Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização Geral

BRASIL Missionário

João Panazzolo*

Tradicionalmente, identificava-se "missão" com os "territórios de missão", considerados terra de populações "pagãs". Em Puebla, destacando uma reflexão que acontecia há alguns decênios, afirmou-se que esta não correspondia mais a toda realidade missionária, porque existiam "situações missionárias", que não se encaixavam naquela descrição que se tornara restrita demais. As "situações missionárias" foram identificadas com os indígenas, os afro-americanos, os migrantes, as populações urbanas, os grupos em precárias situação de fé, os universitários, os operários, os jovens, o mundo das comunicações sociais, etc. (365-367). Tudo isso incentivou nossas Igrejas a continuar a caminhada da organização missionária com novos horizontes.

Organização

O compromisso missionário da América Latina revelou-se uma missão "sem ouro nem prata", no dar e no receber, de Igrejas solidárias, que evangelizam "com renovado ardor missionário", de animação missionária inserida em todas as pastorais, organizando as Igrejas particulares como "Igrejas missionárias".
A Dimensão Missionária da CNBB, ou Linha 2, foi crescendo em sua identidade, mantendo viva a vocação do compromisso missionário universal das Igrejas particulares. Articulou-se com as Pontifícias Obras Missionárias (POM), Organismos e Institutos Missionários e juntos fundaram, em 1972, o Conselho Missionário Nacional (COMINA), que em 1991 atualizou seu estatuto como Conselho representativo de todas as forças missionária da Igreja do Brasil.
Nove anos após a convocação missionária de Puebla, nossos bispos, na Assembléia Geral da CNBB de 1988 confirmaram a chegada da "hora missionária" da Igreja no Brasil, através de um documento fundamental: "Igreja: Comunhão e Missão" (Doc. n.º 40). Para frisar sua importância, basta citar esta frase: "As missões 'ad gentes' não são algo facultativo para a Igreja local, mas fazem parte constitutiva de sua responsabilidade" (n.º 117).
Intensificou-se o processo de or-ganização da Dimensão Missionária nos Regionais, dioceses e paróquias, por meio de Conselhos Missionários Regionais (COMIREs), dioce-sanos (COMIDIs) e paroquiais (COMIPAs), verdadeiros pontos de animação missionária locais.
Para atender à formação missionária, criou-se, em 1981, o Centro Cultural Missionário (CCM), integrando o Centro de Formação Intercultural (CENFI), destinado a missionários(as), que vêm em missão ao Brasil: o Serviço de Colaboração Apostólica Internacional (SCAI) no atendimento das exigências legais dos missionários que chegam e que partem; e o Centro de Animação e Estudos Missionários (CAEM) para formação e animação missionária.
Muitas outras iniciativas de formação surgiram em diversas partes do Brasil. Cursos de duração variada para leigos, religiosas e seminaristas (dentro do curso teológico) até o curso acadêmico de missiologia na Faculdade da Assunção de São Paulo.
A Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) abre perspectivas de presença da vida religiosa por meio de comunidades inseridas e cria grupos de Reflexão e Animação Missionárias (GRAMs).
O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), fundado em 1972, cresceu no trabalho específico junto aos povos indígenas, no reconhecimento, respeito e apoio às suas culturas, na defesa do direito da terra e na autonomia como pessoas e povos, construtores de sua história.
Abertura

O Programa Igrejas-Irmãs (1972), por meio de muitos projetos, favoreceu a ajuda e a comunhão entre Igrejas particulares e continua produzindo excelentes frutos.
A "Missionariedade e Solidariedade entre as Igrejas no Brasil" foi a conclamação apresentada na Assembléia Geral da CNBB de 1998, por dom Erwin Krautler, bispo do Xingu e responsável pela dimensão missionária da CNBB. Diante do "grito da Amazônia", os Regionais se reuniram e apresentaram projetos de intercomunhão eclesial, já em fase de realização.
O grande testemunho, porém, de comunhão e missão é o crescimento da consciência missionária e o trabalho conjunto e articulado dos Organismos e Instituições. Desta união de forças amadureceram projetos de Igrejas Solidárias além-fronteiras, iluminados por "uma nova proposta: organização e coordenação de missio-nários(as) brasileiros(as) além-fronteiras", que foi apresentada pela primeira vez na Assembléia Geral da CNBB de 1990. O Projeto prevê, entre outros aspectos, suscitar vocações missionárias, acompanhar missionários(as) em todos os sentidos, inclusive financeiro, acolhê-los; escolher os locais de missão, realizar intercâmbio entre a Igreja que envia e a que recebe. O projeto recebeu o nome de "Organismo Missionário Nacional" para a missão além-fronteiras.
A dimensão eclesial da missão aparece nas novas formas de envio: equipes, grupos intercongregacionais e com leigos. Os que eram enviados por institutos missionários e congregações religiosas, agora são mandados em nome da Igreja particular, sujeito da missão.

Crianças e leigos

Um sinal profético é o impulso e a reorganização que as Pontifícias Obras Missionárias, junto com os COMIREs e COMIDIs estão dando à Infância Missionária. Está se despertando novamente o protagonismo das crianças e dos adolescentes na evangelização e na solidariedade ("criança evangeliza e ajuda criança"), com entusiasmo e criatividade de iniciativas, que muitas vezes envolvem e transformam os próprios adultos.
Os Congressos Missionários La-tino-Americanos (COMLAs) "têm sido um incentivo para tomar consciência da exigência evangélica da missão até os confins da terra" (Santo Domingo, n.º 125). O COMLA 5 (Belo Horizonte 1995), por meio da sua preparação, celebração e implementação, foi verdadeiramente uma graça que nos colocou em polvorosa missionária.
O Projeto de evangelização "Rumo ao Novo Milênio" integra as propostas missionárias do Comla 5. Missão "ad gentes" e além de todas as fronteiras, inculturação e suas exigências de serviço, diálogo, anúncio e testemunho são, hoje, realidades no cotidiano da ação evangelizadora de nossas Igrejas. Uma das experiências mais significativas do despertar evangelizador das nossas Igrejas, no limiar do Terceiro Milênio, são as santas Missões Populares, nas quais o protagonismo missionário dos leigos se realiza de maneira consciente e plena.
Toda essa caminhada, fortemente impulsionada por Puebla, testemunha, apesar dos limites e das lentidões, que as nossas comunidades eclesiais no Brasil estão inserindo a dimensão missionária como elemento primordial em toda ação evangelizadora de nossas Igrejas, rumo à abertura e às novas fronteiras.

*Diretor nacional POM

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