Revista "MUNDO e MISSÃO"
Globalização
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Resumimos
um documento da UNESCO, que apresenta as dez maiores tendências
da humanidade no século 21. Fica, porém, uma pergunta: por
que não se faz por Costanzo Donegana 1. A "terceira revolução industrial" Estamos já vendo, inclusive no tecido social, as conseqüências desta revolução, que submete as sociedades a uma lógica de fragmentação. Qual será o impacto dessa tendência à desagregação sobre as instituições ou sobre os quadros herdados da história, tais como a escola, o Estado-nação, o trabalho, a família, a cultura, a cidade? De outro lado, as novas tecnologias da informação e da comunicação oferecem novas possibilidades no campo da educação a distância; deixam entrever a promessa de uma sociedade de redes, descentralizada, mais democrática, menos hierárquica. A globalização poderá contribuir, ao mesmo tempo, seja à fragmentação das sociedades como ao desenvolvimento de uma consciência planetária, que Edgar Morin qualifica como uma segunda globalização: a das consciências frente à da economia e da técnica. 2. Pobreza e exclusão Segundo o PNUD (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas), a pobreza recuou mais durante os últimos 50 anos que nos cinco séculos anteriores. Porém, mais de 3 bilhões de pessoas - isto é, mais que a metade da humanidade - tentam sobreviver na pobreza com menos de dois dólares (6 reais) por dia; um bilhão e meio não têm acesso à água potável e mais de dois bilhões não recebem os cuidados sanitários elementares.
Segundo o Banco Mundial, é previsível que a pobreza aumentará: até o ano de 2015, 1.900 milhões de homens e mulheres poderão viver abaixo do nível da pobreza absoluta (um dólar por dia), 400 milhões mais que no início do milênio. Um fator agravante é a previsão de aumento da concentração da riqueza em poucas mãos. De outro lado, o crescimento da pobreza será medido não só em termos econômicos, mas também educativos, tecnológicos, culturais, ambientais e sanitários. 3. Paz, segurança, direitos humanos Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 e a guerra no Iraque parecem ter aberto um novo paradigma de segurança nacional, de guerra e de paz, que oporia as nações que sustentam o terrorismo internacional à coalizão dos países "civilizados". Esse paradigma merece ser analisado com cuidado, até mesmo para evitar a propagação do perigoso mito do "choque de civilizações". Depois da Guerra Fria, se parece que a paz é menos impossível, também a guerra aparece freqüentemente como menos impossível, sendo que alguns países continuam dedicando importantes quantidades de dinheiro aos armamentos.
A intolerância, a xenofobia, o racismo e a discriminação voltam a aparecer, às vezes, de forma violenta, até com genocídios, e são justificados em nome da pertença religiosa, nacional, cultural, lingüística. De outro lado, as ameaças contra a paz e a segurança não são unicamente de natureza militar. Nas últimas décadas, nasceu uma nova consciência sobre as múltiplas dimensões da paz e da segurança: a deterioração do meio ambiente e das condições de vida, os problemas da população, as rivalidades culturais e étnicas, todas as formas de violação dos direitos humanos. 4. Mudanças demográficas Conforme as projeções da Onu, a população mundial alcançaria 8 bilhões em 2028 e 9 bilhões em 2054, ficando estabilizada ao redor deste valor. Portanto, não haveria bomba demográfica. Segundo alguns demógrafos, poderá até ocorrer uma diminuição dentro de algumas décadas. Ao mesmo tempo, a população mundial envelhece; os menores de 15 anos passariam de 31% em 1995 a 19% em 2050; os maiores de 60 anos passariam, no mesmo período, de 10 a 22%. A população da Europa e do Japão diminuirá dentro dos próximos 50 anos, a não ser que aconteçam fortes migrações. O crescimento da população é acompanhado por uma urbanização massiva, acelerada pelas transformações econômicas e sociais, com desafios sem precedentes. 5. Meio ambiente em perigo Conhecemos as dificuldades que pode causar o aquecimento global produzido pela emissão de gases, como também as dificuldades para que haja, em âmbito mundial, um acordo para controlar o fenômeno. Quanto à água, é abundante, porém não para todos nem em todo lugar. Cerca de um quarto da humanidade não tem acesso direto à água sã e potável. Será necessário adotar políticas que afetem, entre outros, o consumo excessivo da agricultura. Nunca a degradação da camada de ozônio foi tão forte como agora. Mas há sinais de esperança: se forem cumpridos os acordos internacionais, poderia ser reconstituída antes de 2050. A desertificação está se estendendo: afeta 250 milhões de pessoas e ameaça um bilhão de seres humanos que vivem em 110 países. Este número poderia duplicar-se antes de 2050. Diminuem também as zonas de floresta (ainda a quarta parte da superfície terrestre) assim como as fontes nutritivas dos oceanos. 6. Sociedade da informação O surgimento, em ritmos muito desiguais nas diferentes regiões do mundo, de uma sociedade da informação, suscita grandes esperanças nos campos do acesso ao saber, da comunicação e da cultura. Porém, deve enfrentar um grande desafio: a desigual distribuição do acesso entre países e dentro do mesmo país. Um bom número de especialistas estimam que as indústrias da informática, das telecomunicações e da teledifusão estão prestes a convergir. Hoje, dados, sons e imagens podem ser transmitidos a grande velocidade graças aos mesmos procedimentos de codificação numérica das transmissões. Todavia, a codificação numérica do real não acontece sem perdas, abrindo espaço a numerosos desvios, como a manipulação das imagens e os truques eletrônicos. Mas esse procedimento pode, sobretudo, promover uma certa confusão entre verdade e ficção, o natural e o artificial, entre a realidade e o que cremos ser sua representação. 7. Governo e sociedade A mundialização da maioria dos desafios que apresentamos tornará cada vez mais indispensável o reforço dos sistemas de governo internacional ou regional? Em um mundo caracterizado pela interdependência e por uma crescente consciência de nosso destino comum, a solução dos problema exige uma ação coordenada em escala planetária, seja diante do meio ambiente ou da saúde pública, da luta contra a corrupção ou contra o crime organizado. Estes problemas, e muitos outros, ultrapassam as fronteiras nacionais; nenhuma nação, por mais poderosa que seja, poderá resolvê-los sozinha.
8. Igualdade de sexos A desigualdade dos sexos se encontra em todos os países, incluindo os mais avançados e orgulhosos de seus avanços nesse campo. Certamente, houve importantes progressos nas últimas décadas. Tendo em conta essa evolução, o papel das mulheres deveria aumentar nas primeiras décadas do nosso século e a maioria das sociedades caminhará rumo a uma maior igualdade entre os sexos. Os avanços mais significativos se dão nos campos da educação e da saúde, embora permaneçam muitos obstáculos: cerca de dois terços dos 850 milhões de analfabetos no mundo são mulheres, assim como 70% das pessoas que vivem em situação de pobreza. Elas continuam discriminadas no trabalho, nos direitos hereditários e matrimoniais, entre outros. Além disso, a violência doméstica e os abusos sexuais contra as menores, a prostituição, a exploração sexual das jovens e adolescentes para o "turismo sexual", as redes de pedofilia, o aborto seletivo e o infanticídio de meninas são uma realidade que continua freqüente. 9. Novos encontros entre culturas É provável que as novas tecnologias colaborem para reorganizar a paisagem cultural no curso das próximas décadas. A primeira questão-chave que se apresenta é: a mundialização e as novas tecnologias favorecerão o pluralismo cultural, o diálogo e o encontro entre as culturas? Em caso afirmativo: como será tal encontro? Será positivo e criador ou hostil e destruidor? Vamos rumo a um choque entre as culturas ou rumo a uma miscigenação cultural e étnica? Haverá uma hegemonia de uma cultura sobre as outras? Serão mais evidentes as diferenças, suscitando novas fragmentações culturais? O que acontecerá com a diversidade de culturas? Não esqueçamos que pelo menos a metade - talvez mais - dos 6.700 idiomas falados no mundo está em perigo de desaparecer durante este século. Outra questão é como as novas tecnologias afetarão a produção cultural. Dadas as possibilidades de duplicação, difusão e manipulação, como será no futuro a propriedade intelectual? Qual será o impacto sobre o livro e a leitura? E como afetarão a educação? 10. Inquietações éticas Os muitos avanços no âmbito da biotecnologia, da genética, da astrofísica, das ciências do infinitamente grande e do infinitamente pequeno revolucionam nossa percepção da vida e do mundo que nos rodeia. Em muitos casos dá para entrever aplicações benéficas. Porém, surgem também interrogações e inquietações éticas. A primeira diz respeito à tecnologia aplicada à vida, particularmente ao ser humano: o poder de "artificializar" a natureza, de manipular as espécies - incluso o ser humano - não nos levará a uma situação eticamente inadmissível do homem domesticado pelo homem? Qual será, então, o estatuto do homem, convertido em objeto de manipulação, talvez de destruição? Qual será, neste novo contexto, o sentido da vida e da morte? Além da sociedade e do meio ambiente, é a própria definição do homem e de sua integridade biológica que estão em jogo. O homem pode modificar o patrimônio genético de toda espécie, inclusive a sua. Ele possui também o triste privilégio de planejar seu próprio desaparecimento. Aceitar que é preciso limitar o poder da técnica pela ética e pela sabedoria é o caminho a ser empreendido. UNESCO, Le Nouveau Courier, maio de 2002 |
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