Revista "MUNDO e MISSÃO"

Evangelização - Inculturação

Roças comunitárias

Antonio Carlos Nunes

Como ajudar uma comunidade africana a encontrar dinheiro para todas suas necessidades sem ter que recorrer a ajudas do exterior? É a experiência que pe. Antonio C. Nunes fez e descreve neste artigo

Na África, no Brasil ou na Ásia, a pergunta é sempre a mesma: "onde encontrar dinheiro para pagar as despesas de funcionamento da missão, investir em novas construções ou manter as obras de caridade?". Quase sempre a resposta é: "façamos um projeto e enviemo-lo a um organismo internacional" ou "peçamos a um parente ou amigo para nos ajudar". Para chocar a consciência do doador, ilustra-se o projeto com fotos de famintos e miseráveis.
Essa política da "mão estendida" criou, em nossos povos, o sentimento de que não têm nada, não sabem fazer nada e, portanto, tudo deve vir de fora. Logo, em vez de artífices da própria história, viram objeto da complacência dos mais abastados.
Foi com o objetivo de reconquistar a própria dignidade que, em 1996 (data da celebração do primeiro centenário da evangelização da Costa do Marfim), o arcebispo de Abidjan exortou toda a Igreja do país a conseguir sua própria independência em 3 níveis: de pessoal, econômico e cultural.
Em nível de pessoal (clérigos e religiosos), há um grande progresso no campo vocacional apesar de, na Costa do Marfim, ser difícil fazer o discernimento vocacional. Nota-se especialmente o progresso nas dioceses do sul, que já começam a ajudar as mais carentes do norte e do nordeste. Todos os 14 bispos são marfinianos.
Em nível econômico, ainda somos muito dependentes do exterior, quando se fala em financiar as obras existentes; contudo os marfinianos já aprenderam a fazer coletas especiais no final da missa e a se cotizar, às vezes competindo homens com mulheres.
Em nível cultural, a influência de Roma e da Europa é esmagadora, seja no âmbito religioso como no de usos e costumes. Aqui passa até telenovela brasileira na televisão local.

Uma experiência original

Desde quando eu era ainda um leigo engajado na pastoral de minha paróquia (em Assis- S.P.), já empreendíamos trabalhos em forma de mutirão, para desafiar a pobreza do bairro e autofinanciar os projetos locais. Quando cheguei à África, em 1983, sem conta bancária e sem parentes ricos para me ajudar, logo percebi que essa antiga experiência de Assis poderia ser viável aqui também. Comecei a observar a cultura do povo e cheguei à conclusão de que eles mesmos poderiam ser os financiadores dos próprios projetos e da manutenção da missão.
Dado que a região onde moro é totalmente agrícola (agricultura de subsistência), encorajei-os a cultivar roças comunitárias com o objetivo de conseguir a independência econômica desejada. Todavia, outras comunidades preferem fazer trabalhos de mutirão sob forma de contrato com os lavradores locais. Essa forma de trabalho é menos eficaz, porque nem sempre conseguem o reembolso do preço prefixado. E, quando são lesados, o grupo de trabalho desanima.

Método de trabalho

Em cada comunidade ou aldeia onde há cristãos, existe um grupo de trabalho que, de acordo com o dia da semana escolhido, de preferência o sábado, se reúne para o trabalho em mutirão. Os outros dias da semana são reservados para cada um trabalhar na própria roça, de onde colhe o necessário para sua família.
A parcela de terra a ser cultivada é escolhida em função da distância e da fertilidade da mesma (aqui não existem transgênicos e não há nenhuma dificuldade em conseguir a parcela de terra, porque não há propriedade privada) e os produtos comumente cultivados são o amendoim, o arroz e o milho.
Na época da colheita, estocam a produção, na esperança de comercializá-la a preços mais interessantes: aqui não existe o preço mínimo fixado pelo governo e os lavradores são presa fácil de especuladores e atravessadores. Outra dificuldade que fez fracassar muitos dos grupos de trabalho é a gestão da "caixa-forte". Quando ela está em suas mãos, gastam ou emprestam o dinheiro como se fosse próprio e, na hora do acerto de conta, ninguém assume o prejuízo. Doravante, para resolver essa dificuldade, nós mesmos nos oferecemos para guardar o dinheiro em depósito e quando necessitam, fazem a retirada.

Como gastam?

Falar em projeto para as nossas comunidades aldeãs é exagerar na linguagem; todavia, há as despesas de gestão e, às vezes, a construção ou reformas de capelas. Como gestão ordinária, aplicam o dinheiro na compra do material de liturgia, de catequese e canto e até mesmo para a recepção do padre, quando faz as desobrigas.
Quando se deve construir uma capela, então se procede por etapas:
eles mesmos fabricam os tijolos com barro cru;
eles mesmos recolhem as pedras para o alicerce;
a mão-de-obra é dada em mutirão;
com o dinheiro da caixa compra-se o cimento e as folhas de zinco para o telhado (na nossa região de floresta não existe palha para a cobertura).
Com esse método de trabalho, é possível construir uma capela de 70 m2, em 3 anos de trabalho, com um custo de mais ou menos R$ 2 mil.
Sempre conscientizamos as comunidades para que sejam autônomas e não aceitem favores ou dons de gente abastada ou de políticos. Assim, quando a obra ficar pronta, não será propriedade de uma pessoa, mas o fruto do trabalho de todos.

Experiência que atraiu outros seguidores

Essa maneira nova de trabalhar e de se autofinanciar inspirou pessoas de outras religiões (animistas, muçulmanos e protestantes) e de várias associações (de jovens, de desenvolvimento, de mulheres, etc.) a se organizarem para um trabalho em conjunto. Outrora, a solução mais fácil para os problemas financeiros era de "estender a mão" para pedir dinheiro aos outros ou fazer uma cotização entre os membros dessa associação.
Uma outra iniciativa que surgiu a partir desse trabalho em conjunto (roças comunitárias) e que está dando bons resultados entre os lavradores é o mutirão feito em pequenos grupos de amigos. Isto é, 4 ou 5 amigos se reúnem para trabalharem um dia por semana na roça de cada um; assim, no sistema de rodízio, todos se beneficiam do trabalho comum. Na verdade, uma pessoa que deve trabalhar sozinha na sua roça de manhã até a tarde exposta ao sol, chuva ou outras intempéries, logo desanima. Enquanto o trabalho em mutirão encoraja o grupo, aumenta o rendimento e fortifica os laços de amizade. E quando o grupo de amigos é formado por cristãos, eles dão testemunho do amor de Cristo que os une.

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