Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Diálogo interreligioso

A Iniciativa das Religiões Unidas - URI - nasceu de um sonho acalentado durante mais de um século e teve como ponto de partida o I Parlamento Mundial das Religiões, acontecido em Chicago em 1893. Este Encontro marcou o início de buscas intensas de diálogo e cooperação entre as grandes religiões do mundo, culminando numa organização que pretende ter o estatus da ONU, congregando a sabedoria acumulada durante séculos e milênios, pelas religiões e tradições espirituais para estabelecer a cooperação, a paz e a cooperação multirreligiosa entre povos, nações e etnias do mundo inteiro, colocando-se a serviço da vida dos seres vivos e do planeta.

A URI nasceu por iniciativa de um bispo episcopal da Califórnia, William Swing, por ocasião da comemoração do cinqüentenário da criação da ONU. Na celebração multirreligiosa que marcou a data, no dia 21 de junho de 1995, Swing perguntou aos presentes: "Se as nações do mundo inteiro podem se ajuntar para buscar a paz, por que as religiões não podem fazer o mesmo?".

Em fevereiro de 1996, ele iniciou uma longa jornada ao redor do mundo, onde se encontrou com lideranças religiosas que incluem a Madre Teresa de Calcutá, o Dalai Lama, o arcebispo anglicano de Canterbury, o arcebispo Fittzgerald, o cardeal Arinze do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso e o próprio papa João Paulo II.
Em junho de 1996, aconteceu a I Conferência Mundial da URI, com 55 pessoas. A partir daí, seu crescimento tem sido vertiginoso. Hoje, está presente em mais de 167 países. Um mutirão de líderes religiosos dos cinco continentes escreveu sua Carta Fundacional.

Em julho de 2000, a Carta da Iniciativa das Religiões Unidas foi assinada, com peregrinações de caminhadas e celebrações da paz entre as religiões, nas vilas, cidades e metrópoles em todo o mundo, marcando o início oficial da URI.

A Iniciativa das Religiões Unidas é uma rede global dedicada à promoção permanente da cooperação inter-religiosa.

Seu objetivo é colocar um fim à violência por motivos religiosos, cultivar culturas de paz e cura para a Terra e todos os seres vivos. A cura da terra traz em si todo o desafio da questão ecológica, da necessidade do uso sustentável dos recursos do planeta, ameaçados pelo mau uso. Diz respeito, também, às relações injustas entre países e povos e à distribuição desigual das riquezas.

Sendo "uma iniciativa global por mudanças, a URI é um convite à participação de todos, procurando trazer as religiões e as tradições espirituais a uma mesa comum, a um encontro global permanente e cotidiano, no qual, a partir das peculiaridades de cada um, seja possível buscar a paz entre as religiões e trabalhar juntos pelo bem de toda a vida e para a cura do mundo".

Ela não quer se tornar uma espécie de nova religião mundial ou a porta-voz única das religiões. Faz parte de seus princípios, estimular cada pessoa a enraizar-se profundamente em sua própria identidade religiosa. O seu fundador argumenta que, "da mesma forma que as Nações Unidas não são uma nação, as Religiões Unidas não serão uma religião".

Dela podem fazer parte todas as pessoas e grupos que aceitam o Preâmbulo, o Propósito e os Princípios da Carta de Fundação, assinada no Encontro Estadual de URI dia 01/06 2000, por meio um Círculo de Cooperação (CC) que a partir do Preâmbulo, do Propósito e dos Princípios, tem autonomia e responsabilidade de condução e escolha de atuação.

As condições de criação de um CC são, ao menos, reunir sete membros, representando no mínimo três religiões, expressões espirituais ou tradições indígenas. Como a URI é auto-organizativa, cada CC pode escolher a forma de agir na sociedade e determinar o que quer fazer. Há grupos que trabalham das mais variadas formas e na mais diversas atividades: AIDS, mulheres, direitos humanos, meio-ambiente, justiça e paz... tudo o que contribua para a segurança, a felicidade e o bem estar de toda a vida.

A URI NO BRASIL

No Brasil, muito além das iniciativas conhecidas do diálogo inter-religioso explícito, há um grande número de interações das mais diversas formas, seja nos movimentos sociais - os chamados movimentos populares - seja no ensino religioso escolar, que tem por finalidade educar para viver numa sociedade plural.

Todos esses encontros e contatos, que se dão num cenário permeado de práticas religiosas sincréticas, ecléticas, universalistas, espiritualistas, de formas religiosas com contornos mais ou menos definidos, prepararam o terreno propício para a implantação da URI.

O diálogo inter-religioso, na sua forma mais organizada, começou a tomar forma a partir de 1950. Na Igreja católica, destacamos a figura do monge beneditino, dom Timóteo Amoroso Anastácio, da Bahia, primeiro membro da hierarquia, nos anos 1970, a receber uma mãe-de-santo como tal.

Por influência de pe. Luís Dollan, um argentino radicado em Nova York, membro fundador da URI, que mantinha contato com d. Paulo Evaristo Arns e pessoas envolvidas em diálogo inter-religioso em São Paulo, aconteceu o primeiro Encontro da URI no Brasil, no Parque de Itatiaia, no Rio de Janeiro, de 28 a 31de maio de 1999.

"O grupo diversificado de 142 participantes se reuniu como se estivesse participando de um retiro. As tradições presentes eram: anglicana, antroposofia, Baha'I, Brahma Kumaris, candomblé, católica, evangélica, Grande Fraternidade Universal, Legião da Boa Vontade, Hare Krishna, hinduísmo, tribos indígenas, islã, kardecista, luterana, maçonaria, budismo mahayana, Igreja messiânica, metodista, presbiteriana, Religião de Deus, Rosa Cruz, Santo Daime, espiritualismo, sufismo, budismo tibetano, umbanda,

xamanismo, xintoísmo, Oomoto e zen budismo". O Encontro de Itatiaia ajudou diversos grupos a aprofundar o diálogo e a cooperação entre as religiões que convivem em nosso país.

Hoje, a URI tem grupos em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, e vai sediar, em agosto de 2002, no Rio de Janeiro, a I Assembléia Geral da Organização, fora dos Estados Unidos. O Círculo de Cooperação de São Paulo tem cerca de trinta participantes, de cerca de dezesseis religiões e tradições espirituais diferentes. Seu percurso é marcado pelas dificuldades de se afinar com cosmovisões diferenciadas, numa busca paciente de compreensão empática do outro e na necessidade de se abrir para acolher respeitosamente manifestações religiosas que podem se contrapor à própria crença.

A atuação do CC de São Paulo acontece na convivência inter-religiosa, na ação social em favor da paz e da vida, na educação inter-religiosa para a paz. Em outras palavras, a URI quer ter uma prática efetiva de transformação social, a partir da cooperação de seus membros.
As manifestações públicas do grupo estão sempre embebidas na espiritualidade, que se manifesta por meio da oração, com o matiz de todas as tradições envolvidas. Nessas ocasiões, cada um traja as insígnias próprias de sua religião ou tradição espiritual.

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