Revista "MUNDO e MISSÃO"

Globalização

AMÉRICA: JUSTIÇA E PAZ

O motivo todo mundo já conhece: o de cima sobe e o de baixo desce", diz uma música baiana. Esta é a exata parábola do continente americano. Basta pegar qualquer indicador social para se ter uma idéia: as condições de vida de uma pessoa de classe média que vive nos Estados Unidos são 76 vezes superiores às de uma pessoa da mesma classe social que vive e trabalha no Haiti. Um abismo, quando isso se traduz em comida, remédios, es-cola, moradia e transporte.
Este é o continente americano: terra prometida e paraíso das liberdades in-dividuais para alguns, e pesadelo e terra de escravidão para outros. Há mo-mentos em que a diferença é entre a vida e a morte.
Não há paz para as Américas sem justiça. Um modelo de sociedade deve ser revertido: o de um capitalismo selvagem que gerou profundas desigualdades.
A Igreja atua há algumas décadas nesta direção com seus bispos, como Dom Samuel Ruiz, e seus missionários e missionárias, como as leigas Mara, Cristina e Mônica que militam nas frentes ameríndias para um mundo melhor.

- PAÍSES: 35

- SUPERFÍCIE: 42.560.270 km2

- POPULAÇÃO: 809.100.000 habitantes

- POPULAÇÃO URBANA: 70%

- LÍNGUAS: inglês, francês, espanhol, português e línguas nativas (quíchua, aimará, guarani, caingangue, etc.)

- RELIGIÕES:

  • cristãos: 734.100.000 (90,7%)
    • católicos: 479.700.000 (59,3%)
    • protestantes: 212.400.000 (26,2%)
    • ortodoxos: 7.200.000 (0,8%)
    • outros: 35.034.000 (4,3%)
  • muçulmanos: 8.890.000 (0,9%)
  • outros: 66.912.000 (8,2%)

- EXPECTATIVA DE VIDA: 79 anos no Canadá e 50 anos no Haiti

- MORTALIDADE INFANTIL: 26 de cada mil nascidos vivos

- ANALFABETISMO: não é mais calculado no Canadá e nos Estados Unidos e é de 54% no Haiti

- PRODUTO INTERNO BRUTO: 10.432.370 milhões de dólares

- RENDA PER CAPITA: 13.240 dólares (29.080 nos Estados Unidos e 380 no Haiti. No Brasil, 4.802).

Epulões e Lázaros

Joel M. dos Santos

A parábola evangélica do homem rico, que vive dando festas e banquetes e deixa o pobre Lázaro se satisfazer com as migalhas, ilustra bem a realidade do continente americano, sem dúvida a terra das desigualdades.

Majoritariamente são os pobres que morrem, são os pobres que ficam soterrados, são os pobres que têm que correr carregando os poucos pertences que lhes restaram, são os pobres que dormem ao relento, que se angustiam pensando no futuro e encontram imensos obstáculos para ter suas coisas de volta." A constatação é do teólogo salvadorenho Jon Sobrino, depois do terremoto que se abateu sobre seu povo no começo deste ano. Oficialmente, foram 827 mortos, 4700 feridos, mais de 1 milhão os que tiveram danos materiais, 275 mil as casas destruídas. Os que foram poupados sabem que basta um tremor parecido para que sejam eles as próximas vítimas.
Em El Salvador, até as obras de reconstrução vão devagar: faltam recursos e há muito medo. O próprio governo está de olho na próxima temporada de chuvas que pode pôr a perder todo o trabalho de reconstrução realizado nestes meses. El Salvador é assim: não possui estruturas para enfrentar a fúria da natureza. Nos Estados Unidos o sistema de monitoramento da natureza, de comunicação e a capacidade de intervir em casos de desastres tornam as tragédias mais assimiláveis por parte da sociedade. Por isso, Sobrino conclui amargamente: "Os terremotos, como os cemitérios, revelam a iníqua desigualdade de uma sociedade. As tragédias têm causas naturais, mas diferente impacto sobre a população, e isto não se deve à natureza. A causa é outra: é devido àquilo que os seres humanos fazem uns com os outros, uns aos outros". E sentencia: "a tragédia é, em boa parte, obra de nossas mãos".

Desigualdade - Hoje, uma pessoa que nasce no Canadá tem a perspectiva de viver 30 anos a mais que um menino haitiano. "Um cidadão dos Estados Unidos equivale a cinqüenta haitianos", exemplifica Mário Benedetti, especialista no assunto.
Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), das Nações Unidas, na América Latina, 224 milhões de pessoas vivem na pobreza. Deveríamos acrescentar os milhões de outros pobres também excluídos das opulentas sociedades norte-americanas, mas, na América Latina, os pobres são 45% da população total. Destes, 53% têm menos de 20 anos de idade. Antônio Ocampo, secretário executivo do CEPAL, diz que "em termos absolutos, o número de latino-americanos e caribenhos em situação de pobreza nunca esteve tão alto quanto hoje". Por quê? Destino adverso, incapacidade, falta de vontade?
Michel Camdessus, ex-presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), que durante 13 anos articulou, junto com o Banco Mundial (BM), os programas de ajustes estruturais da maioria dos países em desenvolvimento, admitiu que não deu certo a tentativa de reduzir os contrastes entre ricos e pobres que se buscou pelo caminho do neoliberalismo. "A América Latina tem, lamentavelmente, o recorde mundial e pouco invejável da desigualdade", sublinhou durante uma palestra em julho do ano passado. Não disse de onde vem a desigualdade, mas reconheceu o fracasso da solução que ele propôs em nome da instituição que presidia. "A globalização costuma ir acompanhada de uma crescente desigualdade na distribuição da riqueza e até agora temos praticamente falhado na correção destas crescentes desigualdades." Foi pelo menos um póstumo reconhecimento do fracasso daquela que sempre foi apresentada como solução de todos os problemas. A receita neoliberal não só não diminuiu a distância entre ricos e pobres, como a aumentou. Beneficiou os investidores e virou remédio amargo que os pobres tiveram que engolir sem reclamar.

Servilismo - "Muitas pessoas de classe média foram levadas à pobreza e muitas famílias pobres se tornaram ainda mais pobres", reconheceu também o jornal norte-americano Washington Post, indicando a necessidade de se corrigir rumos e inverter prioridades da economia mundial. É possível? O ex-presidente do Banco Mundial, Robert McNamara, em entrevista concedida na Índia em 1997, disse que sim: "Basta querer". Não deixou dúvidas de que é essa vontade política que falta aos donos do dinheiro e do poder. Também não explicou se para os devedores existe a possibilidade de "querer".
Eduardo Garcia, da Central Latino-Americana de Trabalhadores (CLAT), informa que "em 1975 a dívida global nesta região era de 69 bilhões de dólares, uma quantia que agora está em torno de 800 bilhões de dólares". Quem deve tanto assim pode "querer"? Dificilmente pode.

Reações - A submissão dos governos aos grandes interesses econômicos mundiais é criticada por inúmeros movimentos alternativos. No continente, há um fervilhar de grupos e ONGs, de diferentes matizes, que atuam na contramão dos governos. Aos grupos de solidariedade e voluntariado da América do Norte, podem ser associados os de protesto ou reivindicação da América Central e da América do Sul: o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) no Brasil; o movimento indígena equatoriano, que derrubou o governo do presidente Jamil Mahuad em janeiro de 2000 e colocou de joelhos, um ano mais tarde, o governo do presidente Gustavo Noboa; as organizações da sociedade civil peruana, que com criativas e maciças mobilizações contribuíram para a queda do presidente Alberto Fujimori; as manifestações na Bolívia, reivindicando terra e contra a privatização do sistema de distribuição da água potável; as greves nacionais dos sindicatos argentinos; os movimentos revolucionários do México e do Peru, as FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a organização dos índios mapuches no Chile. Para a CIA, o Serviço de Inteligência dos Estados Unidos, que em outras épocas foi decisiva na repressão dos ensaios democráticos e na instalação das ditaduras de triste memória, os movimentos sociais são um problema. Man-têm hoje o mesmo poder desestabilizador que os grupos revolucionários tiveram nas décadas de 60 e 70. A CIA alerta para a "ameaça indígena", um verdadeiro perigo para a "ordem democrática".

Justiça - A Igreja católica fez história na história recente do continente. Destacou-se na luta por justiça e liberdade, foi decisiva na crítica e no combate às ditaduras, formou pessoas e grupos que atuaram na busca de projetos alternativos da sociedade. Produziu até um novo pensamento teológico - a Teologia da Libertação - que ajudou a entender a relação estreita entre fé e vida, fidelidade ao Evangelho e compromisso de transformação da sociedade. Hoje, muitos dizem que houve uma guinada dessa Igreja lutadora para preocupações internas e, principalmente, para a disputa do rebanho religioso com os novos grupos protestantes, especialmente evangélicos. Seja como for, não terminou o engajamento dos cristãos no social e no político. Aliás, o que antes estava mais restrito ao campo católico, expandiu-se para outros ambientes religiosos. "Não é um fato generalizado, mas cada vez tem um número maior de pastores e fiéis de Igrejas evangélicas que se dão conta de que a fé evangélica também indica que existe uma responsabilidade cidadã muito concreta", avalia Darío López, presidente do Conselho Nacional Evangélico do Peru e pastor da Assembléia de Deus daquele país. No Peru, ele acrescenta, as Igrejas evangélicas se envolveram em ações cívicas através de movimentos de direitos humanos, ao longo de toda a década de 80 e parte da década de 90, e, nesse período, em torno de 600 pastores evangélicos foram assassinados. Não é que agora mudaram de rumo. Mudaram os campos de atuação, mas eles estão ainda lá, querendo contribuir para mudanças efetivas no país. No ano passado, a Igreja Batista Emmanuel, de El Salvador, comemorou seu 36º aniversário com uma carta pastoral, em que os líderes religiosos expressaram sua preocupação com a violência. Disseram que não se tratava de lutar apenas contra o pecado das pessoas, mas que precisava intervir com coragem na mudança das estruturas. Chegaram a sugerir uma cruzada ecumênica pela paz.
Posições desta natureza têm sido freqüentes em quase todos os países latino-americanos (e mesmo nos norte-americanos). Mudou o enfoque, mudaram os campos de atuação, foram ampliados os horizontes, mas não diminuiu a sensibilidade de muitos que querem uma Igreja inserida na história, voltada para a vida, atenta ao pobre e inteiramente a serviço do Reino.

Sociedade 20:80

O que se vislumbra no hori-zonte do continente americano é uma sociedade 20:80. Segundo algumas perspectivas, no século XXI, apenas 20% da população será suficiente para fazer funcionar a economia mundial e o mundo moderno, os outros 80% serão excluídos. Futuramente, diz um top ma-nager da Sun Microsystem, será "to have lunch or to be lunch", de almoçar ou de virar almoço. Essas previsões para o mundo já são, de alguma forma, realidade, se compararmos a tendência da distribuição de renda no Brasil, tido como exemplo de típica sociedade 20:80. Mas também se compararmos os hemisférios do globo, entre o Norte (Europa, América do Norte e Japão) e o Sul (América Latina, África e Ásia), encontramos que o 20% dos habitantes do mundo que moram no hemisfério Norte consome 86% dos recursos mundiais.

Fenômeno latino-americano

As favelas fazem parte da paisagem da maioria das grandes cidades latino-americanas. São os sinais mais visíveis das desigualdades e dos problemas ainda não resolvidos.

Entre todos os países do continente, no entanto, é o Brasil que detém o recorde nesse pouco invejável tipo de estatística. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), existem no País 3.905 favelas e isso representa um aumento de 717 em relação aos números do último Censo de 1991. São números que mostram o empobrecimento da sociedade e as desigualdades, que permanecem a maior marca registrada nos indicadores sociais latino-americanos. Na foz do rio Amazonas, existiam 27 favelas em 1991. Hoje, são 140.

Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), 31% da população urbana do Brasil é considerada pobre ou indigente, e a desigualdade é gritante, levando-se em conta outro dado: os 40% mais pobres partilham apenas de 10,5% de toda a riqueza nacional.

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