Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Diálogo interreligioso

Cristãos e muçulmanos no NÍGER

Os cristãos são minoria no Níger (centro da África): 1% da população total contra 90% de muçulmanos. Publicamos dois testemunhos de vida missionária nesse país: de uma religiosa e de um padre, que dão uma leitura um pouco diferente, mas complementar, da realidade

O cristianismo é uma minoria

Irmã Marie Claire Charles

O primeiro cristão do país, Antoine Douramane, nascido em 1903, ainda vive em sua aldeia natal, Fantyo, no oeste do pais. Soldado do exército francês, teve a ocasião de entrar em contato com alguns cristãos africanos que lhe falaram de Jesus. Batizado na Argélia, em 1929, ele tinha um só desejo: revelar ao povo de sua aldeia, Aquele que deu um sentido a sua vida. Quando os primeiros missionários estrangeiros chegaram, encontraram uma comunidade que estava se preparando para o batismo, há vários anos, sob a orientação de Antoine Douramane.

Em 1969, fui enviada ao Níger, onde já trabalhavam três irmãs de meu instituto e uma equipe de padres. Eles tinham aberto uma escola, a única num raio de 50 quilômetros, e um dispensário que gozava de uma boa reputação na região. A equipe era muito dinâmica e eu me sentia muito motivada. Comunidades cristãs só existiam em três aldeias. O islã tinha entrado em todas as outras, mas era um islã tolerante. Nunca tivemos dificuldades em trabalhar com os muçulmanos no campo da saúde, do desenvolvimento e da instrução. O anúncio explícito de Jesus Cristo era muito limitado, nossa preocupação era fazer com que o povo o conhecesse através do testemunho de nosso estilo de vida.

Quando uma cooperativa era formada, cristãos e muçulmanos criavam juntos um escritório para que ela pudesse funcionar. Vivíamos na amizade e no respeito mútuo. Encontrei muçulmanos com uma fé muito profunda, que exerceram sobre mim uma impressão muito forte. A autenticidade de sua caminhada e de sua fé me ajudaram a crescer e a enraizar-me ainda mais em Jesus Cristo.

Expressar sua fé em sua própria cultura

Desde minha chegada, compreendi que o primeiro gesto de amizade em relação a esse povo que me acolhia era aprender bem sua língua e sua cultura. Foi por esse motivo que fui viver numa aldeia a cinco quilômetros da missão, durante oito meses. Voltava a minha comunidade nos fins de semana. Logo que comecei a balbuciar as primeiras palavras em sua língua, alguns habitantes da aldeia pediram-me que lhes ensinasse a ler e a escrever: pouco a pouco, organizaram-se grupos de alfabetização. Mas não existiam livros de leitura na língua deles. Foi nessa ocasião que me veio a idéia de gravar as histórias que eles contavam à noite, quando se reuniam em volta do fogo. Esses contos formaram os primeiros livros de leitura na língua da aldeia. O serviço nacional de alfabetização encarregou-se da impressão. Esses primeiros trabalhos lingüísticos abriram a porta a outros: os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, os textos litúrgicos.

Compartilhar a vida das mulheres

No início da minha vida no Níger, quando vivia na aldeia para aprender a língua, eu participava da atividade das mulheres. Como elas, eu cultivava um jardim. Eu gostava dessa vida bem próxima ao povo, na linha de Charles de Foucault que sempre me inspirava. Mas um dia, alguns homens vieram me visitar. "Nós ficamos contentes, eles disseram, porque você está sempre conosco, mas o que nos queremos é que você ensine a Palavra de Deus às nossas mulheres. Jardinagem nós conhecemos". Sem saberem, esses homens me ofereceram uma chave importante para viver a missão. Eu não tinha vindo para realizar os meus gostos, mas para me colocar a serviço de um povo, em nome do Evangelho. Compreendi que não precisava fazer nada que não fosse esperado e desejado pelo povo. Isso me ajudou a cultivar o respeito, a paciência e o amor totalmente gratuito.

Uma Igreja combatida, mas reconhecida

Pe. Samaila Sani

Ninguém pode negar que a Igreja do Níger seja minoria. Num total de pouco mais que 10 milhões de habitantes, temos somente 20 mil cristãos católicos, dos quais somente um quarto é de origem nigeriana. Isso é devido ao fato de a Igreja nigeriana ser muito jovem (só em 1998 festejou seus 50 anos de existência) e à tática de ocupação do terreno pelos muçulmanos.

Até 1988, havia no Níger uma convivência fraterna entre muçulmanos, seguidores das religiões tradicionais e cristãos. Mas, a partir dessa data, começaram a aparecer os integristas e fundamentalistas, tanto islâmicos como cristãos e isso prejudicou muito a aceitação mútua entre as várias religiões. Apesar de a Constituição garantir a liberdade de culto, não podemos dizer que, agora, o relacionamento entre as diferentes comunidades seja cordial e pacífico.

Discriminação

Ainda que oficialmente não haja discriminação, de fato, ela existe contra os cristãos. Nas famílias, há dificuldades para aceitar que um de seus membros se converta ao cristianismo, que é sempre considerado um sinal de perdição. Ele vai ter dificuldades com os vizinhos, que se recusarão a comer com ele, pois é considerado impuro, como um cachorro; se ele adoecer, quase não receberá visitas; ele não terá direito a fazer uso da palavra em público, pois existe o medo de que afaste as pessoas do verdadeiro caminho.

Se essa pessoa tem um nome que parece estrangeiro (Maria, João, André, Michel), vai encontrar funcionários que duvidam de sua nacionalidade. No mínimo, vão pedir que mostre seus documentos. Se ele quiser casar, vão lhe pedir que se converta; se estiver já casado, será ameaçado de perder a mulher; se for uma moça, sofrerá pressões de todos os lados para que mude de religião.

Por esses motivos, alguns padres só administram o batismo depois de um longo período de preparação, para que as pessoas possam se conscientizar de todos os riscos que vão encontrar, se quiserem se tornar cristãos num país de maioria muçulmana. Além desses aspectos negativos, existem outros positivos: é possível encontrar cristãos e muçulmanos que se respeitam, são amigos e se ajudam nas dificuldades. Os muçulmanos admiram a solidariedade da Igreja do Níger com os mais desfavorecidos ou com as pessoas atingidas por catástrofes naturais, independente da religião a que pertencem. Admiram ainda mais o fato de que, entre o pessoal que trabalha a serviço da missão, haja tanto cristãos como muçulmanos.

Fonte: Spiritus

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