Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização Geral

O Evangelho na terra dos astecas

Alberto Garuti

O México esteve na primeira página dos jornais nestes últimos tempos, quando pela primeira vez depois de 71 anos, um candidato da oposição, Vicente Fox, derrotou o representante do Partido Republicano Institucional, nas eleições presidenciais.
Do México os jornais falarão de novo quando, antes do fim do ano, o papa João Paulo II declarar santos 25 mártires (23 padres e dois leigos), que foram mortos durante a revolta dos "Cristeros".
Neste número, "Mundo e Missão" apresenta o trabalho de um padre do Pime, Graziano Rota, que esteve durante 11 anos no Brasil, realiza agora naquele país, junto a uma população indígena da etnia mixteca e, em seguida, algumas considerações gerais sobre a religiosidade dos mexicanos.

Evangelizando os mixtecos

Há oito anos, o Pime está presente no México, na diocese de Acapulco. Pe. Graziano Rota vive agora numa região montanhosa a 180 km de Acapulco, no meio de uma população indígena, os mixtecos, com língua e cultura própria. Quase todos, com exceção dos mais velhos, falam também o espanhol. Entrevistado por "Mundo e Missão", ele descreve a cultura e a religiosidade desse povo e expõe seus planos pastorais, mostrando a intenção de respeitar os valores da cultura local em seu trabalho de evangelização.

O local

A missão de pe. Graziano é formada por duas povoações, Cuanacaxtitlan e Yoloxochitl, no Estado de Guerrero, no sul do México, chamadas pelo povo de Cuana e Yolo. A maioria das casas é de adobe, ou tijolo cru, feito com argila seca ao sol. Trata-se de habitações pequenas, térreas, para uma só família, feitas de um só local, quase sempre sem janelas, provavelmente para garantir um clima mais fresco em seu interior. A ventilação é assegurada por duas portas, em paredes opostas, que permanecem sempre abertas.
Chuvas e secas se alternam com muita regularidade durante o ano. Entre junho e setembro, chove muito, às vezes torrencialmente, o que quase torna impraticável a única estrada de terra que une as duas povoações a São Luís de Acatlán, um centro maior onde termina a estrada de asfalto que vem da capital do Estado, Acapulco. De outubro a maio, são oito meses de seca total. A impressão que o visitante tem é de que a poeira está em todos os lugares, uma poeira branca e fina que nada mais é do que a areia da estrada que o vento leva até a copa das árvores e até dentro das casas.

A posse da terra

Os mixtecos, como os astecas, os toltecas, os olmecas e outras, são uma das etnias que habitavam o México, já vários séculos antes da chegada dos espanhóis. Entre eles não existe latifúndio, porque não existe propriedade particular da terra, considerada um bem da comunidade. A cada família é confiado um pedaço para cultivar. A distribuição das terras para trabalhar é decidida por um grupo de anciãos, chamados os principais. O responsável último é o comissário ejidal (ejido, na língua mixteca, é todo o terreno que pertence à comunidade).
Se um determinado terreno, confiado a uma família, mostra ter uma finalidade para a comunidade, é retirado da família que vai receber outro do mesmo valor. Entre os terrenos comunitários (onde se encontram a escola e o centro de saúde por exemplo), existe também o parque comunitário: há um projeto de transformá-lo em escola agrícola para ensinar novas técnicas para o cultivo, por exemplo, como tornar mais fértil o terreno sem usar inseticidas ou herbicidas.
Pelo fato de terem seu pedaço de terra, todos têm garantido pelo menos um prato de comida na mesa. Contudo, as oportunidades que a sociedade oferece aos mixtecos param aqui: cultivar seu pequeno pedaço de terra e formar sua família. Não existem possibilidades de subir na vida ou de continuar os estudos depois do curso primário. Os jovens, em sua maioria, saem para as cidades vizinhas e, em geral, não voltam mais.
Os habitantes tiram da terra tudo o de que precisam: alimentação, especialmente baseada no milho e no feijão, a lenha para cozinhar, pois não têm gás, madeira e tijolos para construir as casas. Existe pobreza, mas não miséria. Não se vêem as diferenças gritantes entre os muito ricos e os muito pobres, como no resto do México ou como em outros países latino-americanos. Todos têm o mínimo indispensável para sobreviver, embora o dinheiro seja muito curto. O comércio entre eles é feito, geralmente, na base da troca. O dinheiro que têm é o que o governo passa: 500 pesos (mais ou menos cem reais), a cada dois meses, a todas as famílias que têm fi-lhos na escola. A alimentação é escassa: geralmente tortilla de milho, feijão e vários temperos à base de pimenta. Eles comem carne só quando são convidados a alguma festa, como casamentos. Quando morre alguém, mata-se um porco.

O casamento

Eles ficaram isolados durante séculos, não tiveram contatos durante muito tempo com outras culturas. Por isso, tudo é regulado pela tradição, nada muda. Até a própria maneira de tocar os sinos é regulada pela tradição. Não aceitam que se mude algo em seus costumes, nem nos aspectos mais insignificantes. Por exemplo, a hora de verão existe, mas ninguém a segue, também porque ninguém tem relógio. (E por que ter relógio, se o relógio deles sempre foi o sol?).
Há algumas tradições que se mantêm com muita força: o sentido da hie-rarquia na família e o respeito ao ancião. O desrespeito aos pais, avós e às "pessoas grandes" (anciãos) da comunidade é o pecado que eles mais sentem e mais confessam. Tradição e respeito ao ancião têm um grande peso na ocasião do casamento: são os pais que escolhem o parceiro, é o pai que pede à outra família a mão da esposa para o filho. Não existe namoro. Os matrimônio são arranjados pelos pais. Os jovens chegam ao casamento quase sem se conhecerem. Até aos encontros de noivos, os jovens chegam acompanhados pelos pais. Quando vêm para os papéis de casamento, são os pais que apresentam os jovens. Quando o pároco tenta dizer que não acha certo esse comportamento, eles concordam, mas é só da boca para fora. Essa tradição está tão enraizada em sua cultura, que não conseguem nem imaginar que as coisas possam se dar de maneira diferente.
É importante que o Evangelho penetre de maneira muito profunda na cultura, para que certas expressões da mesmas possam mudar. Estamos ainda longe desse momento. Diz o pároco que ele se esforçou para ver algo de positivo por ocasião de um matrimônio; com efeito, toda a comunidade se envolve, toda a cidade participa, todos oferecem algo. E isso é bom. Mas não justifica que a escolha não seja de livre e espontânea vontade dos noivos.
Na cultura mixteca só o homem é valorizado. A função da mulher é dar à luz os filhos, preparar a comida, manter a casa em ordem e responsabilizar-se pela educação da prole. Mas é o homem quem decide e resolve tudo. A economia e o poder em geral estão na mão dele.

A higiene

As condições de higiene e saúde são precárias, ligadas ao problema da água e da escassa e não balanceada alimentação (pouca carne). Na região, alternam-se períodos de chuvas torrenciais e de seca total. Já no fim desse período de seca, os riachos estão quase secos, sobram algumas poças de água aqui e acolá, onde todos lavam e se lavam, onde os animais bebem e de onde se tira a água para levar para casa. Algumas famílias acostumaram-se a ferver a água, outras não. Há dúvidas de que até nos mananciais a água não seja potável. Muitos deles têm um físico acostumado a tomar essa água. Quando um missionário, convidado a ir a casa de alguém, toma essa água, acontecem desastres. Contudo, mesmo entre eles, são freqüentes as doenças por causa da água poluída.
Nesses casos, temos um centro de saúde, com um médico e uma enfermeira. Eles atendem, receitam remédios mas não distribuem nenhum. E o povo, que está com dinheiro curto, muitas vezes não os compra.

Hospitalidade

É um dos grandes valores na cultura dos mixtecos. Se chega um parente ou um amigo, ninguém vai trabalhar, para que o hóspede não se sinta só, esquecido, e para que todas as suas exigências possam ser satisfeitas. Se o hóspede precisar de alguma coisa e quem o recebe não a tiver, pede ao vizinho e este, ainda que se trate de uma televisão, não vai negá-la. Nada se nega ao hóspede. Ainda que como amigo ele não esteja disposto a emprestar o que o outro pede, por causa do hospede, sempre o fará. E se, nesse caso, algo do que foi emprestado se estragar, ninguém vai exigir o conserto. Por que esse grande valor atribuído à hospitalidade?
Pe. Luciano Ghezzi, que já foi missionário nas Filipinas e agora é pároco em Acapulco, mas também já foi pároco em Cuanacaxtitlán, acha que, antigamente, o hóspede era alguém que trazia notícias, era o elo de união entre as várias povoações. Ele, que vinha de longe, fazia, de certa forma, o papel que hoje exerce a imprensa. Era muito útil para eles. Esse ser muito útil foi, aos poucos, tornando-se sagrado, para que as gerações futuras mantivessem as tradições. Aos poucos, o hóspede foi sendo sacralizado e institucionalizado.
O apego às antigas tradições é tão forte entre os mixtecos, que mesmo as novas gerações, apesar de deixarem sua terra em busca de trabalho na cidade grande, como Acapulco, o carregam sempre consigo. Quando voltam, mergulham de novo no modelo cultural no qual eles cresceram. Não se reconhecem mais nas tradições da cidade grande, e sim na própria, mesmo que temporariamente a tenham abandonado.

Religiosidade

Eles foram todos evangelizados, primeiro pelos dominicanos, depois pelos agostinianos. Esses eram monges itinerantes, que permaneciam no lugar durante um certo período, mas não se fixavam. Somente há vinte anos, começou uma presença religiosa contínua: antes uma comunidade de irmãs, depois os padres do Pime. Até agora, foi uma evangelização epidérmica, superficial, que ainda não penetrou na cultura. A fé se mistura com as tradições. Por exemplo, na Semana Santa, houve a presença de algumas figuras típicas, uma espécie de benzedores que eles chamam de cantores. O povo acha que eles têm o poder especial de curar os doentes. Durante a última Semana Santa, excetuadas as cerimônias estritamente litúrgicas, todas as outras foram organizadas por esses cantores.
Eles se julgam muito católicos. Se você lhes fizer algumas perguntas sobre sua fé, não têm nenhuma dúvida em afirmar sua catolicidade, mas, na prática, é outra coisa. Por exemplo, a participação na Eucaristia é escassa. Poucos vão à missa e menos ainda recebem a Eucaristia. Outras celebrações para eles são mais importantes, como por exemplo, as que fazem para seus santos particulares: santo Agostinho, padroeiro da paróquia, as várias Nossa Senhoras (de Guadalupe e outras regionais), são Judas e são Marcos, o santo que eles invocam para conseguirem chuva.
Uma tradição muito seguida é a de colaborar com a Igreja: todo ano são eleitas seis pessoas, chamadas tupiles, que deverão prestar seus serviços voluntários (três numa semana e três na outra), trabalhando e ajudando em tudo o de que o pároco necessita.

Preocupações pastorais

De início, pe. Graziano sentiu que deveria dedicar logo sua atenção ao problema social, procurando, em primeiro lugar, oferecer boas condições de higiene e saúde ao povo. O problema da água pareceu o mais urgente, pois até o reservatório, que serve só metade da cidade, pega a água de um riacho e distribui água contaminada nas casas. Alimentação escassa e água poluída não garantem boas condições de saúde à população. Infelizmente, até agora, não conseguiu sensibilizar as autoridades para a construção de um novo reservatório com sistema de depuração da água.
Outro problema que se apresentou como urgente foi o da assistência médica. Durante dois anos, a paróquia pagou um médico que vinha dois ou três dias por semana. Através de um convênio com uma sociedade da Cidade do México, conseguiu também remédios. Era pedida uma contribuição irrisória ao povo: um real para cada consulta e um real para cada remédio. Mas, entre os mixtecos, o dinheiro é tão curto que ninguém pagou na hora. Agora a dívida se acumulou a tal ponto que nem a paróquia consegue pagar. Não foi mais possível pagar o médico nem mandar vir os remédios.
Mas pe. Graziano não desistiu da idéia. Foi terminada a construção de um novo e bem equipado consultório, perto da igreja, e está sendo estudado um jeito de ajudar o povo a pagar suas dívidas. Iniciou-se a fundação de uma espécie de Banco do Povo, para acostumar as pessoas a pouparem seu dinheiro sem gastá-lo logo, como têm feito até agora. Esse banco é formado por uma sociedade de pessoas com um representante da diocese, inclusive. Eles recebem os pequenos depósitos do povo e, de acordo com esses, concedem empréstimos de até 200% sobre o que foi depositado, que as pessoas poderão pagar com juros mínimos. E assim, quando precisarem, podem comprar um burro, uma vaca, um arado e, inclusive, pagar as despesas médicas.
O projeto parece bom, só que até agora poucos aderiram. Até que eles consigam assimilar uma idéia nova, passa muito tempo. A força da tradição é tanta, que eles dizem: "Se até agora agimos assim, por que temos que mudar?" Por enquanto, somente 50 pessoas aceitaram a idéia do Banco do Povo e depositaram ali suas minguadas poupanças. Poucas, para que o Banco possa funcionar.
Até agora, as preocupações maiores foram com planos de desenvolvimento social e foram deixados um pouco de lado os aspectos catequéticos e litúrgicos da pastoral. Faltou um trabalho em profundidade na formação dos líderes. É verdade que ainda há poucas pessoas dispostas e preparadas para a catequese. O pároco gostaria de trabalhar mais nesse campo e formar um grupo de pessoas que se tornem evangelizadoras de seus bairros. A importância de uma formação profunda não penetrou ainda na mentalidade mixteca. Eles vêm para batizar uma criança e não compreendem por que se fazem tantas exigências, como pedir que façam o curso.
Esse é um desafio que se nos apresenta: formar pessoas, além de trabalhar muito no campo social. Felizmente, os crentes ainda não chegaram. Se chegarem, pode ser que levem muitas pessoas, vista a superficialidade da formação religiosa.


A religiosidade dos mexicanos

Pe. Luciano Ghezzi, Pime, falou da religiosidade dos mexicanos como algo de extraordinário. "Eu fiquei muito impressionado, quando trabalhei nas Filipinas, pela religiosidade oriental. Mas tão profunda, tão enraizada no coração das pessoas, como no México, nunca vi. Quando digo religiosidade, falo do cristianismo. Se você mexer nos valores que eles acham mais importantes, (N. Sra de Guadalupe, a Igreja, a figura do padre) e lhes impedir de viver de acordo com esses valores, ele são capazes até de pegar em armas, declarar guerra e combater até o fim".

A rebelião dos cristeros

Entre 1926 e 1929, aconteceu uma rebelião chamada "Cristiada".
Em 1926, o presidente Plutarco E. Calles promulgou uma lei que visava a acabar de vez com a Igreja católica, privando-a de todos os seus direitos. Os padres e os religiosos não podiam sair às ruas com os hábitos que eram um distintivos de seu estado de vida, nenhuma manifestação religiosa podia ser realizada fora das igrejas. Até o fato de freqüentar a igreja tinha se tornado perigoso. O governo maçom queria extirpar a religião católica do México, considerada antipatriótica, uma ameaça à independência do país, pois prestava obediência ao papa de Roma.
Em alguns lugares do país, foram emitidas leis ainda mais severas contra a Igreja católica. Em Guadalajara, os empregados católicos viam-se colocados frente a uma opção; ou renunciar a Cristo ou perder o emprego: 389 professores primários daquela cidade preferiram perder o emprego, mas não renegaram a própria fé. Em 23 de dezembro de 1927, o general Gonçales, comandante da região de Michoacan, publicou este decreto, em aplicação da lei Calles: "Todo aquele que levar seus filhos para serem batizados, quem contrair matrimônio religioso ou se confessar, será tratado como rebelde e fuzilado".
Mas o presidente Calles não tinha calculado a reação dos católicos simples, os camponeses. Eles se recusaram a aceitar essa lei injusta e, ao grito de "Viva Cristo Rei", começaram a enfrentar o exército regular. Foi uma rebelião iniciada pelos camponeses aos quais se acrescentaram depois intelectuais e ideólogos. As armas eram capturadas em emboscadas nas quais eram assaltadas patrulhas do exército regular. Os "Cristeros" (como eram chamados esses revolucionários que não aceitavam as imposições do governo nacional) tinham o apoio da população civil. A revolução durou três anos, de 1926 a 1929 e, durante esse tempo, muitas pessoas foram mortas porque não renunciaram a sua fé. Fala-se de milhares de mártires, mas nem todos podem ser documentados, porque quando os soldados do governo chegavam, matavam e destruíam tudo, até arquivos paroquiais e qualquer tipo de documentação. Morreram mais de cem padres. Dentre eles, se destaca o padre jesuíta Miguel Austin Pro, declarado beato pelo papa João Paulo II. Ele, na fase mais aguda da perseguição, quando era suficiente ser descoberto administrando os sacramentos para ser fuzilado, visitava os cristãos da Cidade do México, em suas casa, celebrava a Eucaristia com eles, levava ajuda, exortando-os a não desanimar. Descoberto pela polícia e levado diante do pelotão de fuzilamento, abriu os braços em forma de cruz e assim, lembrando com seu gesto a crucifixão, foi morto ao grito de "Viva Cristo Rei".
A rebelião terminou em 1929, quando os bispos fizeram um acordo com o governo que abrandou sua legislação anticristã. Os Cristeros depuseram as armas e saíram da clandestinidade. Apesar do acordo feito com os bispos, muitos foram perseguidos, presos e fuzilados.

Nossa Senhora de Guadalupe:

Num exemplo de evangelização perfeitamente inculturada
Se a religião católica está profundamente en- raizada na alma mexicana, deve-se também à presença, praticamente desde o início da colonização, da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Quando Miguel Hidalgo iniciou o movimento de independência da Espanha, pegou o estandarte de Nossa Senhora de Guadalupe e atraiu os camponeses atrás de si.
Nossa Senhora de Guadalupe é considerada a principal evangelizadora do México. O sentimento de pertença à Igreja católica é fortíssimo em cada mexicano, especialmente por causa da "Virgem Morenita". O milagre, que foge a toda explicação natural, está presente e bem documentado na história da aparição de N.Sra. de Guadalupe:

as flores que brotaram, em pleno inverno, no lugar da aparição e que João Diego, o indígena a quem N.Sra. apareceu, levou ao bispo, já tem em si algo de milagroso;
a túnica de João Diego, na qual ficou impressa a imagem de Nossa Senhora também: feita de um tecido muito barato, tão ralo que através dele se pode enxergar quem está na igreja, conservou-se, não se sabe como, durante cinco séculos, sem apresentar nenhum sinal de desgaste;
um laboratório alemão examinou as cores da pintura e achou que semelhantes a elas não se encontram em nenhuma outra parte do mundo, nem no reino animal nem no reino vegetal ou mineral; é a única pintura no mundo em que as cores não se desgastaram depois de 500 anos;
nas pupilas dos olhos de Nossa Senhora foram descobertas - através de aparelhos especiais fornecidos pela NASA - as imagens das doze pessoas que estavam presentes na casa do bispo, quando se realizou o milagre, isto é, o aparecimento da imagem da Virgem no manto de João Diego.

Mas não são esses fatos milagrosos que explicam a grande influência que N. Senhora teve e tem sobre todos os mexicanos. O que mais impressiona é o fato de Nossa Senhora ter-se manifestado a João Diego, usando unicamente símbolos da cultura asteca. De fato, ela apareceu, em 1531, no monte Tepeyac, perto da Cidade do México, onde se venerava Tonantzin, deusa que representava a mãe-terra.
O rosto de Nossa Senhora não é branco, e sim moreno, simbolizando a síntese entre o povo índio e o espanhol, isto é, o povo mexicano. Ela não falou castelhano e sim nahuatl, a língua de João Diego. Ela está grávida e tem em sua roupa todos os símbolos que as mulheres astecas usavam para indicar a gestação: duas fitas negras caída ao longo do corpo e sobre elas uma cruz indígena que indicava o encontro entre o humano e o divino. Seu manto verde e azul tem as cores das divindades astecas do céu e da terra; sua túnica é de um tom vermelho pálido que é a cor do deus supremo dos astecas; as flores que ornamentam a túnica são as que se encontram no monte Tepeyac, o monte da deusa-mãe Tonantzin. Nossa Senhora de Guadalupe falou diretamente ao coração dos mexicanos. A linguagem que usou para falar com João Diego foi uma linguagem que toda mãe carinhosa usaria com seus filhos. As mulheres mexicanas consideram-na como uma delas.
Como disse João Paulo II na homilia pronunciada na basílica de N. Senhora na Cidade do México: "Desde que o índio Juan Diego falara da doce senhora de Tepeyac, tu, Mãe de Guadalupe, entras de modo determinante na vida cristã do povo do México." Entrou porque falou a língua deles e se expressou com os símbolos deles. Foi um exemplo perfeito de inculturação, antes que concílios, sínodos e teólogos começassem a usar esse termo.

A festa comemorativa de sua história

Os mixtecos gostam de comemorar os principais momentos de sua história, através de danças e cantos que começam na festa do padroeiro (santo Agostinho), pela tarde, e se prolongam por toda a noite. Eles se sentem mestiços (um pouco mexicanos, um pouco mixtecos); sua história, portanto, começa com a invasão espanhola e vai até os dia de hoje. Eles não criticam a conquista do México por parte do homem branco: são coisas acontecidas e não são postas em discussão. São os fatos que fizeram deles o que são agora e não se discutem. Eles devem penetrar, pouco a pouco, dentro do povo, dizem. Todo ano os fatos são revividos, através de danças e cantos que duram a noite toda. O povo não se cansa de assistir: todo ano é sempre a mesma coisa, sem mudar nem uma vírgula. Eles sabem de cor o que vai ser dito, mas estão aí todos, não somente no dia da festa, mas também durante os ensaios, nos dias que precedem a festa.
Eles sentam durante horas a fio e, no fim, dão sua aprovação, somente se puderem dizer que tudo foi feito conforme o esquema seguido nos anos anteriores. Na representação, há personagens históricas (Cortez, Montezuma, Alvarado) e outros inventados que fazem o papel de narradores. O conteúdo dessas representações é formado pela conquista espanhola e pelas relações que se estabeleceram entre as duas raças. Tudo isso diz ao mixteco de hoje: "você é feito a partir desses dois povos, você é metade espanhol e metade mixteco". E eles aceitam. A representação é feita na praça da igreja. Hoje, existe um script que eles seguem religiosamente. Mas, até poucos anos atrás, durante séculos, tudo foi decorado e transmitido assim de pai para filho, sem que se mudasse nada.

O casamento e a vida da aldeia

Muitas pessoas da aldeia se envolvem na festa de casamento: as famílias dos noivos, os parentes em geral e muitos conhecidos. Uma vez que os pais e os interessados estiverem de acordo, faz-se o "pedimento" (pedido) oficial. O noivo e seus parentes, levando pão, cigarros e licores, dirigem-se à casa da noiva, onde ela e os parentes os esperam. Ali é feito o "pedimento".
Às vezes, os pais da noiva exigem um dote. Uma vez, pediram 42 caixas de um pão doce que é comido no dia da festa. Nessa ocasião, fixam-se os tempos do casamento e se discutem as eventuais heranças.
Os festejos começam dois dias antes e terminam três dias depois da celebração. Há pessoas encarregadas de entrar na mata e cortar galhos para fazer a cobertura do lugar onde os festejos serão realizados (São los padrinos de la ramada). Os pais dos noivos estão encarregados de comprar um boi ou dois porcos para a festa; outros devem comprar os fogos, outros devem arranjar as bandas para tocar durante a festa.
Há os padrinhos das alianças, os padrinhos das velas (eles devem acender as velas a um certo momento da cerimônia), há o padrinho que carrega o buquê da noiva, dois padrinhos que devem colocar uma espécie de laço (que significa a unidade, a indissolubilidade do matrimônio) no pescoço dos noivos, uma vez terminada a cerimônia, Praticamente, todos os habitantes da aldeia participam da festa, mesmo que não tenham sido convidados. O casamento é um dia de festa para a aldeia toda.

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