doentes e pôr em prática o lema beneditino "ora et labora" ("reza e trabalha"). O ashram foi chamado, numa provocação profética, de "A porta do Céu", Swarga Dwar. Hoje, o local transformou-se num recanto de paz e serenidade, com mangueiras, bananeiras e plantação de arroz que asseguram a manutenção e o sustento do ashram.

É possível rezar juntos? - No ashram "A Porta do Céu", moram pessoas de todas as religiões, que aí não procuram uma espiritualidade, mas a solução possível dos seus problemas, como a doença e o abandono. Mas como formar uma comunidade unida, superando a natural desconfiança entre as várias religiões, o que poderia ser motivo de divisões? "Se comemos juntos, trabalhamos juntos, vivemos juntos - pensava padre Carlos -, precisamos encontrar também uma maneira de rezarmos juntos, respeitando as diferentes crenças e assim criar unidade e não separação".

Para isso, foi surgindo uma capela ecumênica, isto é, universal, para todas as religiões, e em seu centro ergueu-se uma coluna na qual se inscreveram os símbolos das doze religiões mais comuns na Índia.

Numa face da coluna, diante da porta de entrada, foram desenhados os símbolos das três religiões mais antigas do país, para que as pessoas possam se sentir em seu ambiente próprio. Para o hinduísmo, escolheu-se o monograma, Shri, o Senhor; para o janaísmo, as figuras dos pés, símbolo dos fundadores dessa religião, e para o budismo, a roda do destino.

Na face esquerda, foram colocados os símbolos dos filhos de Abraão: para os judeus, a estrela de Davi; para os cristãos, a cruz e para os muçulmanos, a meia lua.

Na face direita, está o símbolo das religiões tradicionais, representadas por uma máscara africana; para o taoísmo, o símbolo do yin-yang e para o xintoísmo, o torii, o portal de entrada de seus templos.

Na última face, outros símbolos das religiões indianas: para os sikhs, a khanda; para os parses, seguidores de Zoroastro, o fogo. O último é o símbolo dos que negam qualquer religião. Hoje em dia, existe muita gente que, embora não aceite um Deus ou uma religião, crê nos valores humanos: honestidade, integridade, solidariedade, amor, justiça. Essas pessoas são aquelas que podemos chamar de crentes não religiosos e, para dar um símbolo a essa categoria que acredita no homem, foi escolhido o da foice e martelo. Esse símbolo - explica padre Carlos - não significa a escolha de um sistema político que fracassou em suas promessas e desapareceu, mas lembra a esperança num mundo melhor que milhões de pessoas, talvez ingenuamente, cultuaram; um símbolo que, claramente separado da conotação política, pode ficar junto com os outros. Ainda mais na Índia, onde o sistema tradicional de salvação baseia-se nas três vias, a sabedoria jnana yoga, a devoção bhakti yoga, e o trabalho karma-yoga, a foice e o martelo podem muito bem simbolizar o trabalho cotidiano como instrumento de salvação e de sobrevivência para os moradores do ashram.

Na parte superior da coluna, está o aum que, na Índia, é o símbolo mais comum para representar o absoluto.

Rezar, mas como? - Se para os cristãos chamar Deus de pai é comum, para os muçulmanos isso é impensável e blasfemo. E para os budistas, taoístas, xintoístas e ateus que não têm o conceito de um Deus ou até o negam?

Assim, foi decidido que a oração seria iniciada com o bhajan, um canto hindu litânico, que consiste numa única frase ou aclamação, cantada por meia hora com modulações e tons diferentes.

Durante a semana, a oração foi assim repartida: na segunda-feira, reza-se com os hindus e as religiões tradicionais; na terça, com budistas e ateus; na quarta, com sikhs e jainistas; na quinta, com parses e xintoístas; na sexta, com muçulmanos e confucionistas; na sábado, com judeus e taoístas e, aos domingos, com cristãos e os que não têm nenhuma das religiões acima mencionadas. Há também a celebração de uma missa na capela católica.

O nome de Deus - Cada povo deu um nome diferente a Deus. Os muçulmanos deram-lhe até cem nomes e, na Índia, existem mil maneiras de falar de Deus.

Também no ashram há um bhajam em que se cantam os nomes que as doze religiões deram a Deus. O canto inicia com Jesus, depois Yahveh, e assim outros nomes: Ahura e Mazda, entre os parses; Surya (sol), nas religiões tradicionais africanas; Brahma para os hindus; Guru para os sikhs; Tao, entre os taoístas; Mahavir para os janaístas; Alá para os muçulmanos; Verdade para os ateus; Amaterasu para os xintoístas e Buda para os budistas. Naturalmente, sabemos que alguns desses nomes como Buda, Mahavir, Tao, Amaterasu e outros não são nomes da divindade, mas uma maneira de expressar a perfeição de Deus à qual o homem tem que chegar durante sua vida terrena. Essa escolha é o compromisso que se faz necessário, quando se reza juntos para possibilitar a todos uma maneira de se expressão.

Ao pé da coluna, estão expostos todos os livros das diferentes religiões como a Bíblia, a Gita, o Alcorão e outros. Todas as noites, uma pessoa lê um trecho de um livro; em seguida, é feita uma oração tirada daquele texto sagrado e termina-se o dia com a tríplice invocação de Aum Shanti.

Reconhecem-se as dificuldades e os riscos que tais experiências comportam e que podem até escandalizar. Uma pergunta embaraçosa que, muitas vezes, fazem a padre Carlos é por que ele não procura converter diretamente essas pessoas. Mas Cristo também, a quem perguntava quem ele era, respondia com fatos e não com definições teológicas ou catequéticas: "Ide e dizei a todos os que vistes e ouvistes. Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, e a salvação é anunciada aos pobres".

Talvez seja mais útil semear esses sinais do Reino, esperando que os indianos perguntem a razão da esperança que existe em nós. Aí, anunciaremos explicitamente o Reino a eles.

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