Revista "MUNDO e MISSÃO"

Globalização

CIDADANIA GLOBAL!

Marcos Peixoto Mello Gonçalves

Está nascendo uma
nova consciência coletiva,
fortemente exigente
contra as injustiças sociais

O direito nasce da consciência da- quilo que é injusto, como reivin-dicação de justiça feita perante a autoridade social.

Seattle

Atualmente, é possível constatar, a partir das manifestações começadas em Seattle, nos EUA (1999), por ocasião da Conferência da Organização Mundial do Comércio, a emergência de um direito novo. Desde aí, passando pelas manifestações de abril de 2000 em Washington e de setembro do mesmo ano em Praga, verifica-se que vem ampliando-se vertiginosamente a consciência da injustiça relativa aos efeitos da globalização das finanças, dos protecionismos comerciais praticados pelos países que alardeiam o livre comércio, pelos descasos em relação ao meio ambiente.

A Internet, fruto da revolução da informática e das comunicações, está possibilitando uma tomada de consciência dessas injustiças, em nível global; ela se alarga e se aprofunda, ao mesmo tempo em que a Internet permite a mobilização e a organização dos cidadãos do mundo, freqüentemente reunidos em torno das ONGs, muitas delas já transnacionais, contrapontos da cidadania global em face das empresas transnacionais e dos organismos internacionais.

Há, entretanto, aqueles que não percebem o fenômeno da tomada de consciência das injustiças relativas aos efeitos das diversas globalizações: comercial, financeira, cultural, da língua inglesa, do dólar. E, pior ainda, não percebem que está em curso uma globalização da própria consciência daquilo que é injusto. Observa-se, todavia, a formação de uma consciência coletiva que a passos largos também vai globalizando-se, universalizando-se, transformando-se em reivindicação de justiça global.

Oposição

Porém, existem os que percebem a tomada de consciência daquilo que é injusto por parte dos cidadãos do mundo como uma ameaça às suas posições. Procuram, então, desqualificar a consciência do injusto através da linguagem, mediante o poder de violência simbólica que ela encerra.

Percebe-se, nesta linha, parte da mídia tratar os que protestam contra as in-justiças sentidas como efeitos da globalização econômica, como se fossem marginais, idiotas, vagabundos e atrasados. Lembro-me bem, por exemplo, de uma manchete de jornal que desqualificava os manifestantes de Praga, em setembro do ano passado, como sendo os "antitudo". Ora, como sabemos, quem é antitudo não é antinada, e, provavelmente, é incapaz de perceber o que lhe é de vido e, no entanto, lhe é negado. É atra-vés da simbologia da linguagem que a violência dos que temem a emergência de um direito novo vai se expressando.

Também é importante perceber que os manifestantes da cidadania global estão legitimando as autoridades econômicas, financeiras e comerciais internacionais, os representantes dos organismos mundiais (FMI, BIRD e OMC), como autoridades sociais e políticas mundiais. De fato, antes das manifestações de rua de Seattle, esses organismos internacionais criados através de entendimentos realizados pelos Estados nacionais estavam circunscritos à política dos Estados, aos seus políticos e aos seus técnicos. Entretanto, depois das manifestações de rua, os representantes legais desses organismos foram forçados a incluir em seus discursos referências ao conteúdo das principais reivindicações: proteção ao meio ambiente, ataque à pobreza e aos protecionismos comerciais dos países ricos. Em algumas conferências internacionais, abriu-se espaço à participação, inclusive, de representantes das ONGs mais fortes. É, de um lado, a cidadania mundial se construindo e, de outro, modelando a criação de um Estado Mundial.

Porto Alegre

Nesse sentido, o Fórum Social Mundial ocorrido na cidade de Porto Alegre, sul do Brasil, em janeiro último, como desaguadouro de todas as ondas que se formaram desde 1999 em Seattle em torno das reivindicações de justiça global frente à globalização econômica, representa um salto de qualidade na construção de uma sociedade civil global. O evento foi simultâneo ao Fórum Mundial de Desenvolvimento ocorrido na aprazível cidade suíça de Davos, e que é a reunião anual de todos os poderosos da globalização, daqueles que de fato mandam, controlando e gerenciando os meios de produção das mercadorias e dos serviços, bem como transacionando com os meios de pagamento das coisas, as moedas dos diversos países.

É bom anotar, conforme relatou a mídia, que os representantes dos dois lados do mundo, do Fórum Econômico de Davos, dos ricos, ao norte do planeta e do Fórum Social de Porto Alegre, dos pobres, ao sul do planeta, debateram em tempo real, através de videoconferência: a Internet está engendrando novas relações sociais de poder.

Davos, enquanto reunião das empresas transnacionais e Porto Alegre, enquanto sociedade civil global em formação têm, apesar de posições contraditórios, um ponto em comum e que passa ao largo dos interesses dos chefes dos Estados nacionais. É que as empresas transnacionais estão para os chefes dos Estados nacionais, assim como os burgueses estavam para os senhores feudais antes da Revolução Francesa de 1789. Aqueles burgueses queriam acabar com os entraves que os senhores feudais impunham ao comércio das suas mercadorias, assim como as empresas transnacionais de hoje querem acabar com os entraves que os chefes dos Estados nacionais impõem ao comércio delas. Uma nova sociedade civil global que se forma em torno da reivindicação de justiça não contraria de todo os interesses das empresas transnacionais. Ao contrário, por ignorarem os chefes dos Estados nacionais e dirigir-se diretamente aos poderes globais, ambas ajudam a enfraquecer a tese dos Estados nacionais soberanos, cujos chefes, para as empresas transnacionais, não passam de novos senhores feudais a dificultar o livre comércio.

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