Revista "MUNDO e MISSÃO"
Evangelização - Inculturação
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por irmã Jane Márcia do Amaral Cardoso
Crise e oração A vivência de dois anos por lá abriu-me a porta àquela cultura, onde ainda tento colocar os pés. Portanto, falo daquilo que o coração viveu e vive hoje. No início da experiência missionária, tudo era encanto: um paraíso, lugar lindíssimo, praia, coqueiral, muita mata, flores. A ilha é plana, sem montanhas, nada. A gente se encanta com o povo, que se encanta com a gente. O nativo é bem humorado, talentoso, com a alma cheia de musicalidade. Depois aparecem as dificuldades e as crises; dolorosas, mas boas. O jeito de ser e a mentalidade do povo são outras. Nem melhores, nem piores; apenas diferentes. E, vocês sabem, o diferente assusta quando a gente está longe dos iguais. Na coordenação da Infância Missionária eu era a “rainha da cocada preta” mas, lá longe, desconhecendo a língua, virei criança, engatinhei, balbuciei. Até a oração em outra língua era difícil. Nunca duvidei da vocação missionária, mas tremi nas bases e concluí: estou no lugar errado! Vou voltar, sem vergonha nenhuma, e dizer que não dei conta do recado, que foi uma decisão na escuridão... Mas Deus nunca abandona. Ele sempre mostra alguma saída. A gramática e um dicionário, preparados por um abençoado padre do PIME, ajudaram-me a entender o povo, que sentia enorme prazer ao me ver pronunciar uma palavrinha que ele entendesse. Eu descobrira o jeito de entrar naquele coração. O relacionamento com o povo exige falar sua língua. A língua popular é a kilivila, com termos latinos e espanhóis. Os estudantes aprendem também o inglês. Durante um tempão, evitei os estudantes, principalmente adolescentes, pois não sabia como me relacionar com eles. O brasileiro gosta de abraçar, beijar, ser afetivo. Lá não é bem assim, pelo menos com os estranhos. Minha tábua de salvação foi a oração constante. Aprendi que, sem ela, você não vai pra frente, não. Não adianta ter talentos. Sem vida de oração, você acaba caindo, mais cedo ou mais tarde, porque você não tem a essência, que é Jesus. Sem Ele, a sua palavra é vazia. Quanto mais rezava, mais coragem eu adquiria para me “achegar” aos jovens. Quando voltavam a vergonha e o medo de falar, eu me entregava a Jesus, que sempre dava um “jeitinho”. Livros, palestras,... tudo o que eu aprendera no Brasil, foi para o espaço. Precisei me despir de toda essa bagagem, de me sentir um nada, para entender que Deus precisava desta ferramenta. Se antes eu me sentia “a tal”, percebi que nada era. Apenas alguém que pudesse freqüentar a vila, comer a comida do povo, ir à roça com ele..., porque a vida é feita de pequenos gestos. Sentir-se pequeno não é se desvalorizar. É a capacidade de entender que o que você recebeu de Deus tem mais espaço para o outro.
Culturas diferentes A vida nativa gira em torno dos clãs, que antigamente não permitiam casamento entre os seus membros. Hoje já não é bem assim. Os clãs compõem-se de tribos. Os principais clãs são: Malasi, Lukwasisiga, Lukulabuta e Lukeba. Cada vila tem um chefe, o mais idoso e mais respeitado, que se reporta ao chefe da ilha. O tribunal da vila discute problemas de terras, brigas, casamentos,... cuja decisão final é responsabilidade do chefe. Os dialetos de Papua passam de 1.300. O casamento é matrilinear, ou seja: ao nascerem, os filhos pertencem ao clã da mãe, e não do pai. O irmão tem que fazer a roça da irmã, mesmo depois que ela se casar. Naquela sociedade a presença feminina é valorizada. Os ancestrais dos nativos não usavam roupa alguma. Hoje, as mulheres têm os seios desnudos, mas usam uma saia feita com folhas de bananeira; os homens, uma espécie de sunga, de palmeira. É tudo muito natural. Lamentavelmente, esse negócio de roupa veio com os ocidentais. Parece que nós não sabemos lidar muito bem com a sexualidade, temos uma certa vergonha, um pudor... Os nativos orgulham-se de seus antigos hábitos e deixam claro, através de certas ações, que não precisam de nossos hábitos e idéias. Alguns missionários pensavam que iam ensinar e não aprender. Esse foi seu grande erro. Compreendi, nesses anos, que a gente não ensina nada. A gente partilha a presença de Deus na vida e ajuda os nativos a sentirem também o Deus de Jesus Cristo em sua vida. O assistencialismo disseminou no povo a idéia de também receber coisas materiais do missionário: querosene, sabão, tudo o que precisa. No início, isso nos perturbava, porque ninguém vinha pedir que falássemos de Jesus Cristo. Mas o convívio mostrou-nos que muitos pedidos eram apenas desculpa para um começo de conversa. Assim, as missionárias entraram naquelas vidas. A formação missionária é um passo importante. Entendo que missão é Graça, que a gente recebe na medida em que abre o coração para a beleza de Deus, também presente nas culturas nativas. Se você percebe essa riqueza, ela o transforma e o faz ser mais gente também. Nossa ilha é de coral, um grande coral que flutua no oceano, sem estrada asfaltada, sem nada. Mas as pessoas andam sobre aquilo, pés no chão e crostas nas solas. A falta de transportes obriga a andar bastante. Sem luz elétrica, usa-se o lampião de querosene. Em uma localidade, um missionário instalou bateria solar. Conseguimos um gerador para fazer funcionar um computador, uma copiadora e uma televisão com vídeo, utilizados na pastoral. Apesar de não fazer parte daquele mundo, tais equipamentos nos ajudam a servir melhor. O nativo não nos convidou para entrar na sua ilha. Nós, os invasores, fomos porque temos o melhor produto a lhes oferecer: a Boa Nova. O primeiro contato, a propaganda e a embalagem desse produto é o missionário. Se sou uma embalagem triste, rabugenta, encrenqueira e fechada, quem é que vai querer o meu produto? É uma graça você entrar no coração daquela gente. Um coração repleto de espíritos e de magias. Da boa e da ruim, da que mata e da que abençoa. A morte de alguém, por exemplo, é sempre fruto de uma delas, nem que a pessoa tenha sido vítima de malária, tuberculose ou hanseníase. Se morre em outro lugar, a pessoa é enterrada em Trobriands. São profundas as raízes culturais dos ilhéus, e eles esperam mantê-las firmes na alma das futuras gerações. Senti a pessoa de Cristo, ao me aproximar daquela cultura. Então, a sensação de rejeição transformou-se em paixão pelo povo. E hoje fico magoada quando alguém fala mal daquela gente, com fama de espertalhona, porque ela mente para obter coisas. Só o convívio justifica aquelas atitudes. De fato, ninguém é maldade concentrada. Há muita coisa boa e bela em cada um dos filhos de Deus. Um
Apaixonado por Papua Dom Cesare Bonivento, do PIME, é o prelado italiano da extensa diocese de Vanimo, a mais inexplorada área no extremo norte de Papua Nova Guiné. Residente há 23 anos na ilha, é seu bispo desde 1992, por nomeação de João Paulo II. Dom Cesare fala com paixão daquele mundo de águas: “A Oceania é o mais vasto e disperso dos continentes, mas é o menor em população. Compreende as civilizações tradicionais de Papua Nova Guiné e do norte da Austrália, e faz fronteira com a modernidade, como a Austrália e a Nova Zelândia. Continente de evangelização mais recente, é também o continente onde o Evangelho produziu mais frutos. De fato, hoje é quase totalmente cristão. Os católicos são cerca de 9 milhões, e correspondem a um terço da população de toda a Oceania”. A seguir, é o pastor que surge de suas palavras: “Os vários Institutos religiosos que por aqui passaram, não só evangelizaram, dando sua generosa contribuição de mártires, mas também iniciaram o processo de criação do clero local. Foi um processo obrigatoriamente lento em função das dificuldades culturais”. Quanto às vocações, dom Cesare refere-se a duas vertentes: “Na Nova Zelândia e na Austrália, há forte diminuição de vocações sacerdotais e religiosas por causa da secularização. Outras ilhas da Oceania, porém, se vêem diante de uma autêntica primavera de vocações, tanto para o clero diocesano, quanto para as congregações religiosas. A Diocese de Vanimo, por exemplo, abriga um seminário menor, com 77 seminaristas; e um maior, com 8 que, mais próximos do sacerdócio, são algo grandioso para uma diocese como a nossa, sem nenhum sacerdote local. Também as vocações religiosas femininas aumentam sensivelmente. Isto nos faz otimistas quanto à evangelização, que não pode privar-se da contribuição potencialmente rica das populações do Pacífico”. Não apenas vocações florescem em Papua. A Dov Construction, cujo diretor nominal é dom Cesare, ajuda a manter a diocese, além de garantir o salário de umas cinqüenta famílias. Seu diretor afirma: “Esta atividade mantém o trabalho da nossa missão. Com ela construímos escolas, hospitais, casas, inclusive na floresta. Há marcenaria, forno para tijolos, além de oficina mecânica com soldadores, encanadores, carpinteiros”. Lá também se constroem os móveis sacros e os tank, pequenos reservatórios de água, espalhados pela diocese inteira, para recolher a água das chuvas. O avião é o único meio para se chegar à floresta virgem. Não existem estradas. Por isso, a diocese também possui um hangar no aeroporto de Vanimo. Devido à desastrosa situação econômica, o governo, além de abolir a instrução gratuita, também privatizou o sistema de saúde. “Na diocese construímos oito hospitais, com pronto-socorro e alas para o tratamento da tuberculose e da lepra, ainda não debeladas em Papua”, reconhece o prelado. Ele continua: “A instrução, por aqui, é um luxo e o analfabetismo, um grande problema social. Agora, falta-nos uma escola superior feminina, cujo financiamento já está assegurado. Desejamos dar dignidade às moças e conscientizá-las do próprio valor. Desejamos que tenham acesso à universidade e insistimos a que surja uma nova classe política no país. A escola será construída brevemente e as irmãs irão dirigi-la. Ainda não sabemos onde será construída, mas que será logo levantada, disso não tenho a menor dúvida”.
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