Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Diálogo interreligioso

Dialogar é...

Sebastião D´Ambra

O autor, missionário do P.I.M.E. nas Filipinas, relata sua experiência de diálogo com os muçulmanos, iniciada há mais de vinte anos. Pelo visto, não vem sendo um trabalho nada fácil. Há ainda muitos preconceitos a serem superados. De ambas as partes

Parti para as Filipinas com a idade de 35 anos, junto com padre Salvatore Carzedda e, em fevereiro de 1977, cheguei a Zamboanga, na ilha de Mindanao. Ali comecei a compreender os conflitos políticos e religiosos que existem entre cristãos e muçulmanos. A história de violência em Mindanao entre esses dois grupos religiosos e étnicos tem raízes profundas e hoje se torna ainda mais delicada.

Chegando à missão de Siocon, tive a oportunidade de encontrar outros cristãos e muçulmanos e fiquei surpreendido ao ouvir muçulmanos que falavam com saudade de um colega do Instituto, padre Santo Di Guardo, falecido dois anos antes, com 37 anos. Chamava-me atenção o fato de os muçulmanos falarem com respeito desse padre: "Quando padre Santo faleceu, nós choramos!" Não é fácil que um muçulmano chore por um cristão, contudo, ao olhar aqueles rostos, sentia que eram sinceros. Continuar a missão iniciada por ele tomou-se para mim um compromisso irrenunciável.

Havia muita tensão na missão. Centenas, às vezes milhares, de soldados cercavam a região para capturar os rebeldes muçulmanos da Frente de Libertação Moro que lutavam contra o governo. Conheci muitos jovens muçulmanos que falavam com muita determinação de luta, violência e revolução como a única solução para reivindicar seus direitos e suas terras.

Vivendo com os muçulmanos - Resolvi morar numa aldeia muçulmana, junto ao mar. De noite, perto da minha casa, juntavam-se as crianças para brincar e os anciãos para contar suas histórias. Tinham assistido a tantos atos de violência e visto morrer tantos parentes, vítimas de massacres por parte dos militares ou de vinganças entre cristãos e muçulmanos, que já perdiam a conta.

Nos momentos em que a comunidade se reunia para festas religiosas, casamentos ou outras circunstâncias, eu sempre era convidado. Eles já me consideravam um membro de seu grupo. Podia parecer meio esquisito eu morar numa cabana, estar no meio daquelas pessoas, cuidar dos doentes e ter tanto tempo livre. Confesso que, de vez em quando, dava aquela vontade de deixar tudo, voltar para os "meus" e assim sentir-me útil e realizar algo entre os cristãos. Mas eram momentos passageiros. A necessidade de permanecer entre os muçulmanos tornava-se cada vez mais forte.

O relacionamento com eles fortaleceu-se a ponto de ser encarregado de uma missão de paz entre rebeldes e militares, como mediador. Durante inúmeras noites, na floresta, fiquei acordado, ouvindo suas histórias e falando de paz.

Um dia, encontrava-me com cerca de setenta rebeldes numa localidade, longe de todos, aguardando outro grupo que devia nos alcançar. De repente, alguém deu o alarme: os militares estavam por perto, estávamos cercados. Havia só uma possibilidade: fugir floresta adentro, escalando uma montanha. O chefe dos rebeldes disse-me: "Padre, fomos traídos. Os militares, que prometeram aguardar as negociações de paz, romperam a trégua. Nós fugiremos pela floresta e você, sozinho, poderá chegar à aldeia vizinha sem que ninguém o moleste". Eu respondi: "Vou com vocês". Comovido, o chefe me abraçou e disse: "Padre, se os militares nos atacarem, nós o defenderemos. Serás o último a morrer". Aquele muçulmano, temido por todos, disse-me aquilo que Jesus considera a mais alta expressão de amor: "Não há melhor amor que dar a vida pelos amigos".

Iniciando o diálogo - Em 1984, iniciei o movimento de diálogo que chamei Silsilah (corrente). A experiência começou com momentos de oração espontânea entre cristãos e muçulmanos. Nesse clima, começamos muitas atividades de ajuda e solidariedade. Não faltaram suspeitas, especialmente por parte dos muçulmanos que vêem no diálogo dos cristãos uma nova forma para atrair pessoas e convertê-las ao cristianismo. Lembro-me de um amigo muçulmano, muito conhecido e respeitado na região, que veio a mim às escondidas, como Nicodemos no Evangelho, e me disse: "Padre, estou animado a continuar, ainda que eu não possa me arriscar, aparecendo muito perto de você, porque alguns do meu grupo poderiam pensar que não sou mais fiel ao meu compromisso de líder muçulmano".

Em 1990, o padre Salvador Carzedda, que chegara comigo às Filipinas, veio trabalhar comigo em tempo integral. Dia 20 de maio de 1992 foi um dia inteiro de reunião entre cristãos e muçulmanos. À noite, enquanto estava voltando para casa, o carro dele foi ultrapassado por duas motocicletas e de uma delas um jovem atirou quase à queima-roupa contra ele que teve morte instantânea. O diálogo também tem seus mártires.

"Aquele muçulmano, temido
por todos, disse-me aquilo
que Jesus considera a mais
alta expressão de amor:

'Não há melhor amor que dar a vida pelo amigos'"

Iniciando com a oração em comum entre muçulmanos e cristãos, Silsilah em quinze anos realizou diversas atividades e colaborou no processo de paz em todos os níveis da sociedade. As atividades de Silsilah abraçam os diversos setores da sociedade, dando uma particular atenção aos mais pobres, à formação ao diálogo e à educação para a paz. Neste compromisso, cristãos e muçulmanos trabalham juntos, colaborando inclusive com pessoas e grupos de outras religiões.

O diálogo com o islã nas Filipinas ainda está começando sua caminhada. Muitos já desanimaram pelos poucos resultados até agora conseguidos e pelas situações de violência das quais são vítimas pessoas e grupos engajados nessa linha. Isso nos ajuda a entender que somos instrumentos nas mãos de Deus. Só ele conhece o futuro dessa missão. Tenho a convicção de que a caminhada será longa, mas, no fim, conseguiremos entender juntos, um pouco mais, o plano de Deus para a humanidade.

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