| Um ecumenismo mais feminino
Patrizia Bergamaschi
Não se pode negar que a participação das mulheres
nas Igrejas cristãs está crescendo em quantidade e qualidade.
Prova disso é o grupo Nova Década - Ação Ecumênica
de Mulheres, com participantes de várias Igrejas cristãs,
que recebeu Mundo e Missão, em São Paulo
Tudo começou quando, no início de 1987, o Conselho Mundial
de Igrejas (CMI) tomou a iniciativa de iniciar uma DÉCADA Ecumênica
de Solidariedade das Igrejas com as Mulheres. Com isso já ficava
claro que o movimento ecumênico estava sensibilizado e consciente
da importância da ação das mulheres no seio das comunidades.
Assim, para a década 1988-1998, foram previstos os seguintes objetivos
de uma nova caminhada:
o capacitar as mulheres para que se oponham às estruturas opressoras
que existem na comunidade mundial, em seus países e em suas Igrejas;
o afirmar as contribuições decisivas das mulheres em suas
Igrejas e comunidades, compartilhando o trabalho de direção
e a tomada de decisões, a reflexão teológica e a
espiritualidade;
o tornar conhecidas as perspectivas e ações das mulheres
em esforços e luta pela justiça, a paz e a integridade da
criação;
o capacitar as Igrejas para que se libertem do racismo, do sexismo e do
classismo e para que abandonem as práticas discriminatórias
para com as mulheres;
o estimular as Igrejas para que empreendam atividades de solidariedade
com as mulheres.
Aquilo que, numa primeira leitura, pode parecer apenas mais uma luta
feminista adquire um outro caráter, quando se sabe que esses objetivos
devem ser alcançados ao "reunir os conhecimentos e as experiências
de mulheres e homens de origens e atividades diversas". O apelo mais
forte, todavia, é para as pessoas ligadas às Igrejas, sobretudo
as mulheres.
Espírito e realidade
Para o grupo, deve-se considerar, em primeiro lugar, que Deus fez homem
e mulher em igual condição e ambos foram convidados a zelar
eficazmente pela obra da criação. Os dois e juntos. Não
se pode conceber a submissão da mulher ao homem que pode, por sua
vez, ser explicada por causa da influência grega a respeito do dualismo
entre corpo e espírito, que tanto influenciou a Igreja primitiva.
Tal concepção privilegiava a alma, em detrimento do corpo
e das atividades a ele relacionadas; assim, a mulher, que pertencia ao
mundo físico, era inferior ao homem, que se ligava ao plano espiritual.
Decorrente dessa certeza de que o plano da criação quer
a fraternidade e a reciprocidade entre homens e mulheres surge a grande
meta de trabalho: atuar pelas mulheres e com as mulheres, diante das inúmeras
situações de destruição da criação.
Ainda são as mulheres que, em tempo de crise econômica, logo
perdem o emprego; na indústria, seus salários são
os menores; na zona rural, suas necessidades básicas recebem menos
atenção; os experimentos nucleares atingem seus corpos,
provocando abortos; o racismo cria um mecanismo de tripla discriminação
(raça, pobreza e sexo); elas sofrem mais intensamente os efeitos
da guerra e da fome; continua crescendo, mesmo em países ricos,
o número de casos de assédio e abuso sexual; a pobreza tem
gerado a prostituição que atinge também as meninas.
É esse quadro que desafia as Igrejas a lutar e a se unir, ao lado
das mulheres, dando-lhes não só apoio, mas também
a palavra e a ação. Por isso também é que
a reflexão teológica das mulheres e sua partilha espiritual
é uma das prioridades: "em muitas partes do mundo, as mulheres
estão fazendo uma re-leitura da Bíblia à luz da opressão
que sofrem e da esperança que as anima". Essas reflexões,
sem dúvida geradoras de complexas discussões, incidem sobre
a expressão feminina da fé, sobre a interpretação
dos ícones e dos símbolos, sobre o papel de Maria, sobre
as tradições patriarcais em suas próprias religiões
e o conseqüente questionamento da estrutura hierárquica.
Uma Nova Década
A primeira Década, no Brasil, estava sediada em Porto Alegre,
no Rio Grande do Sul. Após vários encontros, o grupo decidiu
continuar e começar uma Nova Década, lançando o desafio
agora para o Regional de São Paulo. Os objetivos continuam os mesmos,
mas a experiência e a coragem parecem renovadas, principalmente
para avaliar a caminhada já feita no Encontro Ecumênico Nacional
de Mulheres, que acontece em novembro, em São Paulo.
Se o grande desafio já é preparar e fazer acontecer esse
encontro, não se pode negar que, nesses últimos anos, muitos
passos foram dados: "Houve um despertar da mulher para a mulher e
novos espaços foram abertos para nós, inclusive dentro das
Igrejas. Todo o trabalho que pudemos fazer, durante a década, mostrou
que as Igrejas nos deram apoio e que perceberam que é assim mesmo
que se deve caminhar, junto com as mulheres. Não se pode ignorar
que, nas Igrejas, nós somos a maioria. Além disso, cada
vez mais, as mulheres estão estudando teologia e várias
Igrejas estão ordenado pastoras. Entre as primeiras pregadoras
oficiais deste século, estão as mulheres do Exército
da Salvação e do Evangelho Quadrangular. Em 1970, a Igreja
Metodista começa a ordenar mulheres, em 1981, foi a vez da Igreja
Evangélica de confissão luterana, depois a Episcopal Anglicana,
a Presbiteriana Unida e, no início deste ano, a Igreja Presbiteriana
Independente oficializou a ordenação feminina" - resume
a reverenda Margarida.
Questionadas a respeito da aceitação do povo em relação
ao sacerdócio feminino, elas afirmam que as esperanças são
grandes, mas "há dificuldades que só serão superadas
com a vivência e a experiência, visto que as barreiras são
criadas pela educação e pela tradição do papel
da mulher. Muitas Igrejas - continua Janette Ludwig, coordenadora da Nova
Década - estão investindo no ministério feminino,
reconhecendo que o chamado à vocação pastoral não
é feito somente ao homem, mas por ação de Deus, indistintamente
aos homens e mulheres. O Espírito Santo age onde quer e com quem
quer, independente da ação da cultura".
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