Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização Geral

1. UM OLHAR DE FÉ PARA O PASSADO MISSIONÁRIO DA IGREJA

Somos herdeiros de uma história de graça e de uma herança apostólica de mais de 20 séculos. Trata-se de uma história de pessoas e de comunidades concretas, desde os apóstolos até hoje.

Há sempre luzes e sombras, como em toda a História da Salvação, mas sempre é possível entrever e sentir a presença e a voz de Cristo ressuscitado:

“Eis que estou convosco” (Mt 28,20). A “memória” do passado é sempre necessária e útil para agradecer a Deus, mas também para experimentar novamente o perdão e a misericórdia. Só assim é possível aprender a perdoar, a ouvir e acolher os outros sem distinção de raça, cultura e religião. Compreende-se melhor a Missão na “teologia vivida” dos santos missionários. Avalia-se melhor a Missão no contexto histórico, sem visões fora de época. Uma grande lição, difícil de aprender, é compreender que a Missão “ainda se encontra nos inícios” (Redemptoris Missio, 1).

Para poder chegar a “formar Cristo” (Gl 4,19) em cada coração humano, de modo a transformar todos os batizados em “filhos no Filho” (Ef 1,5; cf. Gaudium et Spes, 22), é preciso ter a paciência milenar de Deus. A nós falta esta paciência, e, por isso, às vezes, olhamos o passado de modo negativo demais. A minha experiência de prisão fez-me valorizar os maiores méritos dos missionários e catequistas do passado no Vietnã. Quantas vezes eu me lembrei dos mártires e dos santos.

Lembrando os inícios e o desenvolvimento da evangelização no Vietnã, eu aprendi a amar mais a Igreja, assim como a amou Jesus:

“Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).

Observo, às vezes, uma tentação bem comum:

- interpretações generalizadas do passado, às vezes com um tom de amargura e desânimo. Esta atitude não contribui para a vivência do presente com alegre esperança, que é sempre confiança e dedicação. Amando as nossas raízes missionárias, descobriremos melhor as novas possibilidades do presente e do futuro.

2. VIVER O PRESENTE COM OLHAR CONTEMPLATIVO

Encontramo-nos diante de situações novas, que exigem novas posturas, sempre mais evangélicas. A humanidade já é globalizada, com relacionamentos sempre mais plurirreligiosos e pluriculturais. Os que morreram nas torres gêmeas em Nova York (em 2001) eram de oitenta países diferentes. Em algumas grandes cidades, como Los Angeles, são faladas mais de cem línguas. Nas nossas cidades, cada vez mais, os rostos das pessoas mostram um cruzamento planetário de culturas e etnias. Os problemas tornam-se comuns em toda parte do mundo. As fronteiras geográficas foram rompidas; outras, porém, foram erguidas.

Quando o Evangelho foi anunciado no século II, havia uma situação parecida, mas limitada e reduzida:

- os países estavam ligados por uma língua comum (o grego da “koiné”), pelas estradas do Império Romano e por necessidades econômicas e sociais comuns. Agora, pela primeira vez na história, esta situação está se tornando “global”, com todas as suas conseqüências positivas e negativas. Encontramo-nos diante de possibilidades novas de evangelização, como nunca ocorreu na história. Mas neste contexto global surgem novos desafios: a vida familiar, os critérios morais, os problemas da justiça e da paz, a pobreza de grandes massas de população, as migrações, os refugiados ambientais... Os desafios acumulam-se de modo impressionante. Como acabar com situações de injustiça e de pobreza? Como defender a vida em todas as suas fases? Como tocar a juventude e as famílias? Como defender a dignidade e a igualdade da mulher? Como inserir-se na cultura pós-moderna emergente?

Como acompanhar os migrantes?... Para nós, todas estas situações são campos de Missão, nos quais deve ressoar, sem fronteiras, a mensagem evangélica das bem-aventuranças e do mandamento do amor. Quando se apresentam situações novas, existem também novas graças para poder enfrentá-las. Em toda parte, pode-se constatar um despertar missionário, especialmente nas Igrejas jovens, de evangelização mais recente. Em toda parte desperta-se um sentimento de solidariedade e uma sensibilidade mundial. Os documentos do Concílio Vaticano II, e os que a ele se seguiram, de modo especial as exortações pós-sinodais (sobre a África, Ásia, América, Oceania e Europa), são um espelho que reflete tanto as novas situações quanto as novas graças, com os desafios a serem enfrentados pela Missão. Uma questão fundamental é a necessidade de renovado fervor nos apóstolos.

Diante dos novos desafios e das novas graças, parece que seja urgente uma atitude missionária a exemplo da Igreja primitiva. Existem novos campos de Missão, quase completamente esquecidos, em termos geográficos, sociológicos e culturais. É preciso a “criatividade da caridade, que suscite não só a eficácia dos serviços prestados, mas também a capacidade de tornar-se próximos, solidários com quem sofre, de modo que um gesto de ajuda não seja sentido como uma esmola humilhante, mas como uma partilha fraterna” (Novo Millennio Ineunte, no 50). Quanto a nós, devemos viver com paixão o momento presente, sem amarguras nem exclusivismos, sem discussões teóricas e estéreis. As diferenças de dons e carismas, recebidos do mesmo Espírito Santo, enriquecem a evangelização. Com profundo sentido de unidade (que não coincide de forma alguma com uniformidade), constrói-se a Igreja, comunhão de toda a humanidade, como reflexo da vida trinitária de Deus-Amor.

“Que os missionários e missionárias, que consagraram toda a vida para testemunhar entre os povos o Ressuscitado, não se deixem intimidar por dúvidas, incompreensões, rejeições, perseguições. Possam despertar a graça do próprio carisma, e retomar corajosamente a caminhada” (RM 66). As vocações missionárias não germinam onde existe um ambiente de tristeza, onde falta o amor à Igreja e a expectativa de uma alegre esperança. A Missão acontece sendo “alegres na esperança” (Rm 12,12), na esperança que “não decepciona” (Rm 5,5). Cada um dos que crêem e as comunidades cristãs, como corpo eclesial, tornam-se realmente missionários, quando são autenticamente solidários em nível universal, ou seja, comunidades e Igrejas-Irmãs, nas quais tudo é partilhado, como expressão do fato de ser “um só coração e uma só alma” (At 4,32), com abertura universal.

A presente fase da história deve seguir o caminho da esperança “contra toda esperança” (Rm 4,18). O nosso ponto de apoio não são os poderes deste mundo (riquezas, ambições, honras...), mas a cruz do Senhor, enquanto expressão máxima de doação. Ela é a verdadeira força na fraqueza (cf. 2Cor 12,10). O nosso momento presente é um momento privilegiado e maravilhoso da História da Salvação, o qual não podemos desperdiçar, pois é um momento histórico único. Ele é um “kairós”, um tempo de graça.

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