Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Anúncio
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Missão
como anúncio: por Estêvão Raschietti
É bem verdade que essa evangelização se expressa em algumas exigências básicas, como o serviço, o diálogo, o anúncio e o testemunho de comunhão. Também é verdade que o mundo de hoje "escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres" (Evangelii Nuntiandi, 41): a prática de vida fala muito mais alto do que as palavras. Contudo, nada parece tirar a importância "incômoda" da "proclamação explícita" da mensagem do Evangelho, o anúncio singelo e sem rodeios da fé em Jesus Cristo: "Na realidade complexa da missão, o primeiro anúncio tem um papel central e insubstituível" (João Paulo II, Redemptoris Missio, 44). Tudo isso, feitas as devidas ressalvas e não abrindo mão a concessões proselitistas e fundamentalistas, tem um seu sentido constitutivo para a ação e a reflexão missionária. Pregar o Evangelho é um mandamento de Jesus, e não apenas um bom propósito. Por isso, a Igreja faz próprias as palavras do apóstolo Paulo "Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!" (1Cor 9, 16). Não se trata, portanto, de algo facultativo, condicionado pelas situações ou pela mentalidade dos ouvintes. É um mandamento que tem valor absoluto para todos os tempos e lugares. Anunciar o Evangelho é uma necessidade que se impõe ao anunciador ("Ai de mim") e ao interlocutor, porque é condição necessária para o acesso à fé ("Como acreditarão... se não houver pregadores?"). EVANGELIZAR SOMENTE OS INTERESSADOS? Lembro-me de uma longa conversa com um amigo missionário que
vinha do Japão. Ele dizia que hoje existe um modo muito sutil de
contestar este mandamento, sobretudo, em ambientes onde domina o relativismo
cultural e religioso. Ou seja: vamos anunciar o Evangelho somente a quem
estiver interessado ou sentir algum tipo de chamado, de atrativo, de interesse. É evidente que o próprio Evangelho prevê o caso de rejeição, e quem o rejeita deve ser respeitado. Contudo, usar excessivas reservas para anunciar o Evangelho não significa "mais respeito": contribui, ao contrário, para aumentar a indiferença religiosa e tende a justificá-la. Houve, no passado, métodos de evangelização que não respeitaram as culturas e os direitos humanos. Isso, porém, não pode se tornar desculpa para justificar a nossa ingenuidade no presente, quando, por exemplo, acolhemos de maneira acrítica a proposta de não falar de Jesus Cristo para respeitar as tradições e os valores das outras culturas. O Evangelho deve ser anunciado no tempo "oportuno" e no "inoportuno". Ou o Evangelho é válido para todos, ou não é válido, no fundo, para ninguém. Isso quer dizer que deve ser anunciado também e, sobretudo, lá onde parece não haver interesse por ele, porque não o anunciar causaria conseqüências negativas. Além disso, defender que o Evangelho é apenas objeto de "interesse", torna vão o próprio Evangelho e a própria missão, uma vez que ele é a última resposta ao problema da fé e da existência, algo diante do qual nenhuma criatura humana pode ficar indiferente. RELEVÂNCIA UNIVERSAL DO EVANGELHO "Todos nós temos alguma coisa à qual damos a máxima importância e que dá sentido à nossa existência: o dinheiro, o poder, o prestígio, a profissão... Acredita-se que o Transcendente precede as coisas deste mundo, é sinal de que acreditamos em Deus. Se, pelo contrário, consideramos alguma causa, idéia ou ideologia mais importante, significa que temos algo ocupando o lugar da divindade. Crer na divindade de Jesus significa optar por Jesus como Deus. Negar a divindade de Jesus significa fazer das coisas um deus e colocar Jesus e tudo o que ele representa no segundo lugar da nossa escala de valores" (N. Noam).
Ainda o amigo missionário do Japão comentava: "Quando eu falo sobre a religião cristã a uma turma de alunos japoneses, tenho a certeza de suscitar neles alguns questionamentos, mas também de lhes prestar um serviço". A Conferência dos Bispos Latino-Americanos, em Puebla (1979), dizia que o melhor serviço que a Igreja pode prestar ao mundo é a evangelização. O EVANGELHO É COISA SÉRIA E EXIGE UMA RESPOSTA "Certamente, - ele continuou - precisa assumir a responsabilidade com aquilo que se diz; por outro lado, também os interlocutores devem fazer a sua parte. Devem saber que não se pode, com leviandade, recusar um certo tipo de mensagem. Se o fizerem, sofrerão as conseqüências." Podemos concordar até um certo ponto com essas afirmações. Contudo, um fundo de verdade existe e questiona a essência mais profunda da Missão: afinal, em quais motivações fortes ela está fundamentada? O Evangelho, o Reino de Deus, a pessoa e a mensagem de Jesus constituem realmente o âmago da nossa vida e da vida do mundo? O investimento de tempo, de recursos, do dom da nossa vida para a missão, tem sua razão de ser? É verdade que não podemos ter a pretensão de conhecer todos os mistérios divinos e de ter desvendado todas as respostas dos ânimos humanos. As sementes do Verbo estão espalhadas em todo canto, e os missionários são chamados a reconhecê-las. Mas é verdade também que o caminho de Jesus aponta para algo de essencial para a vida do mundo, e não de facultativo. Hoje, muitas pessoas dizem que é preciso tornar a mensagem evangélica mais atraente para ser acolhida pela mentalidade moderna. Ora, isso é bom e é verdade; mas, diz respeito mais à dimensão catequética da mensagem. A "primeira evangelização" feita num contexto de relativismo deve ser mais de impacto, escatológica e apocalíptica, no sentido bíblico do termo, para responsabilizar seriamente as pessoas em sua resposta diante do fim último que é Deus. Portanto, o Evangelho não deve ficar fechado no íntimo dos corações ou dos lugares sagrados: ele tem uma relevância universal para o mundo e exige uma postura e uma resposta responsável por parte de cada ser humano. |
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