Igreja e
Inculturação

Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Inculturação

 

 

 

 

Na obra de evangelização de várias Igrejas, os povos indígenas nem sempre tiveram suas culturas respeitadas. Ao longo dos séculos, missionários, militares e mercadores foram estritos aliados numa sangrenta colonização de exploração e imposição religiosa dos primeiros habitantes dos cinco continentes.

Onde a conquista pela espada avançava, as populações eram obrigadas a tornar-se cristãs. A necessidade da sujeição pela força era uma convicção muito forte para os missionários que evangelizaram os territórios colonizados.

Só algumas vozes proféticas levantaram-se corajosamente em defesa dos indígenas, causando alvoroço e escândalo no meio da sociedade branca. Mas não conseguiram mudar o quadro geral da prática missionária.

Hoje em dia, a ação evangelizadora e a reflexão de vários setores de muitas Igrejas têm convicção de que é preciso percorrer outros caminhos para anunciar a Boa Nova de Jesus. O Evangelho não deve ser imposto, mas semeado e descoberto na sabedoria dos povos. A Igreja não deve mais ser implantada, mas brotar da terra fértil das diferentes culturas e das tradições milenares.

A palavra "inculturação" tornou-se importante para expressar a presença radicalmente renovada da Igreja missionária: o Evangelho é anunciado para se tornar um princípio que anima, guia e unifica as culturas, transformando-as e renovando-as a partir de seu interior até produzir uma nova criação.

O trabalho dos missionários e das missionárias junto aos diferentes povos é marcado não mais pela superioridade cultural e espiritual, mas pela proximidade, pela gratuidade e pela solidariedade para com as lutas e os projetos de vida de todas as comunidades.

INCULTURAR,
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Costanzo Donegana

O relacionamento do Evangelho com os povos indígenas é um assunto tão antigo quanto a história do cristianismo. Desde o início de sua trajetória, a Igreja teve que dialogar não apenas com as grandes civilizações da época, a grega e a romana - identificadas com as cidades -, mas também com os chamados povos da aldeia (pagus, do latim, daí o termo pagão). Estes últimos foram os que mais resistiram à nova religião.

Esse fenômeno do início é emblemático. Coloca-se no sentido oposto à história das missões nos séculos sucessivos, sobretudo a partir de 1.500. De fato, na época moderna o cristianismo conseguiu adeptos entre os seguidores das religiões tradicionais, como na África, mas poucos frutos recolheu entre as grandes religiões, originárias, sobretudo, da Ásia.

Há um elemento em comum entre as culturas dos povos indígenas em qualquer parte do planeta: são profundamente religiosas, ao ponto de a religião impregnar a vida desses povos. Esse aspecto é extremamente importante na hora de a Igreja propor o Evangelho. Caso contrário, pode vol-tar a repetir o erro de querer começar da estaca zero, ou de considerar as outras re-ligiões desprovidas de elementos positivos ou "primitivas".


Chefe de uma pequena comunidade no Benin

A história mostra que a Igreja e a maioria dos missionários enquadravam a religião dos povos indígenas (e também as grandes religiões) no "paganismo" e na idolatria. "De tantas grandezas da fé o que sabe o pobre idólatra? Nem o nome. Feito à imagem e semelhança de Deus, ele se degrada à estupidez dos brutos insensatos. Criado para o céu, não vê nada, a não ser a terra, chamado à eterna beatitude, corre, de olhos fechados, à eterna ruína". Assim se expressava José Marinoni, diretor geral do Pontifício Instituto para as Missões (Pime) em 1863.

Meio século depois, o próprio papa Bento XV, na encíclica missionária Maximum Illud, repetia que a finalidade da missão era "levar a luz àqueles que habitam na sombra da morte e abrir o caminho do céu àqueles que se precipitam para a destruição".


Arte litúrgica no Benin: a cura do paralítico

À exceção de algumas personalidades de Igreja (Raimundo Lúlio, Bartolomeu De Las Casas, Matteu Ricci, Roberto de Nobili.), foi essa a mentalidade comum dos missionários e dos cristãos (católicos e evangélicos) a respeito das outras religiões.

Tal convicção era conseqüência de dois preconceitos: um de caráter religioso e outro cultural. O primeiro consistia na idéia de que, para se salvar era necessário pertencer à Igreja, através do batismo e da profissão explícita da fé em Jesus Cristo.

Essa era a interpretação rígida da máxima extra ecclesiam nulla salus (fora da Igreja não há salvação). O preconceito cultural consistia na convicção da superioridade da cultura ocidental cristã sobre todas as demais.

A sociedade cristã servia de medida às outras sociedades. É claro que, com tais premissas, o relacionamento dos cristãos com as outras religiões não podia acontecer como entre iguais, mas como entre superior e inferior, entre quem tinha tudo e podia dar e quem não possuía nada e só podia receber. Os missionários tinham a convicção de que a religião ensinada por eles era oposta às religiões "pagãs". Estas deviam ceder lugar ao cristianismo.

Há um elemento em comum entre as culturas dos povos indígenas em qualquer parte do planeta: são profundamente religiosas, ao ponto de a religião impregnar a vida desses povos


Dança durante uma sessão de vodú

Esse contexto "viciou", em certo sentido, o trabalho missionário. Muitas vezes, o Evangelho foi apresentado sob uma roupagem européia, que nem sempre permitia vê-lo na sua essência pura e profundamente libertadora. Isso impediu também a descoberta da presença de Deus nas religiões não-cristãs, realizando a missão em termos de ruptura, e não de continuidade.

No entanto, não seria correto imaginar a história da missão como um simples colonialismo cultural e religioso ou uma aliança entre a cruz e a espada. As comunidades cristãs na África, Ásia e América Latina testemunham que, apesar dos limites da mentalidade da época, a semente da Boa Nova foi plantada pelos missionários, com dedicação e até na doação da vida.

Às vezes, faz-se uma leitura deformada do fenômeno das religiões tradicionais pelo fato de a Igreja não conseguir sintonizar-se com as manifestações dos povos indígenas, que são expressão mais de uma linguagem simbólica, corporal, intuitiva do que da razão pura. As definições de Deus dos africanos, por exemplo, não entrariam em nenhum capítulo de um tratado teológico, de antes e depois do Concílio Vaticano II.


O curandeiro lava o doente com água quente, fazendo-a passar através de um maço de junco para esfriá-la

Deus é "a folhagem que cobre o mundo inteiro". É a "fonte que nunca seca", "a nascente que sacia plenamente". Essas são imagens que atingem o ser humano todo e descrevem o que Deus é para nós. Não o definem por aquilo que é em si mesmo, como acontece entre os ocidentais.

Para os povos indígenas, a religião está enraizada em suas vidas. A realidade é vista integralmente. Não há separação entre o sagrado e o profano, o secular e o religioso, o material e o espiritual. A religião está presente em toda atividade cotidiana.

Respeito e conhecimento - Com o Concílio Vaticano II (1962-1965), a relação entre a Igreja e as religiões tradicionais mudou radicalmente. Passou-se de uma visão negativa das religiões não-cristãs a uma atitude de respeito e de reconhecimento que "não raro refletem um raio daquela verdade que ilumina todos os homens" (Nostra aetate, a Declaração do Vaticano II sobre a Igreja e outras religiões).

Grandes passos foram dados e se chegou à seguinte conclusão: "É através da prática daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas, e seguindo os ditames da sua consciência, que os membros das outras religiões respondem afirmativamente ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, mesmo se não o reconhecem como o seu Salvador".

Essa afirmação é oficial e consta no documento "Diálogo e Anúncio", do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Há quem foi mais longe, afirmando que as religiões são "caminhos de salvação" para seus adeptos.

O perigo é considerar o diálogo inter-religioso apenas entre as grandes religiões, como o judaísmo, o islã, o hinduísmo, e esquecer as menores. Estas seriam destinadas a desaparecer diante da avançada da cultura moderna e a expansão das grandes religiões. Aparentemente, as coisas estão mesmo assim: "Com o desaparecimento das estruturas étnicas, sociais e políticas, muitos rituais da religião tradicional estão mortos ou moribundos.

Porém, as crenças, os conceitos e os valores religiosos tradicionais são mais tenazes do que se pensa. As idéias antigas sobrevivem sob formas novas", analisa o teólogo Aylward Shorter.

Acontece que a religião tradicional exerce influência sobre a maneira de pensar dos intelectuais e está presente na vida de cristãos e muçulmanos.

Em muitos casos, constitui novos movimentos religiosos, como as milhares de Igrejas independentes na Nigéria e na República dos Camarões na África.

O encontro entre cristianismo e religiões tradicionais é complexo. São vários os motivos e de ambos os lados. Em relação ao cristianismo, há o problema que ele ainda se apresente, sob vários aspectos, com um rosto ocidental. Mais de quinze séculos de monopólio cultural europeu na Igreja deixaram marcas profundas, que impregnaram o seu modo de pensar, suas estruturas, o seu relacionamento com as outras Igrejas e religiões. Isso bloqueia um pouco a capacidade criativa de poder imaginar uma outra maneira de ser Igreja e de encarnar o Evangelho fora da forma na qual se apresentou até agora.

As religiões tradicionais, por outro lado, podem apresentar, misturados com uma profunda inspiração religiosa, elementos supersticiosos, uma atmosfera de medo, práticas incompatíveis com o Evangelho. Seria ingênuo exumar o mito do "bom sel-vagem", idealizando as culturas e religiões tradicionais e exagerando os limites da sociedade moderna.

Nova Mentalidade

Os preconceitos contra as religiões tradicionais se manifestam nos nomes com os quais, muitas vezes, elas são definidas

Religiões primitivas: Em contraposição às "grandes religiões", caracterizadas por doutrina e ritual organizados, fundador e livros sagrados. As "religiões primitivas" estariam num nível inferior, de uma religiosidade pouco evoluída, com manifestações grosseiras e materiais.

Paganismo: Antigamente, eram consideradas pagãs todas as religiões fora do cristianismo, do judaísmo e do islã. Pagão seria quem não conhece a Deus e adora os ídolos.


Cristianismo, judaísmo e islamismo consideravam as religiões tradicionais primitivas, pagãs e idólatras

Animismo: O nome vem do latim "anima" (alma) e atribui aos seguidores das religiões tradicionais a idéia de que os objetos e os animais possuem alma ou espírito. Isso é verdade, mas só em parte, porque as religiões tradicionais atribuem alma ou espírito só a determinados objetos ou animais.

Idolatria: Seria o culto das estátuas e das imagens que reproduzem as divindades. Mas nas religiões tradicionais africanas, por exemplo, existe um universo complexo, que compreende a crença no Ser Supremo, nos antepassados, nos deuses inferiores, nas potências e nas forças naturais.

Também admitindo uma identificação dos deuses inferiores com as imagens, isso não representa toda a religião, mas só uma parte. A mesma coisa deve ser afirmada em relação ao culto dos antepassados, que pode ser comparado com o culto dos santos no catolicismo. Como ninguém pode acusar os católicos de adorar os santos ou de reduzir a religião ao culto dos santos, assim é desrespeitoso reduzir as religiões tradicionais ao culto dos deuses inferiores ou dos antepassados.

ALÉM DO
DFDF FOLCLORE

São dois os canais a partir dos quais a comunicação entre cristianismo e religiões tradicionais poderia sair reforçada: o diálogo e a inculturação. Os preconceitos contra as religiões tradicionais resultaram em descaso quanto à possibilidade de diálogo entre elas e o cristianismo. O fato de uma conversão fácil ao cristianismo, em comparação com a dificuldade de penetrar nas grandes religiões, favoreceu a idéia de sua identidade frágil e, portanto, de sua inaptidão a um diálogo sério.

No entanto, os valores que essas religiões possuem podem ajudar o cristianismo a se expressar melhor sobre o mistério de Deus, a falar dele de uma maneira mais rica e capaz de atingir não só a inteligência, mas também as outras faculdades do homem.

Além disso, o forte sentimento comunitário dessas culturas corrige as deformações individualistas da prática cristã em favor de uma recuperação do espírito e da experiência de comunhão. Porém, esse diálogo deve ser vivido no dia-a-dia. Caso contrário, ficará estéril. Na verdade, não existe um relacionamento entre cristianismo e religiões tradicionais, mas uma relação entre os cristãos e os fiéis das outras religiões. Até porque, sendo a dimensão humana e religiosa nas culturas desses povos intimamente unidas, o diálogo não pode ser só intelectual, mas global, envolvendo todos os aspectos da existência.

O diálogo não pode se fechar em um discurso sobre Deus e a religião. Deve, sim, abrir-se à dimensão do Reino de Deus. A Igreja é chamada a descobrir o potencial libertador das religiões, de seus ritos e mi-tos. Ao mesmo tempo, deve ajudá-las a se libertar daquelas crenças que aprisionam as pessoas no medo, e das tradições que impedem a possibilidade de progresso.


Momento de dança e música num vilarejo em Bangladesh

As culturas desses povos olham para o passado, que é a tradição dos antepassados a ser repetida fielmente. "O passado, um passado mítico e divinizado orienta nossas culturas", afirma o estudioso africano Hamidou Kane. No caso do cristianismo, a história é projeção para o futuro, a partir da experiência fundamental da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Para as culturas tradicionais, a vida é um movimento circular, que volta sempre ao ponto inicial; para o cristianismo, é uma linha reta, aberta para o infinito.

Isso não afasta o cristianismo das outras religiões, como poderia parecer, porque coloca todos no horizonte do Reino. O Reino é um dom, e, por isso, não é monopólio dos cristãos, porque o Pai o semeia, sem medida, no campo da humanidade: todos os homens e mulheres, todas as culturas e religiões fazem parte dele.

O encontro entre cristianismo e religiões tradicionais acontece realmente, quando mergulham, juntos, nos problemas e desafios da sociedade, operando concretamente na luta pela justiça e caminhando para a criação de uma só família, a família de Deus, onde todos - das diferentes culturas e religiões - são irmãos e irmãs.

Atualmente, a palavra inculturação entrou na linguagem corriqueira da missão. Porém, ela está apenas engatinhando

A inculturação é outro lugar de encontro entre cristianismo e religiões tradicionais. Enquanto o diálogo acontece entre as duas religiões que permanecem na sua plena identidade e não há movimento de "conversão" de uma para a outra, a inculturação se dá dentro do próprio cristianismo, que se encarna em uma dada cultura.


Capela da comunidade indígena de Gulalag perto de Riobamba - Equador

Podemos dizer que, concretamente, a experiência de inculturação na missão está acontecendo, sobretudo, no contato com as culturas e religiões tradicionais, entre as quais o cristianismo teve maior inserção. Para dizer a verdade, a imagem de inculturação que circula nos ambientes eclesiais parece mais ligada ao folclore do que a um processo de enriquecimento profundo: a adaptação de danças e instrumentos musicais, a introdução de símbolos e o uso de provérbios são meios não desprezíveis, claro, mas atingem só o exterior. Colocando a inculturação na linha da encarnação promovida pelo Cristo, compreende-se que se trata de atingir os níveis mais profundos que constituem uma cultura, nas organizações da sociedade, nos relacionamentos entre os homens e com Deus.

Atualmente, a palavra inculturação entrou na linguagem corriqueira da missão. Porém, ela está apenas engatinhando. Existem problemas de difícil solução, muitas resistências e medos em enfrentá-los. Apesar de tudo isso, há experiências promissoras em nível de liturgia, de ministérios, de organização das comunidades e de teologia.

Ritos e costumes

Em Nanka, aldeia da etnia igbo, na Nigéria, um cristão pediu que, quando morresse, sua mulher não fosse obrigada a observar as tradições do lugar.


Pequeno rei da etnia, felupe, Guiné Bissau, com suas duas esposas

Na sociedade tradicional Igbo, a mulher é comprada pelo marido e, por conseguinte, torna-se, literalmente, sua propriedade. Uma mulher sem marido não tem identidade. Quando o marido morre, a mulher volta à sua condição de não-identidade. Ela não é mais considerada como pessoa, sobretudo, quando não tem filhos. É punida como se fosse a responsável pela morte do marido. Deve beber a água que serviu para lavar o corpo do morto antes do enterro, cortar totalmente os cabelos, vestir roupa preta durante um ano, não pode usar nenhum perfume e deve circular com um facão sem ponta, como sinal da sua dor pela morte do marido. Outro costume em Nanka: a viúva não pode ver o marido antes do enterro.

Quando esse tal cristão faleceu, em 1993, um grupo de amigos de fé quis cumprir as disposições que ele deixara. Desse modo, a viúva participou de todos os ritos fúnebres. No entanto, um outro grupo da comunidade, decidido a seguir as prescrições da tradição, aplicou as sanções previstas para esse tipo de caso: desenterraram o cadáver e o sepultaram, de novo, em um lugar "maldito". A polêmica resultou em violência entre os dois grupos, deixando dois mortos e muitos feridos. Os missionários que atendiam à comunidade viram-se diante de grandes questionamentos: Qual é o tipo de relacionamento entre cristianismo e tradições locais? Como a fé pode interpretar um costume não-cristão? Que ensinamentos de fé foram passados pelos primeiros missionários entre os Igbo? Como o cristianismo e a religião tradicional podem dialogar entre si?

Para as culturas tradicionais, a vida é um movimento circular que volta sempre ao ponto inicial; para o cristianismo, é uma linha reta, aberta para o infinito

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