Revista "MUNDO e MISSÃO"
Globalização
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AMÉRICA: JUSTIÇA E PAZ O motivo todo mundo já conhece: o de cima sobe e o de baixo desce",
diz uma música baiana. Esta é a exata parábola do
continente americano. Basta pegar qualquer indicador social para se ter
uma idéia: as condições de vida de uma pessoa de
classe média que vive nos Estados Unidos são 76 vezes superiores
às de uma pessoa da mesma classe social que vive e trabalha no
Haiti. Um abismo, quando isso se traduz em comida, remédios, es-cola,
moradia e transporte. - PAÍSES: 35 - SUPERFÍCIE: 42.560.270 km2 - POPULAÇÃO: 809.100.000 habitantes - POPULAÇÃO URBANA: 70% - LÍNGUAS: inglês, francês, espanhol, português e línguas nativas (quíchua, aimará, guarani, caingangue, etc.) - RELIGIÕES:
- EXPECTATIVA DE VIDA: 79 anos no Canadá e 50 anos no Haiti - MORTALIDADE INFANTIL: 26 de cada mil nascidos vivos - ANALFABETISMO: não é mais calculado no Canadá e nos Estados Unidos e é de 54% no Haiti - PRODUTO INTERNO BRUTO: 10.432.370 milhões de dólares - RENDA PER CAPITA: 13.240 dólares (29.080 nos Estados Unidos e 380 no Haiti. No Brasil, 4.802). Epulões e Lázaros Joel M. dos Santos A parábola evangélica do homem rico, que vive dando festas e banquetes e deixa o pobre Lázaro se satisfazer com as migalhas, ilustra bem a realidade do continente americano, sem dúvida a terra das desigualdades. Majoritariamente são os pobres que morrem, são os pobres
que ficam soterrados, são os pobres que têm que correr carregando
os poucos pertences que lhes restaram, são os pobres que dormem
ao relento, que se angustiam pensando no futuro e encontram imensos obstáculos
para ter suas coisas de volta." A constatação é
do teólogo salvadorenho Jon Sobrino, depois do terremoto que se
abateu sobre seu povo no começo deste ano. Oficialmente, foram
827 mortos, 4700 feridos, mais de 1 milhão os que tiveram danos
materiais, 275 mil as casas destruídas. Os que foram poupados sabem
que basta um tremor parecido para que sejam eles as próximas vítimas. Desigualdade - Hoje, uma pessoa que nasce no Canadá tem
a perspectiva de viver 30 anos a mais que um menino haitiano. "Um
cidadão dos Estados Unidos equivale a cinqüenta haitianos",
exemplifica Mário Benedetti, especialista no assunto. Servilismo - "Muitas pessoas de classe média foram
levadas à pobreza e muitas famílias pobres se tornaram ainda
mais pobres", reconheceu também o jornal norte-americano Washington
Post, indicando a necessidade de se corrigir rumos e inverter prioridades
da economia mundial. É possível? O ex-presidente do Banco
Mundial, Robert McNamara, em entrevista concedida na Índia em 1997,
disse que sim: "Basta querer". Não deixou dúvidas
de que é essa vontade política que falta aos donos do dinheiro
e do poder. Também não explicou se para os devedores existe
a possibilidade de "querer". Reações - A submissão dos governos aos grandes interesses econômicos mundiais é criticada por inúmeros movimentos alternativos. No continente, há um fervilhar de grupos e ONGs, de diferentes matizes, que atuam na contramão dos governos. Aos grupos de solidariedade e voluntariado da América do Norte, podem ser associados os de protesto ou reivindicação da América Central e da América do Sul: o MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) no Brasil; o movimento indígena equatoriano, que derrubou o governo do presidente Jamil Mahuad em janeiro de 2000 e colocou de joelhos, um ano mais tarde, o governo do presidente Gustavo Noboa; as organizações da sociedade civil peruana, que com criativas e maciças mobilizações contribuíram para a queda do presidente Alberto Fujimori; as manifestações na Bolívia, reivindicando terra e contra a privatização do sistema de distribuição da água potável; as greves nacionais dos sindicatos argentinos; os movimentos revolucionários do México e do Peru, as FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a organização dos índios mapuches no Chile. Para a CIA, o Serviço de Inteligência dos Estados Unidos, que em outras épocas foi decisiva na repressão dos ensaios democráticos e na instalação das ditaduras de triste memória, os movimentos sociais são um problema. Man-têm hoje o mesmo poder desestabilizador que os grupos revolucionários tiveram nas décadas de 60 e 70. A CIA alerta para a "ameaça indígena", um verdadeiro perigo para a "ordem democrática". Justiça - A Igreja católica fez história
na história recente do continente. Destacou-se na luta por justiça
e liberdade, foi decisiva na crítica e no combate às ditaduras,
formou pessoas e grupos que atuaram na busca de projetos alternativos
da sociedade. Produziu até um novo pensamento teológico
- a Teologia da Libertação - que ajudou a entender a relação
estreita entre fé e vida, fidelidade ao Evangelho e compromisso
de transformação da sociedade. Hoje, muitos dizem que houve
uma guinada dessa Igreja lutadora para preocupações internas
e, principalmente, para a disputa do rebanho religioso com os novos grupos
protestantes, especialmente evangélicos. Seja como for, não
terminou o engajamento dos cristãos no social e no político.
Aliás, o que antes estava mais restrito ao campo católico,
expandiu-se para outros ambientes religiosos. "Não é
um fato generalizado, mas cada vez tem um número maior de pastores
e fiéis de Igrejas evangélicas que se dão conta de
que a fé evangélica também indica que existe uma
responsabilidade cidadã muito concreta", avalia Darío
López, presidente do Conselho Nacional Evangélico do Peru
e pastor da Assembléia de Deus daquele país. No Peru, ele
acrescenta, as Igrejas evangélicas se envolveram em ações
cívicas através de movimentos de direitos humanos, ao longo
de toda a década de 80 e parte da década de 90, e, nesse
período, em torno de 600 pastores evangélicos foram assassinados.
Não é que agora mudaram de rumo. Mudaram os campos de atuação,
mas eles estão ainda lá, querendo contribuir para mudanças
efetivas no país. No ano passado, a Igreja Batista Emmanuel, de
El Salvador, comemorou seu 36º aniversário com uma carta pastoral,
em que os líderes religiosos expressaram sua preocupação
com a violência. Disseram que não se tratava de lutar apenas
contra o pecado das pessoas, mas que precisava intervir com coragem na
mudança das estruturas. Chegaram a sugerir uma cruzada ecumênica
pela paz. Sociedade 20:80 O que se vislumbra no hori-zonte do continente americano é uma sociedade 20:80. Segundo algumas perspectivas, no século XXI, apenas 20% da população será suficiente para fazer funcionar a economia mundial e o mundo moderno, os outros 80% serão excluídos. Futuramente, diz um top ma-nager da Sun Microsystem, será "to have lunch or to be lunch", de almoçar ou de virar almoço. Essas previsões para o mundo já são, de alguma forma, realidade, se compararmos a tendência da distribuição de renda no Brasil, tido como exemplo de típica sociedade 20:80. Mas também se compararmos os hemisférios do globo, entre o Norte (Europa, América do Norte e Japão) e o Sul (América Latina, África e Ásia), encontramos que o 20% dos habitantes do mundo que moram no hemisfério Norte consome 86% dos recursos mundiais. Fenômeno latino-americano As favelas fazem parte da paisagem da maioria das grandes cidades latino-americanas. São os sinais mais visíveis das desigualdades e dos problemas ainda não resolvidos. Entre todos os países do continente, no entanto, é o Brasil que detém o recorde nesse pouco invejável tipo de estatística. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), existem no País 3.905 favelas e isso representa um aumento de 717 em relação aos números do último Censo de 1991. São números que mostram o empobrecimento da sociedade e as desigualdades, que permanecem a maior marca registrada nos indicadores sociais latino-americanos. Na foz do rio Amazonas, existiam 27 favelas em 1991. Hoje, são 140. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), 31% da população urbana do Brasil é considerada pobre ou indigente, e a desigualdade é gritante, levando-se em conta outro dado: os 40% mais pobres partilham apenas de 10,5% de toda a riqueza nacional. |
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