Revista "MUNDO e MISSÃO"

Globalização

AMEAÇAS SOBRE O NOSSO FUTURO

Ernesto Arosio

No discurso inaugural do ano 2001 aos diplomatas acreditados no Vaticano, o papa apresentou uma preocupante imagem de futuro da humanidade. O século passado foi um ano de grandes conquistas cientificas mas também de muitas mortes.

"Salvemos o homem. Salvemo-lo todos juntos!" è o amargurado grito do papa para despertar a humanidade diante dos grandes desequilíbrios do mundo moderno. Embora as guerras são os fatos mais marcantes e tragicamente percebíveis nas suas seqüelas, o papa denuncia outras graves ofensas à vida humana, ao indivíduo e a meio ambiente que o preocupam e deveriam preocupar as autoridades mundiais.

Nesse discurso, o papa usou um linguajar menos diplomático e mais direto para elogiar, sim, os avanços que aconteceram nessas últimas décadas mas também para denunciar os retrocessos e as ameaças que rondam a humanidade. O discurso foi um apelo mas também uma admoestação e uma alerta.
Apelo, porque no discurso emergem as prioridade que o papa aponta aos governos e autoridades mundiais para que "a ciência esteja ao serviço da pessoas" e não o contrário; admoestação porque lembra, que este século "passará à história como o século que conheceu as maiores conquistas da ciência e técnica, mas também como o século em que a vida humana foi desprezada na maneira mais brutal". E no elenco citado pelo pontífice, não estão somente as guerras, semeadoras de mortes e tragédias, os totalitarismos mas também as leis que legalizaram o aborto e a eutanásia, "os modelos culturais que espalharam a ideologia do consumismo e do prazer a qualquer custo".

No discurso o papa compara também os genocídios do XX século aos que acontecem nas outras esferas da humanidade, mais ligados à pessoa individual e por isso mais tolerados mas não menos graves, como os abortos, a escravidão das pessoas, as violações dos direitos humanos. "O homem não seja um objeto para secionar, comprar ou vender. As leis não sejam condicionadas pelo mercantilismo ou pela reivindicações egoístas de grupo minoritários" e deve-se recusar qualquer descoberta cientifica que, movida pelo orgulho, ganância, dominação e de poder, possa se tornar meio para dominar a natureza e a história.do homem.

Elogios e alerta

Embora tenha elogiado os esforços para conseguir melhorar a vida humana, como o superamento de diferências sociais, a melhoria da vida humana em vários paises, os esforços dos organismos e das pessoas que trabalham em prol da humanidade, os fim dos confrontos armados entre paises como as da Coréia, Etiópia e Eritréia , o papa elenca também uma longa série de "sombras" que ameaçam a humanidade como as guerras na África, nas Europa Oriental, as guerrilhas na América Latina, a pobreza endêmica de muitos povos, a falta da liberdade religiosa, a fome recorrente, o terrorismo e todas as violações contra a pessoas e grupos étnicos.
Convida portanto a humanidade toda para "salvar o homem porque todo homem é nosso irmão...formar uma grande família... se esforçar para fazer que reine a ordem, a justiça, a paz entre os povos".
Lembrando ainda que a Onu declarou o 2001 como o "Ano Internacional do diálogo entre as civilizações", convida a todos para "construir uma civilização do amor.. . apoiada sobre a consciência que existem valores comuns nas culturas porque arraigados na natureza humana".

Convite para os cristãos

O papa faz um veemente apelo a todos os crentes e a todos os paises que tenham raízes cristãs para o dever de afirmar publicamente "que nenhuma autoridade, nenhum programa político, nenhuma ideologia, tem autoridade de reduzir o homem à somente o que sabe fazer ou produzir. Os cristãos tem o dever imperativo de lembrar a todos e em todas as circunstâncias, o mistério inalienável de cada ser humano criado a imagem de Deus e capaz de amar à maneira de Cristo".

O massacre dos indefesos
Um olhar muito rápido sobre um mapa mundial demonstra a gravidade dos tempos modernos
Os três/quintos do mundo vivem guerras de todo tipo com enormes tragédias, e isso acontece no silêncio egoísta do resto do planeta, os 2/5 que tem melhores condições de vida.
Se analisarmos os conflitos do século passado, o 1900, aparece um paradoxo nas estatísticas compiladas pelo Unicef. Na primeira guerra mundial (1914-18), 80% das vítimas eram soldados ou pessoas envolvidas diretamente nas frentes de combates. Na segunda guerra mundial (1939-45), a porcentagem dos militares mortos em guerra cai para 50 %, o resto foram cidadões, civis inermes ,vítimas de bombardeios aéreos das cidades, nos campos de extermínio dos paises como Alemanha, Rússia que eliminavam civis e presos de guerras contra toda e qualquer normas de direito internacional.
Hoje, nas guerras e guerrilhas desde as da ex-Jugoslávia, Vietnã, África, Indonésia, Filipinas e outras em curso em outros continentes, (ver mapa) os civis já assomam a 80 % dos mortos, ou seja as guerras se tornaram verdadeiros massacres de pessoas inermes Esses são os resultados a que chegou a humanidade coadjuvada pela técnica de destruição que ela mesmo criou.

Tudo isso é causa de pessimismo por todos os que se interessam do futuro da humanidade e gritam um alerta. O filosofo André Glucksmann sintetiza a realidade presente e a incerteza futura, numa só frase: O mundo está a beira do precipício..., as consciências se mobilizem... porque o maior crime de hoje é a indiferença.

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