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FALAR e AGIR sem medo
Sérgio Bradanini
O texto de Mt 10,26-33 está todo articulado em torno de um repetido
convite à coragem (10, 26, 28,31) a fim de que nenhum medo paralise
a atividade missionária. Além do destemor necessário
para enfrentar todo tipo de perseguição, o discípulo
deve ter: coragem de anunciar claramente a mensagem do reino (vv. 26-27);
coragem de correr todos os riscos inerentes à missão (v.28),
e coragem de confiar na presença solícita do Pai. Tudo isso
é necessário para que o missionário nunca tenha,
diante dos homens, vergonha de ser discípulo de Jesus! (vv.32-33).
O evangelista não indica somente as modalidades de coragem necessárias,
mas aponta também as motivações que devem sustentar
tal atitude: em primeiro lugar, a certeza de ser instrumento da revelação
de Deus; em segundo, a certeza de que os homens, em seu poder absolutizado,
podem eliminar a vida das testemunhas, mas não podem eliminar a
Vida como tal, nem o Autor dela!
O texto termina na perspectiva de 'juízo final': o discípulo,
que corajosamente testemunhar Cristo diante dos homens, terá o
próprio Jesus como testemunha diante de Deus Pai.
A partir desta apresentação sumária do texto de Mateus,
podemos notar que Jesus quer, antes de tudo, que seus discípulos
sejam homens livres! De fato, na qualidade de "ovelhas entre lobos"
(10,16) e sofrendo todo tipo de ameaça "por causa do (seu)
nome" (10,22), eles correm o sério risco de paralisarem o
anúncio do Evangelho por causa do medo! Se os perseguidores são
uma ameaça externa, o medo é uma ameaça ainda pior
porque vem de dentro! Basta lembrar o episódio da negação
de Pedro (Mt 26,30-35; 69-75) para se dar conta de que o medo não
só pode paralisar o anúncio, mas pode levar a fazer o contrário
daquilo que se quer: como Pedro, qualquer discípulo com medo, ao
invés de anunciar o Evangelho, pode chegar a negá-lo! Para
superar esta situação, Jesus convida seus missionários
a confiarem na presença divina em sua pregação. Em
segundo lugar, Mateus sugere que a pregação cristã
não dispense a dimensão profética: quem ouviu (experiência
pessoal do discípulo com Jesus) nunca mais poderá ficar
calado (missão pública destinada a todos). Toda a história
bíblica mostra, de fato, que os poderosos podem sufocar a voz dos
mensageiros, mas nunca conseguem sufocar a mensagem. Neste sentido, a
pregação cristã descobre que só a coragem
e a confiança na solícita presença do Pai pode vencer
o medo que se aninha dentro do discípulo, causando efeitos devastadores.
Aliás, essa atitude de coragem e liberdade faz superar o terror
que pode suscitar a perspectiva de uma possível morte violenta.
Se Jesus exige que suas testemunhas sejam pessoas corajosas e livres diante
dos homens, é porque ele mesmo realizou tudo isso, enfrentando
a Paixão e a Morte! Por esta razão é necessária
uma confiança profunda na providência do Pai, que, se em
sua imensa bondade, toma conta até das coisas mais banais, como
'contar os cabelos da cabeça', tanto mais levará em conta
a vida dos discípulos de seu Filho.
De outro lado, porém, todo discípulo deve estar consciente
da necessidade do testemunho livre e aberto, diante do tribunal da história
dos homens. Ele não deve manifestar nenhum medo e nenhuma vergonha
de pertencer totalmente ao Mestre. Trata-se de uma pertença estabelecida
numa profunda dimensão de reciprocidade: diante do supremo tribunal
divino, o próprio Jesus mostra que a comunhão de vida estabelecida
na terra não será rompida na vida eterna. Quem arrisca,
portanto, sua vida por causa do Evangelho, na história dos homens,
terá a porta aberta para entrar definitivamente na história
de Deus.
Mt 10, 26-33
26Não os temais, pois, porque nada há de escondido que
não venha à luz, nada de secreto que não se venha
a saber.
27O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que
vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados.
28Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar
a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena.
29Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum
cai por terra sem a vontade de vosso Pai.
30Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados.
31Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós.
32Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também
eu darei testemunho dêle diante de meu Pai que está nos céus.
33Aquêle, porém, que me negar diante dos homens, também
eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.
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