Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Anúncio

reqüentemente falamos e escrevemos sobre diferentes aspectos de nossas atividades sociais. É mais difícil relatar o coração e o objetivo principal da vida missionária, que é o anúncio de Jesus, a boa nova do Evangelho, a quem ainda não o conheceu. Para nós, o primeiro anúncio do Evangelho é uma graça, um grande dom de Deus, porque podemos ver, experimentar, de modo evidente e palpável, a força da Palavra de Deus na pessoa e no grupo humano. As pessoas que começam a se abrir ao Evangelho entrevêem a luz, a liberdade e, através da Cruz, que purifica o que é velho, experimentam a vida nova, com conseqüente melhoria da qualidade de vida e das relações. Na visita às vilas, nos contatos com os catequistas, jamais deixo de perguntar: como vocês descobriram o Evangelho, o que aconteceu, por que vocês continuam fiéis? Por ser uma conquista recente, uma conquista de, no máximo, vinte anos, as respostas são entusiasmadas. Nas assembléias entre as vilas, os testemunhos se sucedem: “é assim mesmo, aconteceu conosco!”.

Na minha missão de Bissorá, os cristãos ainda são raros, uma ou duas famílias por vila; os demais estão a caminho e quem narra o início, fá-lo para reforçar os que ainda relutam. Portanto, o que os impele a aderir ao Evangelho? Tem razão São Paulo quando diz: “Como podem ouvir, se não há quem lhes anuncie?”. A irmã Maria passava, de moto, toda semana, pelo povoado de Blassar. O pessoal do povoado se perguntava aonde ia aquela “branca”. Aí, ouviram dizer que ela ia falar de um novo caminho, um caminho para Deus. Também eles, sem entender bem o que era aquilo, reuniram-se e pediram à irmã que fosse visitá-los. Agora, já há três famílias cristãs entre eles. O povoado de Cossebá conheceu Jesus através do professor da escola. Foi ele quem falou algumas coisas acerca do Evangelho. Em Bunghara, o anúncio é mais recente e as dificuldades para acolhê-lo são muitas. Um ancião, durante um encontro de catequese, disse-me: “Ainda que tenhamos dificuldade para entender o caminho de Cristo, não devemos deixá-lo, porque, quando estive doente, as irmãs cuidaram de mim; é este o caminho certo”.

Em Quinden, um senhor de quarenta anos percorre à pé, já há dois anos, vinte quilômetros para assistir à Missa dominical. Ele disse que um dia será batizado. Sua perseverança nos obrigou a iniciar os primeiros contatos com sua vila. Mais ainda: perto da vila de Quinden há o povoado de Intcherte. Um dia, seu líder nos visitou e, insistindo para que fôssemos lá, disse: “Já temos uma escola, uma pequena farmácia e agora queremos conhecer a Deus, desejamos esse caminho para nossos jovens”. Assim, nós, missionárias, temos o privilégio de ver a obra do Espírito Santo que, criativamente, promove o encontro das pessoas com Cristo. A alegria do missionário é ver, na obra do Espírito, que Ele, chamado a ser nosso mediador, sustenta-nos e nos encoraja com o dom da perseverança e da paciência. Após os primeiros contatos, o que fazer para conhecer, criar amizade e confiança recíprocas? Não há uma receita universal, mas anuncia-se a Palavra de Deus, fala-se de Jesus.

As pessoas que não fazem elucubrações complicadas, aceitam rapidamente os exemplos concretos do Evangelho e, depois, lentamente, vão agregando a Palavra à sua vida. A experiência nos mostrou que no início há entusiasmo, do qual a população participa em massa, esperando que, junto com a Palavra de Deus, venham outras coisas. Além disso, como se diz por aqui, há a fase da malagueta. A malagueta é uma pimenta ardida. A Palavra de Deus é como a pimenta que queima e, lentamente, purifica, fazendo brotar novos comportamentos, selecionando e chocando-se com alguns aspectos das culturas locais. Assim aconteceu em nossas vilas mais “antigas”. Hoje há um pequeno rebanho, no qual o Evangelho vai lentamente mudando a vida. Ele é uma pequena luz que resplandece, uma árvore em cuja sombra os outros descansam. São pessoas que não abandonaram a vila para se tornarem cristãs; mas vivem ao lado e junto de seus parentes, que ainda fazem cerimônias aos espíritos, mas que, se ocorre um problema na vila, procuram-nos para uma solução diferente da vingança tradicional.

Os cristãos mostram aos demais que marido e mulher podem encontrar a melhor solução para a família através do diálogo. Demonstram que é possível existir apenas um caixa em família e administrá-lo responsavelmente, sem desconfianças recíprocas. A vila estranhou que Seidu, o pai, limpasse a casa e desse banho nas crianças, mas sua família é serena e, reunidas ao redor de Sima, a mãe, muitas jovens se preparam a ser futuras mamães. É o Evangelho que entra na vida das pessoas, em seus hábitos culturais e as transforma, criando uma realidade mais bela, mais humana. Também aqui surgem fragilidades, períodos obscuros, dúvidas, para eles e para nós; mas os sinais de vida são tantos, maiores que tudo. Muitas vezes, nas reuniões de formação dos catequistas, elevam-se frases do tipo: “É o caminho certo, estamos felizes”. Então, para ver se o Evangelho é verdadeiro, é preciso começar a vivê-lo. Qual é a relação de nós, missionárias, empenhadas em tempo integral e pela vida inteira, na aventura do primeiro anúncio do Evangelho?

Devemos refletir sobre nossa ação, nosso estilo, para nos colocar à escuta do Senhor nas situações concretas. É evidente que, na maior parte dos casos, o primeiro anúncio do Evangelho chega através da aproximação, da relação, do contato humano. É, seguramente, obra do Espírito, que suscita o encontro e cria condições para a abertura ao dom. Precisamos de pessoas livres, que amem a Deus. Pessoas que, apesar dos próprios limites e da luta cotidiana, doam esperança, confiança, mostrando que, na frente, há o caminho que liberta do medo de não saber o que pensa Deus a respeito do mundo e da vida humana.

Quem faz o primeiro anúncio deve ter fé firme e profunda serenidade nas relações, para indicar que está sobre a rocha e que descobriu o sentido da sua vida. Tal disposição e humildade são necessárias para se achegar à cultura africana sem pressa, escutando muito, pedindo explicações para não se arriscar a fazer falso juízo. O primeiro anúncio do Evangelho deve ser límpido, sem promessas implícitas para atrair para si. O missionário não pode mais anunciar o Cristo sozinho, como antigamente. A comunidade, embora reduzida, é adulta e pode expressar a novidade do Evangelho com linguagem e símbolos africanos mais compreensíveis.

Os nossos cristãos, se bem acompanhados, apresentam modelos de vida, exemplos, soluções para as dificuldades de maneira mais compreensível, a partir do seu próprio testemunho de vida. Como missionária, tenho o dever de crer na eficácia da Palavra; tenho a obrigação de suplicar para que o Espírito Santo desperte disposições adequadas no coração de quem anuncia. Também na Guiné-Bissau a Igreja aprofundará raízes, ajudará os guineenses a mostrarem o rosto africano de Cristo, será sinal de esperança e de vida entre este povo que, em meio a tantos sofrimentos e privações, invoca o nome de Deus e o procura.

Missionárias da Imaculada
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Tel.: (11) 3251.2395 – Fax: (11) 3284.5563
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