Revista "MUNDO e MISSÃO"

Fome

16 milhões com sede

Hélio Pedroso

Além das guerras étnicas, a África corre outro grande risco: a disputa pela água para assegurar o suficiente para o povo e seus animais. Uma catástrofe que pode agravar ainda mais os sofrimentos do povo africano

São milhares de quilômetros - numa extensão que vai da região dos Grande Lagos ao Mar Vermelho - que compõem a faixa da seca. Essa seca foi provocada pela escassez e pelo atraso das grandes chuvas características da região central da África, mas também pelas inúmeras guerras que fizeram milhares de pessoas abandonar os campo, fugindo dos exércitos beligerantes. Nessa faixa de terra, existem cerca de 16 milhões de pessoas (a estimativa é difícil, por causa dos conflitos que já duram dezenas de anos), entre homens, mulheres e crianças, ameaçados pela fome porque não houve colheitas e os rebanhos começam a definhar.
A ONU calcula que seriam necessários, dentro de poucos meses, 300 milhões de dólares para amenizar a situação, mas esse dinheiro não existe. Na tentativa de fazer alguma coisa, o Projeto Alimentar Mundial - PAM -, está limitando a ajuda a outros países e destinando-a a essas localidades onde a guerra, a seca e o abandono dos campos estão colocando tudo a perder.

Os países na faixa de risco

Burundi é um país com sete anos de guerra civil, em busca de uma paz difícil (ver nº 46 de Mundo e Missão). Além dessa guerra, nos arredores da capital Bujumbura, embora os números não sejam confirmados pelo governo tutsi, há mais de 400 mil pessoas vivendo nos campos de refugiados e que, dificilmente, recebem comida diária suficiente para sobreviver.
No sul do país, antigamente próspero pelos pastos e cultivo de café, também são evidentes os efeitos da seca e a escassez de alimentos já chegou ao nível mais baixo. Juntando o número dos refugiados nos campos, mais 550 mil da província de Kirundo e outros habitantes espalhados pelas diversas províncias, seria quase um milhão e meio de pessoas correndo risco de vida.
Na Tanzânia, as colheitas foram gravemente comprometidas pelo atraso das chuvas e o PAM já está assistindo 50 mil pessoas, mas, nos próximos meses, este número deve crescer assustadoramente. Meio milhão dos "prófugos da água" estariam entre Ruanda e Uganda. Mais grave é a situação do Quênia onde o fenômeno de desertificação aumenta a cada ano: em 1965, 260 mil pessoas viviam em zonas de seca; agora, são 3,3 milhões, dentre os quais, um milhão de crianças. Isso começa a provocar conflitos entre as tribos que vivem do pastoreio de cabras e bois e precisam de água para os animais e as tribos residentes nesses lugares, que defendem seu território com unhas e dentes contras esses invasores.
A falta de chuva e o esvaziamento dos lagos artificiais já obriga ao racionamento de eletricidade, há mais de dez meses. No Sudão, devido à guerra do sul contra o norte e no chamado Chifre da África (Eritréia, Somália e Etiópia), a situação é caótica pelos deslocamentos de massas humanas para fugir das guerras e da escravidão, pelo abandono dos campos e pela escassez de chuvas. Numericamente, o caso mais grave é o da Etiópia, país de clima semi-árido e montanhoso, onde a subnutrição atinge 10 milhões de moradores, conferindo-lhe o ante-penúltimo lugar na escala mundial da pobreza. Mais de 50 mil pessoas vivem no árido território da Eritréia e, na Somália.
Diante de tantos problemas, a ONU declara-se impotente e pede ajuda aos países ricos. Estes, porém, estão cada vez mais reticentes em dar dinheiro à África, após os contínuos fracasso das ajudas anteriormente enviadas.

O futuro trágico

Dentro de alguns anos, um entre dois africanos terá a sua porção de água necessária para sobreviver reduzida pela metade ou até menos. Hoje, calcula-se que uma pessoa necessita de mil metros cúbicos de água, ao ano, para sobreviver, todavia, as previsões afirmam que vários países do mundo deverão sobreviver com muito menos. Há controvérsias, mas tudo indica que mais de 12 países africanos terão que enfrentar o problema da falta de água para suas populações, talvez até através de conflitos, em particular, onde existem as grandes reservas de água, como as regiões dos grandes lagos e dos grandes rios. Exemplo disso é o rio Nilo, sobre o qual a Etiópia reclama justos direitos de reservas, visto que em seu território nasce o Nilo Azul, responsável pelo fornecimento de 85% das águas de todo o rio. Essas reivindicações contrariam os interesses do Sudão e do Egito, pelos quais passa o rio, que não estão dispostos a ceder. Outro conflito está se criando entre Angola, Namíbia e Botsuana que dependem do rio Cuito para a agricultura. Sendo pobres, e precisando centenas de toneladas de água ao longo do ano, esses países não se podem dar ao luxo de importar grãos e muito menos água.

Jean Fabre é o vice-diretor do escritório do Progra-ma pelo Desenvolvimento das Nações Unidas e alerta que serão inevitáveis as guerras para a conquista da água, caso não se procure, desde agora, uma resolução para o problema. Ele denuncia que as áreas de maior riscos são os rios Nilo, o Jordão entre Síria e Israel, e os rios entre Bangladesh, Índia e Nepal.
O problema é que as reservas hídricas já diminuíram 75%, especialmente nas faixas semi-áridas e a água não serve somente para uso doméstico, que consome somente 8%, mas muito mais para irrigação (59%) e para a indústria (33%).
Se os problemas da África estão se agravando pelas guerras civis, pelo abandono dos campos e pela falta de aplicações de recursos para melhoramento da conservação do solo, outro fator negativo é a substancial diminuição da ajuda estrangeira. Antes, os países ricos davam 0.7 do PIL, para o fundo dos países pobres; hoje, somente Suécia, Noruega, Dinamarca e Holanda continuam contribuindo com a mesma soma. Outros países cortaram drasticamente as ajudas e os Estados Unidos ajudam com 0,08 do seu PIL. Todavia, está claro que o problema da água seria resolvido, se a pobreza fosse solucionada.

Pessoas assistidas pelo PAM (ONU) e outros organismos internacionais, sofrendo as

CONSEQÜÊNCIAS DA FALTA DE ÁGUA

· Etiópia 10.000.000
· Quênia 3.300.000
· Burundi 1.400.000
· Somália 750.000
· Eritréia 337.000
· Uganda 276.000
· Ruanda 220.000
· Djibuti 150.000
· Tanzânia 50.000
· Sudão 35.000

TOTAL 16.523.000

Fonte: PAM (dados do dia 15 julho 2000)

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