Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Diálogo interreligioso
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Não é muito comum ver líderes de diferentes confissões religiosas trabalhando juntos nem isso acontecia até poucos anos atrás em Uganda, país onde tivemos uma tradição de rivalidade aguda entre católicos e protestantes, assim como entre cristãos e muçulmanos. Falávamos sempre mal uns dos outros e nos fazíamos todo o mal que po-díamos. Se eles abriam uma escola ou um lugar de culto em um determinado lugar, tínhamos que nos esforçar para abrir outros o mais perto possível, para fazer concorrência. A mesma coisa faziam eles, se éramos nós que tomávamos a iniciativa. E se, por acaso, mostravam alguma vez um gesto de boa vontade, tínhamos que desconfiar e pensar que se tratava de uma armadilha para nos enganar. Chegou a guerra ao norte de Uganda em 1986. Desde então, morreram muitas pessoas, muitas ficaram mutiladas, as poucas estruturas que estavam em pé caíram e milhares de crianças permanecem seqüestradas no Sudão até agora. Não existe religião autêntica que não pregue a paz. E, como devia-se esperar, depois de alguns momentos de medo e indecisão por parte de bispos, sacerdotes, reverendos e khadis (líderes muçulmanos), muitas pessoas de boa vontade de todos os grupos religiosos se comprometeram seriamente na assistência às vítimas da guerra. Alguns chegaram a arriscar-se, denunciando crimes e abusos contra os direitos humanos e não faltaram os que se converteram em alvo do ódio dos guerrilheiros e dos soldados do governo, pagando até com a própria vida. Porém, chegou um momento em que nos demos conta de que, trabalhando cada um do nosso lado, por muito que fizéssemos, não teríamos tanta força como fazendo-o juntos. Por isso, era preciso que nos convertêssemos todos, com humildade, deixando atrás muitos preconceitos. Um dia de 1997, decidimos nos reunir todos, católicos e protestantes, para rezar juntos e continuar a nos reunir também com os muçulmanos todas as semanas. Assim nasceu o grupo Iniciativa Acholi pela Paz (Acholi é o grupo étnico da região), formado por líderes religiosos católicos, protestantes e muçulmanos. Em outubro do ano passado, o arcebispo católico, o bispo anglicano e o líder dos muçulmanos viajaram aos Estados Unidos para um encontro com várias personalidades do Congresso e das Nações Unidas, com o objetivo de procurar uma mediação internacional para a paz no norte de Uganda. Alguma coisa conseguiram. No dia 8 de dezembro passado, os presidentes de Uganda e do Sudão país que apóia a guerrilha do norte de Uganda firmaram em Nairobi, capital de Kênia, um acordo de paz. No mesmo dia, o Parlamento promulgou a lei de anistia, que oferece uma possibilidade de reinserção aos rebeldes que deixem as armas. Como conseqüência desses esforços, algumas crianças seqüestradas pela guerrilha estão regressando a seus lares. Há pouco mais de um ano, um grupo de mulheres abriu, na cidade de Kitgum, um centro de acolhida onde se oferece a essas crianças assistência médica e psicológica, enquanto se procuram as famílias. Faltava dinheiro para completar a construção do centro e um dia o arcebispo católico, o bispo anglicano e o líder dos muçulmanos anunciaram, ao mesmo tempo nos seus lugares de culto, que sairiam nas ruas de Kitgum para recolher dinheiro para ajudar essas vítimas inocentes. Cada um pegou sua cesta e andaram o dia todo pedindo ajuda. Os políticos fora uma ou duas honrosas exceções não vieram. Os caciques do lugar prometeram em público que dariam enormes quantias, que até agora estamos esperando. Os pobres deram o óbolo da viúva, que tornou possível a construção do centro. Iglesia sin fronteras, n. 230/2001 |
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