Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Inculturação

Matteo Ricci:
a missão conforme o Vaticano II, no século XVI

Alberto Garuti

Celebra-se, neste ano, o quarto centenário da chegada de pe. Matteo Ricci, missionário jesuíta, a Pequim, onde foi recebido pelo imperador em seu palácio.

Ricci foi um missionário que viveu já em sua época, os princípios básicos do Vaticano II, especialmente a inculturação e o diálogo inter-religioso.

Infelizmente, não foi compreendido e a evangelização na China, conforme seu estilo, foi interrompida. Se tivesse continuado, certamente a história do cristianismo naquele país teria sido muito diferente.

 

Chinês com os chineses

O que caracteriza padre Matteo Ricci é o grande respeito pela cultura chinesa. Como disse João Paulo II, “ele estava convicto de que o cristianismo não teria prejudicado a cultura chinesa, e sim a teria enriquecido e aperfeiçoado”

Matteo Ricci nasceu na cidade de Macerata, que na época fazia parte dos Estados Pontifícios, em 1552. Depois de estudar direito em Roma, entrou na Companhia de Jesus, em 1571. Durante sua formação, interessou-se também por várias matérias científicas, como matemática, cosmologia e astronomia.
Em 1577, pediu para ser enviado às missões no Leste da Ásia e, aos 24 de março de 1578, embarcava em Lisboa, chegando a Goa, capital das Índias Portuguesas, aos 13 de setembro do mesmo ano. Alguns meses depois, foi destinado para Macao, a fim de preparar sua entrada na China. Aos 7 de agosto de 1578, chegava a Macao.

Preparando-se para a missão na China

O cristianismo tinha sido levado à China já desde o século VII, mas, quando S. Francisco Xavier morreu, em 1552, às portas da China, dessa primeira evangelização não ficou praticamente nada. Mesmo as primeiras tentativas, logo depois da morte do grande missionário, não deram muito fruto. Jesuítas, franciscanos e agostinianos tentaram, mas com nenhum resultado. Tratava-se de uma evangelização feita às pressas, com homens insuficientemente preparados e incapazes de aproveitar das circunstâncias favoráveis que lhes estavam sendo apresentadas.
O primeiro objetivo de Matteo Ricci foi estudar perfeitamente o mandarim, língua falada em todo o império chinês pelas autoridades e pelas pessoas cultas. Parece que essa não fora a preocupação dos missionários que o precederam. Eles se serviam mais da língua dos colonizadores do que da língua local para anunciar o Evangelho. Finalmente, depois de cinco anos, foi autorizado a fixar residência, junto com o companheiro, padre Ruggieri, no interior da China.

Ganhando a confiança dos chineses

A primeira preocupação de pe. Matteo foi mostrar muito respeito e consideração por tudo o que era chinês. Perguntado qual era o objetivo que levava dois europeus a viver na China, respondeu “que eram religiosos que tinham deixado seu país no longínquo Oeste por causa da fama do bom governo da China, onde desejavam permanecer até a morte, servindo a Deus, o Senhor do Céu”.
Ele não disse, logo no início, que queria anunciar uma nova religião. Os chineses, em seu orgulho, não admitiriam que tivessem algo a aprender de estrangeiros e não os teriam deixado permanecer ali. Apesar de não dizê-lo claramente, nunca esconderam sua fé nem sua identidade de padres católicos.
Os que visitavam sua casa, viam um quadro com a Virgem Maria e o menino Jesus em seus braços. Uma vez superada a desconfiança inicial e vencida uma certa antipatia em relação a eles, vistos como estrangeiros, começaram a responder às perguntam que eram feitas a respeito do quadro, transmitindo assim as primeiras noções de cristianismo.
Ele aprendeu a falar e a escrever o chinês perfeitamente e adotou os trajes dos chineses instruídos da época.
O passo seguinte de pe. Matteo foi despertar a curiosidade dos chineses a respeito desses estrangeiros recém-chegados: assim ele deixou bem à vista em sua casa uma série de objetos trazidos da Europa, como sinos de vários tamanhos, instrumentos de astronomia e matemática, pinturas, mapas, livros magnificamente impressos. Em pouco tempo, espalhou-se a fama de que aqueles estrangeiros não correspondiam ao estereótipo que os chineses tinham de qualquer estrangeiro, que eles acreditam ser rude, pouco educado, atrasado e sem cultura. Como diz o próprio Ricci, “vieram todos à nossa casa e acabaram tendo, a respeito de nossos países, nosso povo, e especialmente de nossos homens cultos, uma idéia bem diferente daquela que até então tinham formado”.


“Os mapas de Ptolomeu eram geralmente fiéis à visão de mundo do grande geógrafo, perpetuando tanto seus acertos quanto seus erros. O engano mais significativo era o cálculo errado do comprimento de um grau de longitude, o que levou Ptolomeu a exagerar a extensão da Eurásia. Essa confusão fez Colombo concluir que a rota mais curta para a China estava a oeste e achar que tinha chegado no Oriente quando, em 1492, aportou nas Índias Ocidentais” Time Life

De todos esses objetos, o que mais fez sucesso foi um mapa-múndi. Isso não quer dizer que os chineses não tinham seus mapas. Tinham sim, mas o que nesses mapas se encontrava estava bem longe da realidade. O império chinês, dividido em 15 províncias, ocupava quase todo o espaço. Em volta dele, estava pintado um pouco de mar com algumas pequenas ilhas, cada uma delas menor que uma das províncias do império, em cada uma das quais estava escrito o nome de um dos demais países do mundo, conhecidos pelos chineses. A primeira exposição do mapa de pe. Ricci causou muitos protestos dos chineses, que não queriam admitir que a China fosse menor que o resto do mundo. Mas quando os padres, com muita paciência, mostraram o cuidado e os critérios científicos segundo os quais o mapa tinha sido feito, os mais sábios entre os presentes começaram a se render à realidade. A primeira reação foi uma chuva de pedidos para terem uma cópia desse mapa com as inscrições em chinês.
Segundo pe. Ricci, aquele foi um trabalho importantíssimo. Acreditando no mundo ocidental e nos estudiosos desse mundo, os chineses começavam a perder a desconfiança da religião que alguns desses homens iriam anunciar em breve. A partir daquele momento, os missionários começaram a falar com mais clareza sobre sua religião, inclusive distribuindo folhetos contendo os Dez Mandamentos, pequenos resumos da moral cristã e, em seguida, até um pequeno catecismo. Esse material foi recebido favoravelmente, e até o mais alto mandarim da província sentiu-se muito honrado em receber uma cópia do livrinho.

Rumo a Pequim

Pe. Matteo sempre desejou chegar a Pequim e anunciar o Evangelho a partir de lá. Em 1599, alguns entre os mais altos mandarins já estavam desejosos de ver e ouvir o famoso sábio do Ocidente. Dois anos depois, o inesperado aconteceu. O próprio imperador, Wan-li, convidou-o ao seu palácio.

Para ganhar a simpatia do imperador, pe. Matteo ofereceu-lhes vários presentes trazidos da Europa e, dentre eles, o famoso mapa que tão bem já tinha sido acolhido, alguns anos atrás, por alguns sábios chineses do interior. O imperador também mostrou-se muito interessado e pediu logo uma cópia para si. Nas conversações com pe. Ricci no palácio, todos ficaram admirados com sua sabedoria e tiveram que admitir que seus conhecimentos em certas ciências, como, por exemplo, astronomia e matemática, estavam muito longe dos níveis a que se tinha chegado no Ocidente.

Tudo o que tinha feito até esse momento, o missionário jesuíta considerava estratégia para predispor a boa vontade do chinês e suscitar seu interesse pela religião que, mais tarde, ele iria anunciar.

A partir desse momento, ele começou a usar outros meios, como por exemplo, tornou-se escritor de livros que foram tão bem sucedidos entre os chineses, como as suas demonstrações de conhecimento em campo científico.

Ele escreveu, por exemplo, “As Vinte Cinco Palavras”, pequeno tratado de moral em outros tantos capítulos, e, o que teve mais sucesso ainda, “Os paradoxos”, uma coleção de sentenças morais ilustradas com exemplos, tudo tirado da Escritura e de obras de autores cristãos que levaram os chineses, muito orgulhosos dos próprios autores, a ter que admitir que havia coisas maravilhosas nas literaturas e religiões de outros países também. Tudo o que o Pe. Matteo fazia, seja no campo científico como no campo religioso, fazia-o muito bem, suscitando a admiração da classe culta chinesa.

Mas o livro que mais chamou atenção foi “Tíen-chu-she-i” (A verdadeira doutrina de Deus). Trata-se, em poucas palavras, daquele catecismo que ele já publicara alguns anos atrás, quando estava no interior, revisto, aumentado, enriquecido, que falava de Deus, da criação, da imortalidade da alma e do prêmio ou castigo final. O toque de gênio de Ricci foi ter apresentado, além de muitas citações de autores cristãos, citações também de autores chineses, especialmente antigos. Isso aumentou a confiabilidade do livro e sua aceitação entre os leitores chineses. Em pouco tempo, o livro tornou-se o manual de muitos missionários e teve muita influência na primeira evangelização da China. A obra impressionou tanto que, mesmo cem anos depois, o imperador K´ang-hi, em 1692, mandou proclamar um edito em que se autorizava a pregação do Evangelho em todo o império.

O que alguns estudiosos chineses pensam de pe. Matteo Ricci

O prof. He Guanghu, experto de cristianismo da Academia Social das Ciências de Pequim, escreveu um artigo cujo título é: “ O maior povo da terra e maior religião do mundo têm o dever de normalizar suas relações. O significado da vinda de pe. Matteo Ricci a Pequim, 400 anos depois”. Desse artigo extraímos alguns trechos que publicamos a seguir:
“(...) Pe. Matteo Ricci tornou-se um símbolo para toda a China. A figura de Marco Polo está ligada a uma história lendária; Matteo Ricci, famoso estudioso do Oriente e do Ocidente, cientista sério, missionário da fé, é o símbolo do primeiro contato da China com a ciência e a tecnologia européia; da fé cristã que se enraíza entre os intelectuais da raça Han; do primeiro intercâmbio entre a cultura ocidental e a chinesa. (...)

A polêmica sobre os ritos chineses tem duas causas: de um lado, Roma procura defender a pureza absoluta da religião e de sua doutrina; do outro, o governo da dinastia Qing quer manter o controle político e ideológico sobre a cultura e a tradição popular chinesa. A conseqüência é que ambos os lados sofreram uma perda histórica: para Roma, foi a interrupção da missão cristã; para a China, a interrupção da abertura causou a interrupção do processo de modernização do país, levando assim à queda e morte da dinastia Quing e a um prolongado subdesenvolvimento social da China (...)”

O prof. Shan Yuan, um dos relatores do Congresso Internacional sobre Matteo Ricci, realizado em Pequim, de 14 a 17 de outubro deste ano, escreveu vários artigos sobre o assunto. Deles extraímos as seguintes afirmações:

“Matteo Ricci desenhou o “mapa-múndi”, o primeiro mapa mundial da história chinesa. Para compreender sua influência sobre a China, basta pensar que teve 12 edições. Pela primeira vez, esse mapa sacode, de modo definitivo, a mentalidade chinesa sobre a “divisão entre o Império do Meio e as nações estrangeiras”. Ele amplia a consciência mundial dos chineses em termos de tempo e espaço e abala profundamente a consciência cosmológica tradicional da China. (...)”

Matteo Ricci faleceu 400 anos atrás, mas sua obra permanece uma herança preciosa para o cristianismo na China, herança que deve ser aprofundada e desenvolvida ainda hoje.

Pe. Matteo respeitava muito o confucionismo, a religião mais difundida na China (que ele, contudo, considerava mais uma doutrina moral do que uma religião), e nela encontrava muitas concordâncias com o cristianismo. Nos livros que escreveu, ele mostrou sempre que não há incompatibilidade entre a doutrina de Confúcio e o Evangelho, pelo contrário, o segundo completa a primeira.


Confúcio

Imperador chinês Wan-li, prote-tor de Ricci durante sua perma-nência na China

Podemos dizer, para concluir, que ele soube achar a maneira adequada de escrever claramente as nossas verdades, os nossos dogmas, de maneira não somente a serem compreendidos, mas a interessar e falar ao coração dos chineses. Em poucas palavras, falar e escrever, pensando não somente naquilo que se está dizendo ou escrevendo, mas também naqueles que irão ouvir ou ler, isto é, inculturar a própria pregação.
Ricci antecipou o Vaticano II.

Um sinal de quanto pe. Matteo Ricci foi amado e estimado pelos chineses aconteceu na hora de sua morte, em 1610. Por lei, nenhum estrangeiro que morresse na cidade de Pequim podia ser sepultado lá. O superior dos jesuítas pediu ao imperador a autorização para que o padre fosse sepultado na capital, lembrando sua atividade na corte imperial e as honras que recebeu por seu trabalho. O imperador consentiu, dizendo que há muitíssimos anos não se tinha visto um estrangeiro com tanta virtude, sabedoria e amor pelos chineses como o pe. Matteo Ricci.

As questões dos ritos chineses e dos nomes de Deus

As dificuldades que padre Ricci não encontrou entre os chineses acabou encontrando dentro da própria Igreja católica

Depois de sua morte, os métodos de pe. Ricci encontraram críticas e oposição dentro da própria Igreja. Poucas pessoas tinham a mentalidade esclarecida que ele tinha. Para completar o quadro, era o tempo da Inquisição e a preocupação com um extremo rigor na apresentação da doutrina católica era muito grande.

A questão dos nomes de Deus


Acima, neste detalhe de uma tela oriental, mercadores europeus encontram-se com um grupo de missionários jesuítas, monges franciscanos e cidadãos japoneses

Não é fácil traduzir para a língua chinesa os termos teológicos. Um problema que o pe. Ricci encontrou foi o de escolher o termo que expressasse bem para os chineses o conceito de Deus, senhor de todos, criador do universo e suprema autoridade.

Os chineses já usavam dois termos: T´ien (que em si significa céu) e Shang-ti (Soberano Senhor) para designar Deus. Alguns autores chineses, seguidos por outros missionários, achavam os dois termos insuficientes para exprimir toda a realidade que entendemos através do termo Deus. Para eles, as duas palavras acima indicariam o céu, enquanto lugar de várias divindades, e não do Deus único.
Ricci começou usando T´ien chu (que significa Senhor do céu), para indicar o Deus dos cristãos. Mas, estudando as obras da literatura chinesa antiga, ele conseguiu afirmar com segurança que os dois termos acima, T´ien e Shang-ti, poderiam ser usados para indicar o Deus único, Senhor supremo. Em suas obras passou a usar também esses dois termos, que o próprio Confúcio usava, para indicar o nosso Deus, conquistando a simpatia de muitos confucionistas, que não adoravam ídolos, e que ficaram agradecidos ao pe. Ricci por esse ato de boa vontade em relação ao mestre.


retrato do imperador K'ang-hi da dinastia Qing, em trajes oficiais

As razões do fundador da missão na China eram fortes e bem fundamentadas, mas não foram compartilhadas por todos, até entre os jesuítas. Foram justamente os jesuítas do Japão que criticaram o uso desses termos, ao passo que, entre os que trabalhavam na China, somente um se manifestou contrário, o pe. Nicola Longobardi, sucessor de Ricci. A discussão prolongou-se até o começo do século seguinte quando, em 1704 e 1715, Clemente XI proibiu o uso dos termos T´ien e Shang-ti para indicar Deus e somente permitiu o uso do termo T´ien-chu.

A questão dos ritos

Em sua preocupação de inculturar a mensagem evangélica e de tornar-se “chinês com os chineses”, pe. Ricci valorizou muito alguns gestos e ritos que todo chinês realizava e permitiu que também os cristãos os realizassem, não vendo neles nenhum sinal da existência de algo contrário ao ensinado pela religião católica.

João Paulo II pede perdão pela incompreensão da Igreja a respeito da obra de pe. Matteo Ricci

Nos dias 24 e 25 de outubro de 2001, realizou-se em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, um Congresso Internacional sobre “Matteo Ricci: diálogo entre China e Ocidente”. O papa enviou aos participantes uma mensagem, da qual publicamos os seguintes trechos:

(...) Desde os primeiros contatos com os chineses, padre Ricci fundamentou toda sua metodologia científica e apostólica sobre dois pilares, aos quais se manteve fiel até a morte, apesar das muitas dificuldades e incompreensões, internas e externas: primeiro, os neófitos chineses, abraçando o cristianismo, não deveriam, de jeito nenhum, faltar com a lealdade em relação ao seu próprio país; segundo, a revelação cristã sobre o mistério de Deus não destruía, mas valorizava e completava tudo o que de bom, de belo, de justo e santo a antiga tradição chinesa tinha vislumbrado e transmitido.(...)

Sinto profundo pesar por esses erros e limites do passado, e sinto muito por eles terem causado em não poucas pessoas a impressão de uma falta de respeito e de estima por parte da Igreja católica para com o povo chinês e que possa ter induzido essas pessoas a pensarem que nela abrigassem sentimentos de hostilidade em relação à China. Por tudo isso, peço perdão e compreensão a todos os que se sentiram, de qualquer maneira, feridos por tais formas de ação dos cristãos.(...)

Tratava-se dos ritos e das cerimônias em honra aos antepassados e ao próprio Confúcio.

Os ritos em honra aos antepassados consistiam em prostrações e na oferta de sacrifícios aos falecidos da própria família. Esse gesto era considerado um ato de amor filial, muito importante para um chinês, e quem deixasse de fazê-lo passava a ser considerado um membro indigno de sua família. Cerimônias semelhantes eram realizadas em honra a Confúcio e eram consideradas condição indispensável para receber qualquer título de estudo ou conseguir vaga num emprego público. A importância da cerimônia era tamanha, que quando o ministro da França pediu que os cristãos fossem dispensados dessas cerimônias, em nome da liberdade de religião a Corte de Pequim respondeu que se tratava de uma tradição tão enraizada na alma do povo que não admitia exceções.

O que pe. Ricci fez foi estudar a fundo, como era de seu feitio, o problema. Chegou à convicção de que esses atos não continham, de jeito nenhum, significação religiosa. Confúcio era visto como um sábio e não como uma divindade. Quanto ao culto dos ancestrais, ele escreveu: “A honra que eles dão aos antepassados consiste em servi-los, mortos, como quando eram vivos. Eles não pensam que o morto venha comer o que lhe ofereceram (carne, frutas, etc.) ou que precisem disso. Eles dizem que agem assim, porque não conhecem outra maneira de mostrar seu amor e gratidão a seus ancestrais.” Quanto a Confúcio, “por meio dessas cerimônias, eles agradecem a Confúcio pela excelente doutrina que lhes deixou em seus livros e que lhes permitiu conseguir seus diplomas e seu título de mandarim. Em tudo isso não há nada que faça suspeitar a existência de idolatria e é muito provável que não haja nada de superstição nisso.” Ele permitia, portanto, aos cristãos participar desses ritos, recomendando somente que evitassem tudo o que pudesse dar a impressão de superstição.
A tolerância, contudo, não significava liberdade total. Os chineses podiam honrar seus mortos, mas tudo devia ser feito em conformidade com o que os cristãos faziam no resto do mundo.
Durante 50 anos, esses princípios serviram como guia e orientação para todos os missionários.

A proibição de celebrar esses ritos

Pe. Ricci pôs-se este problema: “É possível, para alguém que se torna cristão, continuar sendo lealmente chinês? Mais concretamente: é possível continuar praticando os ritos familiares e nacionais que constituem as bases civis e morais da sociedade?”


Segundo a tradição, considerada por Matteo Ricci como manifesta-
ção cultural e não expressão da fé, os chineses homenageiam, até hoje, a memória de seus antepassados com oferendas nos túmulos

Estudou a fundo os autores e os costumes da China com a preocupação de não impor pesos inúteis aos novos cristãos, conforme as orientações do primeiro Concílio de Jerusalém.

O próprio superior das missões jesuítas na China, pe. Valignano, dizia que “é preciso acolher ao máximo, uma vez que a fé esteja salva.” Mas não era essa a opinião dos novos missionários que chegavam à China, especialmente de outras congregações, como franciscanos e dominicanos.

Outras missões inclusive, como a das Filipinas, que punham em prática métodos intransigentes e até violentos de evangelização, na onda dos métodos seguidos pelos conquistadores espanhóis, começavam a denunciar a missão da China como desviante.
A polêmica contra o método proposto por Ricci começou a tomar impulso, especialmente, com a chegada de pe. João Batista Morales, espanhol dominicano, formado de acordo com os princípios da Inquisição, que denunciou esse método como exemplo de idolatria.


Ao lado, cada item da vestimenta chinesa denotava status: sapatos, cinto, chapéu, adaga e, sobretudo, os mantos graciosos de seda que formavam a base do traje da corte havia mais de mil anos. Abaixo, acredita-se que este seja um retrato de Matteo Ricci quando jovem; o livro em sua mão tem o título de Ensinamentos Sagrados do Senhor Celestial, expressão chinesa para designar o catolicismo

A discussão continuou acirrada por muitos anos até que, em 1704, Clemente XI proibiu aos cristãos a participação nas celebrações em honra aos antepassados e em honra a Confúcio.

O próprio imperador K´ang-hi, dividido entre a amizade com os padres jesuítas e a aplicação da lei, demorou para chegar às conseqüências legais a que o decreto papal levava.

Conservou na corte pontifícia os jesuítas que ocupavam encargos científicos, mas em seguida, em 1717, acabou declarando que todos os missionários deviam ser expulsos, a religião cristã proibida as igrejas deveriam ser destruídas e os cristãos chineses deveriam renunciar à sua religião.

Para os cristãos chineses a prova foi duríssima: não conseguiam entender porque deveriam renunciar aos deveres de piedade familiar e ao amor pela pátria para serem bons cristãos. Nem o governo chinês entendeu por que certos atos fossem proibidos aos cristãos.

A simpatia e a benevolência para com a Igreja que os imperadores tinham, no tempo de Matteo Ricci, transformaram-se em perseguição.

A história da missão na China tomou um rumo diferente.

 

Matteo Ricci e o cristianismo na Coréia

Matteo Ricci não somente fez os chineses entenderem e apreciarem o Evangelho: deve-se aos livros que ele escreveu o inicio da cristianização também da Coréia.

O cristianismo foi introduzido nesse país por um grupo de leigos coreanos e não por missionários estrangeiros, como aconteceu em todos os outros lugares do mundo.

Em 1777, literatos coreanos tiveram a oportunidade de ler alguns livros sobre o cristianismo, escritos na China por pe. Matteo Ricci, no século XVII e levados à Coréia por alguns membros da embaixada daquele país em Pequim. Pe. Ricci, como vimos, era grande admirador de Confúcio e escreveu seus livros para mostrar a seus leitores confucionistas que a figura e a doutrina de Jesus não anulavam e sim completavam o que disse o filósofo chinês.

A leitura dos livros de pe. Ricci foi uma verdadeira iluminação para os coreanos: ali eles encontraram a resposta a muitos problemas que os atormentavam, ali estava indicado o caminho para superar tantas injustiças da sociedade coreana da época, confucionista também: a igualdade de todos diante de Deus, o reconhecimento da dignidade da mulher, a esperança da ressurreição depois da morte. Em poucas palavras, o cristianismo foi visto, ao mesmo tempo, como uma crítica e uma complementação a tantos problemas que a sociedade coreana, confucionista, conservadora e fundamentalista demais, tinha deixado em suspenso, como a divisão da sociedade em classes ou castas, cujos limites eram insuperáveis.

Foram esses leigos que introduziram o cristianismo na Coréia, aprendido nos livros de pe. Matteo Ricci. Só mais tarde chegaram os missionários.

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