Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização Geral
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Minha colocação foi muito lapidária, mas suficiente para detonar o alvoroço. Logo a manifestar-se foram as mães-de-santo, visceralmente iradas contra os missionários - evangélicos no caso - que tachavam de "obras do demônio" suas expressões religiosas. Por outro lado, os pastores respondiam que apenas obedeciam a determinados mandamentos de Jesus e a palavras bíblicas enfurecidas a respeito dos "ídolos" de outras religiões. Num clima de disputa vale tudo, ânimos se esquentam, posições se radicalizam, anátemas e demências tomam conta do debate. No meio do fogo cruzado, alguns estavam seguindo atônitos uma conversa "destrilhada". Os muçulmanos ficavam na deles: mais do que todos estavam em "terra de missão". Os budistas reservaram-se o direito de buscar a verdade por outros e mais sábios caminhos. Finalmente, os católicos, poupados de maneira generosa pelos afro-descendentes e, ao mesmo tempo, aplaudidos pelos evangélicos por terem aberto a conversa sobre a proclamação do Evangelho "até os confins do mundo", ficavam numa situação confortável do "vamos ver no que vai dar". Terminada a tumultuada sessão - obviamente, não deu em nada - ainda troquei umas opiniões com um sociólogo e um monge budista. Curiosos, meus interlocutores queriam saber porque eu, como missionário, não tinha uma paróquia sob meus cuidados. Expliquei que meu trabalho era voltado para a "animação missionária" e minha função era despertar nas comunidades cristãs a paixão pelos outros e a abertura ao mundo inteiro, como âmbito de compromisso e de anúncio do Evangelho. O monge budista ficou encantado. Começou a repetir, com candura, as palavras: "animação... missionária", quase como se fosse um novo mantra. Por outro lado, o sociólogo, perplexo, não deixou por menos e alfinetou: "Ainda existe esta coisa de 'missionários'?". Pois é, a questão missionária suscita polêmica sobre sua legitimidade, encanto e admiração por seus lances de solidariedade, curiosidade exótica por seu imaginário e cruéis sentenças históricas. O leque vai do heroísmo reconhecido ao anacronismo vilão. A epopéia missionária sempre viveu mistificações e desmistificações exageradas, como quando as reduções jesuíticas do Paraguai inspiraram os socialistas utópicos do século 18 a imaginar um novo modelo de sociedade. Anos depois, em 1971, antropólogos reunidos em Barbados, acusavam as missões cristãs junto aos indígenas de discriminação, de paternalismo e de neocolonialismo, e propuseram, sem mais nem menos, acabar com toda atividade missionária. Entre aplausos e vaias, entre a admiração e a criminalização, há com certeza alguns elementos que ajudam a refletir e a entender a experiência missionária como relevante e significativa, também para o mundo de hoje. Em primeiro lugar, vivemos num mundo em transformação. Rápidas mudanças acontecem no âmbito social, político, econômico e cultural, graças aos mercados e à tecnologia. Desafios, horizontes, crenças e utopias migram e se redefinem. Novas visões de mundo surgem e revolucionam conceitos e práticas de vida. Tudo isso exige de qualquer pessoa não só uma mudança de mentalidade, mas uma mentalidade de mudança, a questionar suas visões, a caminhar buscando a verdade, a liberdade e a plenitude. Isso é algo inerente à própria experiência de fé que é risco, é sair da própria terra e ir ao encontro de um Deus imprevisível e sempre novo. Abrir-se à relação com o Outro é caminhar, no Espírito, rumo ao desconhecido, num processo de conversão permanente, de renovação constante, numa busca simples e desarmada de uma compreensão mais rica e profunda do mistério da Vida. Um segundo aspecto importante é o reconhecimento do outro. Apenas algumas décadas atrás, não era tão comum um encontro de diálogo inter-religioso como o que acabamos de lembrar. Vivemos num mundo plural e multicultural. Precisamos aprender a respeitar, acolher e valorizar o diferente e buscar com ele caminhos de fraternidade, para construir junto um mundo de paz. Caso contrário, a humanidade estará voltada para uma rápida e apocalíptica autodestruição. É bem verdade que a tradição missionária sempre teve dificuldade em definir positivamente os outros, seus destinatários. Antes, eram chamados de "pagãos", palavra latina depreciativa que significa rudes, caipiras, iletrados. Depois, eram qualificados de "infiéis", termo dirigido principalmente aos muçulmanos, réus por terem "distorcido" a mensagem de Jesus que conheciam e integraram no Alcorão. Ultimamente, usa-se o termo, aparentemente light, de "não-cristãos": na realidade, configuramos o outro a partir da negação daquilo que julgamos ser. Não há reconhecimento da alteridade. O ponto de referência permanece sempre a referência de um ponto: nós mesmos. Nada é perfeito. A missão histórica também. Contudo, ontem como hoje, a missão cristã, na sua essência, aponta fundamentalmente para a proximidade ao outro, para a gratuidade da relação e para a abertura ao horizonte universal. Aos poucos, surgem identidades renovadas e novas relações, num envolvimento progressivo movido pelo grande ideal de realizar um autêntico encontro multicultural. Um terceiro aspecto de uma sabedoria missionária relevante para o mundo de hoje é a aquisição, sempre mais necessária, de uma consciência planetária: a contemplação do mapa-múndi. Vivemos num mundo globalizado, onde a humanidade não é mais um mero conceito abstrato, mas tornou-se um sujeito histórico. Nunca como hoje, os destinos dos povos se tornaram tão inter-dependentes. Ninguém, hoje, se salva sozinho. O mundo tem uma coesão semelhante à que, em tempos passados, tinha uma cidade ou uma nação. As fronteiras não existem mais e as que continuamente teimamos em recriar são fictícias. Com efeito, somos uma única sociedade mundial e estamos todos no mesmo barco. Diante das grandes questões planetárias econômicas, ecológicas, sociais e culturais, é urgente assumir uma cidadania mundial que age localmente e pensa mundialmente. O bem comum a ser construído não é mais e somente para nós, municipal, regional ou nacional, mas é, obrigatoriamente, universal: o de fazer do mundo a casa de todos. A perspectiva ideal da fraternidade mundial, que sempre animou os missionários a temerárias façanhas e a empresas solidárias, hoje se torna um chamado para todos: fraternidade universal ou guerra mundial. |
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