Revista "MUNDO e MISSÃO"
Globalização
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O ideal da fraternidade universal compõe certamente um quadro romântico e, de alguma forma, apaziguador da realidade mundial. Hoje, a evidência da globalização inspira confiança na busca e na retomada da dimensão universal da missão por parte das Igrejas cristãs. Elas querem entrar em diálogo com todas as pessoas de boa vontade para construir um mundo mais justo e solidário. E sabem que este é o momento. A necessidade de paz e a exigência de cuidado com o planeta fazem com que se procure sempre mais pontos de convergência, de encontro e de intercâmbio entre as sabedorias dos povos e os diferentes projetos de vida em nível macroecumênico. Entretanto, o olhar dos pobres e dos oprimidos continua desconfiado. Eles sabem que, por trás de tanto sentimento de irmandade, esconde-se, muitas vezes, a voracidade da lei do mais forte. Já experimentaram que não há verdadeiro encontro entre as culturas, mas sempre um confronto desigual, cinicamente mascarado por uma disposição solidarística que nada tem de gratuito e que está permanentemente a serviço dos interesses dos mais poderosos. Suas histórias sofridas e injustiçadas são o testemunho mais contundente de que todo processo globalizador e universalista é, na realidade, uma marcha triunfal e arrasadora, imbuída de uma ideologia apologética e autocomplacente que faz do outro um objeto de sua comiseração ou um abjeto de sua repulsa: não há reconhecimento da alteridade como sujeito, mas somente extensão da própria identidade, de maneira unívoca e integradora. É VERDADEIRAMENTE POSSÍVEL O DIÁLOGO? Nasce assim um instinto de resistência em povos e grupos humanos que sentem ameaçadas sua integridade e sua identidade por uma avalanche "civilizatória". A exacerbação dessa reação, muitas vezes diretamente proporcional a uma real ameaça agressora, transforma-se em fechamento, endogamia, isolamento, narcisismo, autismo. A irredutível desconfiança dos oprimidos e, sobretudo, o inegável peso histórico de suas argumentações, tem sua razão de ser. Globalização, universalismo e missão são palavras demasiadamente carregadas de significados negativos e opressivos para a maioria dos povos do mundo.
Por outro lado, acreditamos que a cristalização de resistências, a afirmação obstinada de identidades, a rejeição de uma perspectiva universalista e a indiferença diante da convocação para uma solidariedade mundial, também não levam a lugar nenhum. A dinâmica da relação sempre foi algo complexo e muito pouco linear em todo comportamento humano. Mesmo argumentando em favor da necessidade de um diálogo com todos, de um amadurecimento de uma consciência planetária e de um compromisso com a mundialidade, as reações são sempre ambivalentes entre avanços e recuos, abertura e fechamento, fascinação e medo, atração e repulsa, engajamento e desistência, ousadia e prudência. E voltamos inexoravelmente sempre ao mesmo nó da questão: será que é verdadeiramente possível um diálogo aberto entre as várias culturas? Será que é realmente oportuna e viável uma universalidade multicultural? Será que tem sentido apostar num espaço comum de coexistência fraterna que pode substituir uma pseudo-universalidade imposta pela violência e perpetuada pela negação do outro? A resposta é, sem dúvida, que sim e que vale a pena perseguir teimosamente esse caminho. Entretanto, precisamos constantemente de sujeitos e de relações, de reconhecimentos identidários e de movimentos de relativização, de competitividade e de complementaridade. O enrijecimento dessa alternância, em prejuízo da relação entre os agentes, gera fundamentalismos. Ao contrário, a relativização de perspectivas particulares leva a uma participação sempre mais envolvente num amplo processo de socialização. A DANÇA DA ALTERIDADE A imagem da dança, talvez, seja a que melhor visualize a gratuidade e o compromisso dessa tensão. Os parceiros interagem entre si num movimento de múltiplas relações com o ritmo, a música, o movimento dos corpos, a sincronia dos passos e a coreografia do conjunto. A aprendizagem procede por erros e acertos, por encontros e desencontros, por um envolvimento recíproco de intercâmbio e simetria. O resultado é uma nova criação na qual os sujeitos se definem e se reconhecem pela própria inter-relação. Não temos receitas teóricas para um encontro multicultural, nem para a construção da grande família humana. Apenas intuímos a importância de caminhos e de práticas concretas que apontam para a proximidade ao outro, para a gratuidade da relação e para o horizonte universal como âmbito não excludente de um compromisso sempre mais urgente e necessário. É de fundamental importância estimular e envolver-se em processos de abertura e experiências de parcerias que geram identidades renovadas, capazes de criar uma verdadeira sociedade mundial. Concretamente, a partir do contexto da Igreja latino-americana, o desafio da globalização, a proposta evangélica da universalidade e as perspectivas missionárias lançadas pelo Vaticano II assumem compromissos vinculantes com as causas populares, numa dança que tende a enfatizar uma universalidade a partir das vítimas da mesma globalização. A assimetria nos relacionamentos, tanto entre as camadas sociais, como entre os hemisférios políticos do planeta, é uma denúncia constante que vem de todas as Igrejas do sul do mundo e que é colocada como elemento purificador para uma verdadeira consciência e ação universais. De maneira decidida e profética, as Conferências do episcopado latino-americano de Medellín e Puebla retomaram a mensagem missionária do Vaticano II, contribuindo com aportes fundamentais para uma missão da Igreja autenticamente mundial. Ênfase particular obteve o desenvolvimento do tema da "Igreja dos pobres": a opção pelos pobres, as comunidades eclesiais de base, o papel de uma missão profética e libertadora diante das injustiças contra os povos oprimidos. Elementos como esses contribuíram para traçar um perfil identidário de uma Igreja que chamou a atenção do mundo inteiro. No âmbito da dimensão universal da missão, lançaram-se perspectivas convincentes de uma missão de pobre para pobre: nossas Igrejas têm algo de importante para oferecer, precisam projetar-se para além de suas próprias fronteiras, estão dispostas a dar de sua pobreza e não apenas receber dos outros. |
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