Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Inculturação
O fundamento de toda comunidade cristã é a Trindade Santa, pois nela encontramos a perfeita unidade, numa distinção total das Pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A Exortação Apostólica Vita Consecrata, de 1996, valoriza a comunidade religiosa como espaço onde “pessoas de línguas, idades e culturas diversas, aparecem como sinal de um diálogo sempre possível e de uma comunhão capaz de harmonizar as diferenças” (n.º 51; §1). O evento de Pentecostes, que marca o início oficial da Igreja através das primeiras comunidades cristãs, é um acontecimento multicultural e missionário. É o Espírito que unifica pessoas diversas, sem que percam sua identidade (At 2, 1-12).
Transformados pela experiência do Espírito, que cria comunhão na diversidade, as discípulas e discípulos de Jesus espalham-se pelo mundo com um jeito novo de viver: uma novidade que ajuda o mundo a avançar na direção da Trindade. Uma comunidade missionária multicultural é uma forma concreta de fazer existencialmente esse ANÚNCIO. Sim! É possível viver este valor humano-espiritual de comunhão na diversidade, convivendo harmoniosamente com o diferente. Um anúncio, acompanhado de uma experiência, é sempre algo que pode mobilizar as forças latentes no coração das pessoas e levá-las a buscar formas de realizar seus sonhos e desejos. Todos sabem que essa convivência não está isenta de conflitos, mas é justamente a coragem de aprender a lidar construtivamente com os conflitos, que faz com que a comunidade multicultural seja um laboratório vivo da experiência cristã. Sob tal ótica, pode-se dizer também que este tipo de comunidade é uma PROFECIA, pois ela denuncia formas de conceber a vida e de vivê-la. Modelos e formas que contrastam com a vida trinitária. A denúncia se dá através da vida, ou seja, anunciando, na prática, um jeito diferente de viver. Os desafios atuais da evangelização passam pelo crivo das relações interculturais. Nessas relações, a alteridade é o eixo fundamental que precisa ser devidamente considerado. Em ambientes e comunidades multiculturais é possível criar espaços educativos, onde a pessoa descubra e respeite a alteridade própria e a do outro/a e, desta forma, esteja mais apta à atividade missionária, como encontro e partilha entre diferentes. Acolher a multiculturalidade, como valor e não como ameaça, é fruto de uma caminhada humana e espiritual profunda. Como diz Dussel: “Creio que, à medida que começo a pensar o ser humano a partir das relações, uma nova dimensão surge na minha prática: a dimensão da alteridade. Damo-nos conta de que o outro é alguém essencial em nossa existência, no nosso próprio agir. Ele se torna alguém necessário, alguém imprescindível para a própria compreensão de mim mesmo” (DUSSEL, apud GUARESCHI, 1998, p. n.º 160-161). Num mundo em que o ser humano é considerado coisa ou mercadoria, a comunidade religiosa multicultural afirma, através da própria vida, que o ser humano é pessoa, é ser de relações e só se humaniza nelas e por elas, onde sua alteridade é inteiramente acolhida e respeitada. Ao colocar as bases dos Institutos Combonianos, São Daniel Comboni teve uma profunda intuição do valor dessa dimensão, que ele denominou “católica”, isto é, universal. “A Obra deve ser católica e não espanhola, francesa, alemã ou italiana” (Escritos, no n.º 944). O que vale para a “Obra” vale para a comunidade. Esta deve ser o lugar onde a diversidade é acolhida. O que vai harmonizar as diferenças é o carisma missionário que cria a identidade pessoal e grupal. A comunidade comboniana é concebida como um “Cenáculo de Apóstolas/os”, de onde se irradia uma experiência “que ilumina e aquece e revela a natureza do centro, de onde emana” (Escritos no n.º 2648). Acreditamos que, num mundo onde geralmente impera o egoísmo, a intolerância, a discriminação, a coisificação dos seres humanos e preconceitos de todo tipo, a comunidade missionária multicultural esteja apontando para outro rumo. Ela está afirmando, pela vida, que cada pessoa é um mistério a ser contemplado com reverência. Ela exige que nos dispamos da auto-suficiência, seja de caráter humano, seja de origem espiritual, e nos revistamos de misericórdia, ternura e compaixão, vendo em cada outra/o a própria face do Mistério divino. Nestes 50 anos de presença comboniana no Brasil, poderíamos dizer que houve um encontro e um desafio onde, como missionárias combonianas, pudemos vivenciar a experiência da multiculturalidade nas nossas comunidades e com o povo. A realidade brasileira, maravilhosamente rica e diversificada em termos culturais, foi e é, para nós, lugar do ANÚNCIO e da PROFECIA. Vindas de vários países, aqui nos encontramos para partilhar nossa fé e tecer relações que nos humanizam e evangelizam. Acolhemos a palavra da Igreja que nos diz: “Nesta época, caracterizada pela repercussão universal dos problemas e simultaneamente pelo regresso dos ídolos do nacionalismo, os Institutos, sobretudo os internacionais, têm a missão de manter vivo e testemunhar o sentido da comunhão entre os povos, as raças e as culturas” (Exortação Apostólica Vita Consecrata, no n.º 51).
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