Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização Ecumenismo

Em busca de caminhos ecumênicos

Hélio Pedroso

O Conselho Ecumênico das Igrejas - CEC - reuniu-se na cidade de Harare, em Zimbábue,
África, nos dias 3 a 14 de dezembro passado, na oitava assembléia após sua fundação em Amsterdã, Holanda, cinqüenta anos atrás. A assembléia ecumênica revelou, entre propostas válidas, quanto é difícil viver uma efetiva unidade do cristianismo

Luzes e sombras no CEC

A assembléia do Conselho Ecumênico das Igrejas reuniu, em Harare, membros das 339 Igrejas. Estavam presentes 996 delegados das Igrejas, mais de três mil pessoas e 330 jornalistas. Embora a Igreja católica não faça parte do Conselho Ecumênico, participa - com uma dezena de teólogos - do departamento teológico do Conselho "Fé e Constituição" e foi representada por 23 observadores, guiados pelo bispo dom Mário Conti, de Aberdeen, diocese ao Norte da Escócia, Reino Unido.
Durante o encontro, houve mais de 550 grupos para tratar de temas particulares, uns mais procurados, outros menos, além de encontros de oração e plenários.
O tema geral da assembléia estava bastante definido: "Voltemo-nos a Deus - exultemos na esperança", mas, de fato, o mesmo passou quase para o segundo plano por causa de outras discussões mais urgentes como unidade, caminhar juntos, aprender, testemunho e solidariedade. Outros temas tratados nos subgrupos foram: maior responsabilidade das mulheres no âmbito eclesial, a dívida externa dos países pobres e o problema do relacionamento interno no CEC, sendo este último doloroso, mas tratado com franqueza pela assembléia.
Grande entusiasmo suscitou a participação de Nelson Mandela, presidente da África do Sul, para comemorar os cinqüenta anos da fundação do Conselho ecumênico, e que aproveitou da sessão especial para expressar seu apreço pelo papel que as Igrejas tiveram na libertação da África, sendo sinal de esperança de um futuro melhor. Ele mesmo se declarou fruto da educação eclesial que, se não tivesse acontecido, "nem Mandela nem a África teriam chegado hoje aonde estão", apesar das dificuldades ainda existentes.
Nos dezenove plenários que foram realizados, houve muitas denúncias da violência e da discriminação que os povos ainda sofrem, apesar dos muitos apelos feitos pelo CEC. Outro plenário foi dedicado à necessidade de restituir dignidade e paridade às mulheres e foi denunciado que, também nas Igrejas, os privilégios são para os homens, especialmente na hora das decisões. Outro foi dedicado à África, o continente mais martirizado nesses últimos anos, e fez-se um forte apelo para que os africanos, sobretudo os negros, reencontrem seu caminho de paz e solidariedade. Na tenda do culto, dominava uma grande cruz que, em lugar do crucificado, trazia a África para indicar que, atualmente, aquele continente se identifica com o Cristo martirizado e espera a ressurreição. Naquela enorme cruz, a assembléia convidava a reconhecer todos os crucificados da terra, povos e indivíduos.
Por fim, discutiu-se, com certo sofrimento, os problemas concretos do ecumenismo, porque foi nessa assembléia que se revelou toda a fraqueza do Conselho Ecumênico das Igrejas.
As feridas da assembléia: suas divisões
Apesar de ser chamado ecumênico, o Conselho das Igrejas reúne somente uma minoria das Igrejas cristãs hoje atuantes. São, de fato, membros do Conselho ecumênico, as Igrejas do protestantismo histórico e da ortodoxia. Não participam a maioria das Igrejas pentecostais, das Igrejas evangélicas independentes e a Igreja católica, embora participem de grupos regionais de ecumenismo.
Em relação a algumas Igrejas evangélicas, existem barreiras na mesma constituição do CEC que dificulta a participação das Igrejas que têm um número limitado de fiéis. Quanto à Igreja católica, sua não participação como membro é fundamentalmente de ordem teológica. Já nos anos setenta, houve estudos e contatos para que ela participasse plenamente, mas nada foi concluído devido às diferentes posições dogmáticas, sobretudo a respeito da Eucaristia.
O relator e secretário geral do CEC, Konrad Raiser, em seu discurso de abertura, usou o símbolo da mesa ao redor da qual deveriam se encontrar todos os membros da grande família cristã e frisou a possibilidade de alongar essa mesa para o encontro de todos, mesmo reconhecendo as dificuldades desse convívio entre as várias denominações pelas interpretação que dão ao mistério eucarístico.
Na assembléia, foram propostas algumas maneiras para superar o impasse e poder celebrar juntos, como sinal visível da unidade, mas não houve acordo sobre a essência dessa celebração. Foi proposta uma cerimônia que lembrasse o ágape dos primeiros tempos da Igreja, uma "refeição jubilar" em que houvesse uma celebração de perdão e de reconciliação, simbolizando uma nova situação ecumênica.
Um passo positivo foi a celebração da Semana pela União dos Cristãos que conseguiu unir as Igrejas, na oração: um possível começo para superar as divisões.

A Igreja ortodoxa

Após a queda do comunismo, aumentou o mal-estar da Igreja ortodoxa, em particular a russa, em relação ao CEC. Ela acusava o Conselho Ecumênico de favorecer o proselitismo de outras Igrejas e dos evangélicos em seu território e apoiar escolhas e aberturas que seriam contra o espírito da Igreja ortodoxa, tais como os ministérios femininos, a aprovação da homossexualidade e a tolerância em relação aos modernos movimentos. Outra queixa é que, sendo a maior Igreja do CEC (com mais de cem milhões de fiéis), não lhe é dada a importância que ela esperaria ter dentro do mesmo Conselho, enquanto são admitidas Igrejas de tradição protestante ou evangélica que têm muito menos fiéis. Foi por isso que desde 1997, a Igreja ortodoxa russa se retirou do movimento ecumênico e as outras Igrejas ortodoxas decidiram manter somente uma presença física, sem uma participação ativa.
À assembléia de Harare, a Igreja ortodoxa búlgara enviou apenas um representante que levou sua carta de desligamento do CEC; outras Igrejas (sempre ortodoxas) enviaram delegados de pouca representatividade que não votaram nem participaram dos cultos. Um representante da delegação ortodoxa, Uylarion Alficef, de maneira gentil mas decidida, denunciou que a "agenda do CEC é dominada pelo ethos protestante ocidental e nós, ortodoxos, aqui, nos sentimos cada vez menos em nossa casa".
Para superar o impasse criado por essas divisões, o secretário geral do CEC, Konrad Raiser, estaria organizando uma "mesa ecumênica" da qual o Conselho seria um dos organizadores, em paridade com as outras Igrejas que não participam, em particular, com a Igreja católica. Essa mesa seria um "lugar" em que todas as Igreja pudessem se conhecer melhor e, juntas, servir ao mundo. Um projeto bastante difícil, por causa das contradições que marcaram o ecumenismo em Harare e que alguns definiram como a necessária "crise de crescimento", mas que os ortodoxos, talvez querendo justificar sua desistência do Conselho, interpretaram como "um grito de dor".

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