Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Diálogo interreligioso
Mindanao, no sul das Filipinas, é uma
ilha por Sebastião D'Ambra A esperança
OS ADEPTOS DE BIN LADEN Esse clima de tensão foi claramente percebido nas Filipinas, por meio de atos de terrorismo, seqüestros de estrangeiros pelos guerrilheiros de Abu Sayyaf, ligados a Bin Laden. A guerrilha opera em Basilan, a poucos quilômetros fora da cidade de Zamboanga, missão onde operam membros do Pime e onde, atualmente, me encontro. O que nos separa de Basilan é um braço do mar. A cada dia, contemplando a linda paisagem com o fundo de Basilan, experimento uma profunda tristeza. Há tantas diferenças entre a beleza da paisagem e a violência daqueles lugares. Para nós, em Zamboanga, a situação se torna cada vez mais tensa: violência, bombardeios, seqüestros de pessoas, droga... mas a vida continua. As pessoas já se acostumaram a essa vida, como o marinheiro está acostumado a enfrentar as tormentas do mar. O que podemos fazer? Algumas semanas atrás, dois militares vieram me visitar para dizer que foi organizado um corpo especial do exército, para dar proteção a quem precisasse, especialmente para nós, estrangeiros, que moramos nessas bandas. Dispuseram-se a me ajudar, em caso de necessidade. Respondi que, por enquanto, estava tudo calmo, pelo menos onde me encontrava, mas, dentro de mim, ao mesmo tempo, pensava: "Como confiar nos militares, sabendo que entre eles há quem faça jogo duplo?". Apesar disso, ainda consigo ver sinais de esperança. SINAIS DE ESPERANÇA Para mim, é sinal de esperança ver que os americanos, após o atentado do dia 11 de setembro, rezaram juntos, com gente de diferentes culturas e religiões. É sinal de esperança ver que muitas pessoas, no mundo todo, declararam que a violência não é a solução certa. É um sinal de esperança ver que, em Mindanao, faz alguns anos, as pessoas se reúnem, para celebrar uma semana de paz com manifestações públicas, das quais participam muitos jovens.
É sinal de esperança ver que, nessas situações de grandes contradições, o governo filipino está levando adiante, com sucesso, as tratativas de paz com o Moro Islamic Liberation Front. Olhando, também, ao nosso redor, no movimento de diálogo de Silsilah, vejo sinais de esperança no que fazemos e nas novas iniciativas que começamos nos últimos anos. Vejo sinais de esperança nos jovens que encontramos e que se comprometem a ser instrumentos de diálogo e paz, embora vários de seus colegas sejam aliciados com vultuosas somas de dinheiro oferecidas pelo grupo de Abu Sayyaf, para lutar com eles ou junto a outros terroristas islâmicos em várias partes do mundo. São sinais de esperança os grupos de líderes muçulmanos e cristãos que acolheram a proposta do Silsilah para se unirem na promoção do diálogo e da paz, formando um conselho de líderes que se encontram regularmente e refletem sobre o que podem fazer para contribuir para que a sociedade encontre a paz no diálogo. Ainda vejo sinais de esperança num grupo de jovens escritores muçulmanos e cristãos que aderiram a mais uma proposta do Silsilah, iniciando um grupo que, através dos meios de comunicação, promove a paz e o diálogo. É um sinal de esperança, também, a Corrente da Harmonia, lançada no ano passado pelo Silsilah. Essa corrente conseguiu atingir vários países e há um grande interesse em participar dela. ESPERANÇA, DIÁLOGO E PERDÃO Falar de esperança não significa ignorar os problemas, mas encontrar novos rumos de paz que passam pelo perdão recíproco e pela reconciliação. O papa, na mensagem do Dia Mundial da Paz, disse que a "paz passa através do perdão" e Gandhi lembra que, seguindo a "lei do olho por olho, ficaremos todos cegos". E hoje existe tanta cegueira no mundo... A cegueira de quem promove o terrorismo e de quem responde com a guerra. A cegueira de quem se fecha no próprio egoísmo, de quem escolhe o materialismo; de quem pensa que pode abusar da dignidade dos outros e dos elementos da natureza, a nós oferecidos como vida. PRECISAMOS DE CONVERSÃO Quem ajudará a humanidade a vencer essa cegueira coletiva? Serão os que foram capazes de sair do próprio egoísmo e encontraram as motivações para se comprometerem com a paz. Não somente os que fazem coisas extraordinárias, que chamam a atenção da mídia, mas os muitos pequenos, de rostos anônimos, que comunicam a paz com suas vidas. Nesses dias, tenho me encontrado com um grupo de muçulmanos e cristãos, gente simples. Essas pessoas colaboram com o Silsilah nos cursos que damos. Damos aos participantes cristãos a possibilidade de viverem alguns dias numa família muçulmana e aos muçulmanos, numa família cristã.
As experiências que surgiram foram comoventes, tanto que nos comprometemos a reforçar e ampliar esses grupos. No grupo, há um imane. Antes, procurei explicar que propomos uma oração da harmonia que não deve ser confundida com as orações oficiais dos cristãos ou dos muçulmanos. Ela é uma oração espontânea que muçulmanos e cristãos podem fazer em grupo e nas famílias. O imane entendeu perfeitamente e me pediu que a traduzisse para seu dialeto, a fim de propô-la à sua gente. Isso também é semente de paz e crescerá. |
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