Revista "MUNDO e MISSÃO"
Globalização
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Esta confusão é enriquecedora. O que acontece é que, sutilmente, penetrou em nossa cabeça um mito norte-americano de que a informação jornalística deve se pautar pela objetividade, neutralidade e imparcialidade. A partir daí, a gente quer que o veículo de comunicação publique tudo o que ocorre e deixe ao leitor a tarefa de tirar suas próprias conclusões. A objetividade não passa de um mito, pois o caminho entre o acontecimento e a divulgação do mesmo é por demais tortuoso e complexo. Nem a objetiva de uma máquina fotográfica é neutra, quando atrás dela há um olho humano. O que foi divulgado sobre o II Fórum Social Mundial foram apenas versões do que acontecia em Porto Alegre. Versões mediadas pela cultura, preferências e limitações do jornalista que cobriu o acontecimento e pela linha editorial do veículo que a publicou. Como diz o jornalista Clóvis Rossi, o jornalismo é, na verdade, uma batalha para a conquista das mentes e corações de leitores, telespectadores e ouvintes. Esta batalha tem como arma as palavras e imagens utilizadas na informação de fatos atuais de interesse público. O campo da batalha era, antigamente, a página editorial. Hoje, são todas as páginas. |
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Basta observar, por exemplo, a posição do jornal O Estado de S. Paulo e do mais antigo diário gaúcho, Correio do Povo, sobre o que acontecia em Porto Alegre. O Fórum mereceu 105 matérias no diário paulista e 161 no Correio do Povo. Para ver a diferença, basta comparar alguns assuntos noticiados simultaneamente pelos dois jornais. Vários títulos de matérias do Estadão relativas ao evento pareciam intencionados a desbaratar o que estava acontecendo em Porto Alegre. Enquanto, por exemplo, o Correio do Povo noticiava que Estado já tem 72 casos suspeitos de dengue dos quais 15 foram registrados a partir do início doII Fórum Social Mundial, o Estadão anunciava com um título declarativo: Fórum Social aumentou caso da dengue no Rio Grande do Sul. Joaquim Kliemann, secretário de Saúde de Porto Alegre, esclareceu que todos foram contaminados fora do Estado. Tratava-se de jovens participantes vindos do Rio de Janeiro.
Ao contrário do Fórum Econômico de Nova York, que reuniu as maiores estrelas do capitalismo mundial, o Fórum de Porto Alegre reuniu poucos nomes famosos. Ali se destacaram o Nobel de Literatura, José Saramago, Noam Chomsky, ilustre lingüísta norte-americano convertido em ativista e filósofo da política e outros nomes de peso, mas menos poderosos como Rigoberta Menchú e Adolfo Perez Esquivel, ambos vencedores do prêmio Nobel da Paz. Chomsky foi realmente um dos que mais brilharam durante o evento. O Correio do Povo anunciava em título que Palestra de Chomsky atrai 6 mil pessoas. O Estadão, por sua vez, declarava que Sem estrelas, Chomsky brilha no II Fórum Social. Chomsky é famoso, mas é verdade que não chega a ser uma estrela em termos mundiais. Segundo o Estadão, teria brilhado porque não havia outras estrelas no céu de Porto Alegre. O Correio do Povo acaba por causar mais impacto ao mencionar que seis mil pessoas participaram da palestra. Segundo o Estadão, Crítica aos EUA não chega a consenso. Já três matérias do Correio do Povo (Conferencistas criticam a OMC, Modelo neoliberal sofre combate, Globalização, mas a favor do povo) são muito sugestivas de quantas críticas a política dos Estados Unidos recebeu durante o Fórum. Até mesmo a confraternização final do evento recebeu tratamento diferente nos dois diários mencionados: O Estadão dizia que Fórum Social termina em carnaval globalizado. Já o Correio do Povo sob o título Última noite do Fórum acompanhado do olho A música consciente do grupo O Rappa encerra a programação de shows, dá a tonalidade alternativa que marcou o evento. Seria pelo menos irônico que um evento cuja finalidade é justamente discutir alternativas à atual globalização da economia e da cultura, acabasse em carnaval globalizado e, pior ainda, depois de espalhar a dengue pelo Estado. É assim que os órgãos de informação travam a batalha para conquistar as mentes e os corações de seus leitores concretos e potenciais. Alguns analistas da mídia afirmam que, na grande imprensa, a divergência de pontos de vista é apenas aparente. Os fatos seriam abordados de forma mais ou menos idêntica. Segundo o jornalista e professor Clóvis de Barros Filho, as diferenças de matiz permitem de um lado assegurar a aparência de liberdade informativa e, de outro, atendem a uma exigência de marketing por fornecerem aos distintos produtos (notícias) condições de se distinguirem entre si. Haverá diferenças reais não entre os grandes jornais ou as grandes emissoras de rádio e televisão, mas entre o conjunto desta grande mídia e aquela outra de cunho ideológico ou partidário.
Dada a importância e o interesse público do II Fórum Social Mundial, nenhum órgão de imprensa deixaria de noticiar, comentar e interpretar o que se passava em Porto Alegre. Tudo isto com o objetivo de orientar a opinião pública para que sinta e aja com discernimento, mas em sintonia com a postura que o veículo acha correta. As diferenças de ponto de vista acontecem até mesmo numa
mesma matéria. É bom e necessário que haja divergência de abordagem Se todos os veículos fossem unânimes na apresentação do fato, a coisa seria de uma monotonia sem fim. Como dizia Nélson Rodrigues, a unanimidade é burra. E, no caso da divulgação de informações, a unanimidade funciona como imposição do tema de discussão, imposição do ponto de vista e um silenciar das opiniões contrárias. Toca à imprensa não apenas divulgar informações. É também missão dela explicar, interpretar, ensinar, guiar, dirigir o leitor. Mas cabe-lhe, sobretudo, examinar os fatos e não os agravar com juízo apaixonado. Propor soluções, mas não encaminhar os acontecimentos com alarde de adesão. |
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