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Evangelho e Alcorão: diálogo difícil mas não
impossível
Alberto Garuti
É possível o diálogo entre cristãos e muçulmanos?
Analisemos a situação dos cristãos em dois países
islâmicos, o Egito e a Argélia. Talvez encontremos pistas
para uma resposta
Quem acompanha o noticiário internacional, sem dúvida,
terá notado como, nesses últimos tempos, em determinados
países, a convivência entre cristãos e muçulmanos
tornou-se mais difícil, para não dizer quase impossível.
Basta citar os enfrentamentos freqüentes entre os dois grupos, na
Indonésia, que deixaram um saldo de mortos, feridos, incêndios
e destruições. Tudo isso nos levaria a uma simples conclusão:
cristãos e muçulmanos nunca irão se entender. Mas,
talvez, uma conclusão como essa seja um tanto apressada.
Uma análise de como os cristãos vivem em dois países
onde os muçulmanos são maioria absoluta, o Egito e a Argélia,
pode nos mostrar por onde passa o caminho do entendimento entre os adeptos
dessas duas religiões.
Os cristãos no Egito
Se comparado com outros países islâmicos, o Egito é,
relativamente tolerante com as outras religiões. As dificuldades
que os cristãos encontram para viver nesses países, derivam
do fato de que o islã é, ao mesmo tempo, religião,
sociedade e cultura. O sistema islâmico tem por objetivo "islamizar"
todos os aspectos da vida de uma sociedade. Eis alguns exemplos, tirados
da vida de todos os dias.
Tudo começa antes do alvorecer: os alto-falantes das mesquitas
acordam todo mundo, convidando todos a rezar. Durante o dia inteiro, as
rádios transmitem versículos do Alcorão. Os programas
de rádio e televisão, até os noticiários,
são interrompidos com freqüência por apelos à
oração e pela repetição da máxima muçulmana;
"Não há outro Deus a não ser Alá e Maomé
é seu profeta".
Nas escolas, o islã é matéria obrigatória
até para os cristãos. Todo dia, as aulas começam
com a leitura e o comentário de algum trecho do Alcorão.
Trata-se de uma doutrinação sistemática.
Mas o islã interfere na vida de todos também no que diz
respeito a questões que, aparentemente, não teriam muita
importância. No Egito, um cristão não pode criar porcos,
pois isso poderia desagradar a algum muçulmano. Durante o mês
do Ramadã, a vida social fica perturbada. A obrigação
do jejum total durante o dia pode servir de desculpa para o não
cumprimento de determinados compromissos, e as festas noturnas, que se
fazem para compensar o jejum durante o dia, muitas vezes não deixam
os outros dormir. Ninguém, nem o cristão, nesse mês,
pode comer publicamente durante o dia. Há países, como a
Líbia, onde quem o fizer, ainda que seja cristão, é
preso e colocado na cadeia.
Praticamente, quem vive no Egito, é obrigado a viver como muçulmano,
queira ou não queira, sob pena de sentir-se excluído da
sociedade. Um cristão, muitas vezes, em situações
como essas, acaba vivendo como um muçulmano e nem se dá
conta.
Chegaríamos à conclusão de que é praticamente
impossível existir um país islâmico onde as outras
religiões gozem de total liberdade e respeito. Quem não
cumpre à risca tudo o que o Alcorão manda, acaba sendo marginalizado
em sua própria sociedade.
É o efeito do integralismo muçulmano. Então é
impossível o diálogo e a convivência entre muçulmanos
e cristãos, por exemplo, no respeito de cada um pela religião
do outro?
Podemos achar a resposta, observando o que está acontecendo num
outro país muçulmano, a Argélia.
Ser cristão na Argélia, hoje
Calcula-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido na Argélia
desde que a guerra civil começou, em 1992, entre os fundamentalistas
islâmicos e os militares que estão no poder. Quando a guerra
civil começou, os estrangeiros foram um dos principais alvos dos
fundamentalistas: entre eles, um bispo, muitos padres e religiosas foram
mortos nesses anos. Sua permanência no país representou um
risco tão grande que bispos e superiores religiosos deixaram a
cada missionário a liberdade de escolha: ou ficar ou voltar à
própria terra. Todos os padres e religiosos e quase todas as religiosas
preferiram ficar, mesmo correndo sério risco de vida.
O que pensar da possibilidade de diálogo numa situação
como essa? Se é difícil no Egito tolerante, seria possível
na Argélia onde domina o mais radical integralismo?
Dom Henry Tessier, arcebispo de Argel, apresenta interessantes considerações
a respeito:
o o integralismo compromete as chances de uma relação pacífica
entre cristãos e muçulmanos;
o os excessos do integralismo aproximam cristãos e muçulmanos.
É o que está acontecendo na Argélia.
Os excessos dos integralistas radicais argelinos que os levaram a matar
indiscriminadamente estrangeiros e argelinos, padres, religiosas, jornalistas
e pessoas do povo levou os muçulmanos sinceros e honestos a se
perguntarem: "será que a nossa religião quer que a
gente chegue mesmo a isso?". Essa autocrítica fez com que
muitos muçulmanos descobrissem muitos valores de sua religião
que até então tinham ficado em segundo plano, encobertos
pelas várias formas de integralismo e fundamentalismo. Criou-se,
especialmente na Argélia, uma simpatia por esses cristãos
que, livres para ficar ou ir embora, preferiram permanecer, mesmo com
risco de vida, para compartilhar esses riscos com os muçulmanos.
E essa simpatia está levando muitas pessoas a descobrirem que há
muita coisa em comum entre as duas religiões que certo fanatismo,
até agora, não tinha deixado perceber.
Quando, em 1994, foram mortos um religioso e uma religiosa, alguns muçulmanos
escreveram a dom Tessier esta carta: "Nós, A.B., jornalista,
e M.M., professor universitário, queremos testemunhar hoje toda
nossa amizade e fraternidade neste drama que tocou todos nós. Não
esqueçam nunca que vocês são nossos irmãos.
Qualquer que seja a diferença de nossos dogmas, temos a certeza
de que temos o mesmo Deus. E deixem-nos dizer-lhes: nós os amamos.
Uma vez por todas, contrariamente ao que pensam os assassinos, dizemos:
vocês estão em sua casa, nós lhes queremos muito bem
e rezamos ao seu lado".
Continua o arcebispo: "Testemunhos como esse tornam-se cada vez mais
freqüentes. São milhares, dezenas de milhares de muçulmanos
que nos conhecem e nos estimam. Agora, somos poucos cristãos na
Argélia, mas o que cada um de nós espera da graça
de Deus e de suas orações é podermos ser sinal em
terra islâmica para que, por meio de nós, Deus encontre -
também entre os muçulmanos - os seus filhos. Quando nos
encontramos, ele está presente para transformar todos: cristãos
e muçulmanos".
Esses depoimentos falam por si. Não há radicalismos, fundamentalismos
ou integralismos que impeçam o diálogo inter-religioso;
a condição é que, quem dialoga, esteja disposto a
ser verdadeiro e autêntico sinal de sua fé.
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