Revista "MUNDO e MISSÃO"
Globalização
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O mundo da economia é terra de missão Giorgio Paleari Globalização e G-8 vistos a partir da ótica dos missionários Estamos entristecidos com o que aconteceu em Gênova (Itália): os graves fatos, a violência, a morte do jovem Carlo Giuliani, o confronto violento entre os Black Blocs e as forças policiais, envolvendo também pacíficos manifestantes. Depois destes fatos que têm obscurecido o empenho das organizações da sociedade civil e o mísero resultado alcançado pela cúpula do G-8, estamos ainda mais preocupados pela sorte de populações empobrecidas do Sul do mundo, no meio das quais operamos e das quais partilhamos a vida e o sofrimento" escreve pe. Marcello Storgato, porta-voz dos missionários xaverianos no XIV Capítulo Geral. Nessas poucas linhas, há a tomada de consciência dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, a firme posição dos missionários diante do encontro do G-8 em Gênova, realizado na segunda metade do mês de julho. É através dessa ótica que tentamos olhar a globalização e o G-8. Muitos textos e análises já foram escritas. Todos estão acompanhando os fatos e as idéias que envolvem esta fase crítica do processo da globalização. Falta, ainda, entender o ponto de vista de quem, como os missionários, passam as fronteiras dos países e se põem, no dia-a-dia, a serviço das populações, particularmente no Sul do mundo. É esse um âmbito privilegiado de análise ao qual não estamos acostumados. Continua pe. Storgato: "Mas nem por isso pretendemos abandonar as esperanças dos povos sem voz e dos milhares de grupos comprometidos com a cidadania. Com eles continuaremos, de maneira não violenta e contra toda violência, a produzir notícias, a difundir e a defender valores das diversas culturas, a lutar contra a dívida externa, contra a venda de armas...". A crítica à globalização excludente Como se posicionam os missionários diante do desafio da globalização e do G-8? Um consistente grupo de congregações religiosas missionárias sentiram o dever de participar do acontecimento de Gênova. E explicam o porquê: "Vivemos - dizem - com a população nativa da Amazônia, com os pigmeus da África, com os beduínos do deserto (...), somos testemunhas de como a dívida externa e especialmente os ajustes estruturais impostos pelo FMI têm tornado desumana a vida e semeado fome no meio das populações em que vivemos". À mobilização responderam quase 800 congregações religiosas. Além do documento enviado aos governos do G-8, centenas de religiosos e missionários decidiram passar os dois dias da reunião em oração e jejum na Igreja genovesa de Santo Antônio de Boccadasse, juntos com os irmãos de outras Igrejas e religiões e em comunhão com todos os pobres do mundo. Pe. Sorge, jesuíta e diretor de Aggiornamenti Sociali, escreve: "É a contribuição mais eficaz que a Igreja pode dar para o bom êxito do encontro de Gênova: fazer jorrar do jejum e da oração o grito profético da denúncia que, unida ao testemunho de uma solidariedade efetiva com quem sofre, pode se tornar uma advertência para os grandes da terra". A entrevista de pe. Sorge à agência Misna é ainda mais contundente: "O grito dos pobres da terra nunca foi tão forte como durante o último G-8 em Gênova. A consciência do nosso tempo não suporta mais uma humanidade quebrada em dois, entre cinco bilhões de pobres e um bilhão de ricos. Os bens da terra são de todos e um mundo diferente é possível." A voz coral da Igreja Várias associações católicas italianas, muitos movimentos e outras organizações católicas uniram-se para redigir um manifesto em favor da globalização da solidariedade contra o capitalismo selvagem de cunho neoliberal. O documento, apoiado pelo cardeal arcebispo de Gênova, e enviado ao governo italiano e ao prefeito de Gênova, pedia uma "globalização da solidariedade e da responsabilidade". Entre outras coisas, pedia o cancelamento da dívida dos países do Sul do mundo e rechaçava a criação do "escudo antimísseis", proposto pelo governo dos EUA. A juventude está acordando. No mês de junho, durante uma breve visita à Itália, numa pequena cidade, perto de Milão, os jovens me convidaram para uma vigília de adoração e de tomada de consciência sobre os pobres, vítimas da globalização excludente. Para alguém, ainda hoje, parece estranho juntar as duas coisas. Estão surgindo escolas de formação política e de defesa dos direitos das minorias. Foi João Paulo II que, no dia 17 de maio, na Sala Clementina do Vaticano, marcou, mais uma vez, o passo para uma denúncia e um anúncio profético: "Vendo bem, a globalização é um fenômeno intrinsecamente ambivalente, a meio caminho entre um bem potencial para a humanidade e um dano social com graves conseqüências. Para orientar em sentido positivo o progresso, será necessário empenhar-se profundamente numa globalização da solidariedade". A agência UcaNews notificou que o cardeal François
Xavier Nguyen Van Thuan, de origem vietnamita e presidente do Pontifício
Conselho para a Justiça e a Paz, tem louvado o protesto dos católicos
contra os países ricos que não se preocupam com os pobres:
"A presença dos católicos demonstra que a Igreja tem
um papel fundamental a exercer para o bem da humanidade... A exploração
dos tempos coloniais ainda está presente e o futuro dos países
pobres é trágico e pode levar à eliminação
total deles", justificou o cardeal. Todos os missionários concordam na crítica à globalização, mas diferem na maneira de enfrentá-la e nas estratégias, segundo a percepção dos problemas. Para permanecer ainda no contexto italiano, onde se desenvolveu a reunião da cúpula do G-8, as posições de pe. Alex Zanotelli e pe. Piero Gheddo são emblemáticas. O primeiro, missionário comboniano, está na linha de frente na crítica radical à globalização. Ele julga a globalização a partir das favelas de Nairobi (Quênia): "Não se pode aceitar o fato de que 20% da população mundial utilize 80% dos recursos e que três famílias tenham a riqueza de 48 países africanos. O capitalismo deve abandonar os modelos neoliberais. O sonho de Deus é uma mesa preparada para todos". Pe. Gheddo, missionário do P.I.M.E., por sua vez, fica com um pé atrás diante das grandes críticas. Para ele, "o mundo rico pode produzir somente máquinas e dinheiro para enviar aos países pobres. O que se necessita são homens e mulheres preparados para doar suas vidas aos outros. O Evangelho é a solução dos problemas do mundo". A perspectiva de pe. Gheddo é mais na linha de uma educação, sem obviamente deixar de criticar um certo exclusivismo econômico. Numa carta ao diretor de Avvenire diz: "A raiz do desenvolvimento é a educação, de que ninguém fala. Insiste-se sobre o dinheiro. Está certo, mas o discurso não é suficiente". Também pe. Albanese, diretor da agência missionária MISNA, afirma: "O próprio mundo da economia é hoje terra de missão. As regras do jogo devem ser mudadas. Se não quisermos fazê-lo por caridade cristã, pelo menos façamo-lo por interesse pessoal: fome e pobreza são como bumerangues, que podem se voltar contra nós mesmos". A Igreja missionária no Brasil É a partir das balizas traçadas por dom Erwin Krautler, bispo de Xingu, PA, e responsável pela Dimensão Missionária da CNBB, que podem ser detectados os caminhos da missão diante do desafio da globalização. Numa palestra pronunciada durante o VI Congresso Missionário Latino Americano (COMLA) na cidade de Paraná (Argentina, 1999), o bispo afirmou: "Hoje, estamos convictos de que a universalidade de nossa missão é a única alternativa à globalização excludente, porque radicalmente diferente dela. A missão rejeita os mecanismos da exclusão e não flexibiliza os princípios éticos ou a utopia do Reino que norteiam sua caminhada". A escola missiológica de São Paulo, que há mais de dez anos reflete sis-tematicamente sobre a missão, contribui significativamente para traçar um caminho crítico com relação à globalização. Pe. Paulo Suess, coordenador do Núcleo de Pós-Gradução de Missiologia na Pontifícia Faculdade N.Sra. da Assunção (SP), afirma que a missão cristã, em seu aspecto local e universal, representa uma crítica radical à globalização. Enquanto a primeira baseia-se na gratuidade, no respeito à diferença e no Reino de Deus para todos, a segunda se fundamenta na competição, na acumulação e na exclusão. Numa dissertação defendida no curso de mestrado, irmã Inês Costalunga conseguiu lucidamente abordar a questão da "Globalização, Trindade e Missão". A professora escreveu, indicando novas tarefas para a missão: "Devemos estar num processo educativo que nos leve a partilhar em vez de acumular, servir em vez de dominar, acolher em vez de rechaçar, dialogar em vez de impor, reduzir ou assimilar, partilhar o poder em vez de centralizá-lo". Vivemos, sem dúvida, uma globalização perversa, mas nem tudo está perdido. A grande lição destes tempos vai se completar quando soubermos onde estão as fontes da descoberta de outros caminhos e tivermos a força de escapar às interpretações muito próximas dos objetos e a disposição de alçar vôo para entendê-las dentro de um contexto maior. A verdadeira política somente existe a partir de contextos maiores. Milton Santos |
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