Revista "MUNDO e MISSÃO"

Globalização


por Estêvão Raschietti

ejam sempre capazes de sentir profundamente qualquer injustiça praticada contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Essa é a qualidade mais linda de um revolucionário." Assim o revolucionário Ernesto Che Guevara despedia-se dos filhos, em sua última carta antes de ser morto na Bolívia. Os discípulos de Jesus teriam mais motivos ainda para tornar próprias essas palavras: todas as angústias do mundo são suas angústias, todas as alegrias são suas alegrias, todos os sonhos são os seus sonhos.

Hoje, o cristão é chamado, por vocação, mais do que qualquer outra pessoa, a ser universal, ou seja, uma pessoa que tem responsabilidade não só sobre si, mas sobre o mundo inteiro, através de suas opções, suas atitudes, sua consciência e seus compromissos. Numa época de globalização como a nossa, não é mais possível pensarmos em termos paroquiais, regionais ou nacionais: são pequenos demais. Assim Leonardo Boff expressa sinteticamente a nova época da história que estamos vivendo:

"Estamos superando os limites dos estados-nações e rumando para a constituição de uma única sociedade mundial que mais e mais demanda uma direção central para as questões concernentes a todos os humanos como a alimentação, a água, a atmosfera, a saúde, a moradia, a educação, a comunicação e a salvaguarda do planeta. É verdade que estamos ainda na fase da globalização competitiva, oposta à globalização cooperativa, que supõe uma outra economia estruturada ao redor da produção do suficiente para todos, seres humanos e demais seres vivos da criação.

Mas ela preenche uma condição fundamental: criar as bases materiais para outras formas de mundialização, mais importantes e necessárias. Efetivamente, queiramos ou não, já está se anunciando também uma mundialização sob o signo da ética, do senso da compaixão universal, da descoberta da família humana e das pessoas dos mais diferentes povos, como sujeitos de direitos incondicionais, direitos não dependentes do poder econômico e político dos povos ou do dinheiro de seu bolso, nem da cor de sua pele, nem da religião que professam. Estamos todos sob o mesmo arco-íris da solidariedade, do respeito e valorização das diferenças e movidos pela amorização que nos faz a todos irmãos e 'irmãs'".

Mística Universal

Diante desse panorama, é preciso, em primeiro lugar, cultivar uma mística universal. Muitas vezes lembra-se aos cristãos que eles são missionários pelo Batismo e por sua própria vocação, mas não se recorda, com o mesmo ânimo, que são universais, "católicos", e que têm compro-missos com o mundo inteiro. Sem essa característica, desvirtua-se completamente o ser missionário. Isso acontece com certa freqüência nas nossas igrejas.

A paixão pelo mundo, própria da vocação cristã, se expressa no sentir e no vibrar profundamente pela humanidade inteira, e em ser capaz de realizar gestos simples, ousados e concretos de solidariedade e de partilha com os outros povos. Em outras palavras, "pensar mundialmente e agir localmente". Só assim nos tornaremos um sinal profético de uma nova humanidade mundial, fraterna e multicultural.

Por outro lado, seria mesquinho demais pensar só em nós, diante dos dramas da fome, da violência, do desemprego, da moradia, do meio ambiente, da falta de perspectivas, etc. Além do mais, seria quase impossível encontrar soluções para esses problemas, sem ter em conta a "dimensão mundo".

Busca da paz

A perspectiva universal nos abre ao verdadeiro e efetivo encontro com os outros. O olhar introspectivo nos leva apenas a pensar egoisticamente só em nós. A justificativa que teríamos problemas demais nos quais pensar, para poder pensar no mundo leva automaticamente as pessoas a dizer que têm demais problemas consigo mesmas para poderem pensar nos outros. Não é por esse caminho que educamos à solidariedade, à promoção da justiça e à busca da paz.


O mundo em que vivemos
nos chama a essa visão e a essa
prática de vida. A globalização está
exigindo de nós um novo jeito de
ser Igreja e um novo jeito de viver
a vocação cristã, aberta ao mundo,
solidária com todos, animada pelo
sonho de fazer da humanidade
uma só família.

Essa busca da paz mundial é o grande compromisso que a Igreja assumiu há quarenta anos, diante do mundo com a celebração do Concílio Vaticano II. São dois os caminhos que devem ser propostos para alcançar a paz entre as pessoas e entre os povos: "a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros" e "a prática assídua da fraternidade" (GS 78). Não são duas faces da mesma moeda, ou seja, o reconhecimento dos outros não implica imediatamente a fraternidade, e vice-versa.

Nos processos de dominação hegemônica, as duas perspectivas não se cruzam: pode haver fraternidade (ou assim suposta) sem reconhecimento da dignidade dos outros, como também pode haver reconhecimento dos outros (ou assim suposto) sem fraternidade. Diante do ardente apelo à paz mundial, o Concílio aponta com decisão para um caminho de mão dupla: o engajamento contra toda forma de domínio sobre o outro, e a "prática assídua" de solidariedade e cooperação recíproca como expressão de uma nova lógica de convivência universal.

Uma Igreja efetivamente "sacramento"

Para o Concílio, esse compromisso não é apenas uma tarefa para governantes e técnicos de agências internacionais, pois, sobretudo os primeiros dependem da opinião e da mentalidade das multidões. É preciso, portanto, educar a juventude à mundialidade e à paz, renovar os corações e as motivações para construir uma sociedade mundial justa e solidária (cf. GS 82), resgatando as sabedorias dos povos e convocando os crentes de todas Igrejas e religiões para um diálogo profundo (cf. GS 92).

Por esse caminho, a Igreja missionária, como assembléia dos chamados, se torna concretamente sal da terra e luz do mundo, sinal de fraternidade levantado entre as nações, fermento da sociedade, germe do Reino, instrumento da redenção universal. Para os cristãos, hoje, não há nada mais oportuno e fascinante do que trabalhar pela unidade da humanidade, de modo que a Igreja seja efetivamente sacramento, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano (cf. LG 1).

Diante dessa perspectiva e desse sonho, as pessoas são chamadas a apostar num engajamento evangélico e radical. Descobrir que a vida pode estar a serviço de uma missão mundial, transformar a vida numa missão universal e doar a vida para a missão além-fronteiras, pode levar todo o povo de Deus a sair do torpor da acomodação e do puro louvor para um protagonismo efetivo, profético e planetário.

Animação vocacional da comunidade cristã

Neste sentido, a animação missionária é chamada a ser uma animação vocacional ao jeito de Jesus: "O mestre não espera, mas vai lá onde as pessoas se encontram (...), convoca pessoas diferentes para segui-lo de diversas maneiras" (TBAV 96). É preciso entender que, se missão significa fazer discípulos, a proposta vocacional de seguir Jesus e de ser enviado ao mundo constitui o coração da missão. Quando falamos em missão além-fronteiras ou na dimensão universal da missão, muitos pensam que se trata de pegar logo um avião e ir para um outro país.

O envio além-fronteiras é somente uma das modalidades, sem dúvida, a que mais expressa esse aspecto fundamental do ser cristão, para viver a própria vocação à missão universal. Jesus, no entanto, dirige a todos os discípulos e discípulas o chamado ao envio missionário a todos os povos, que será vivido em maneiras diferentes, contextualizadas, mundialmente solidárias através da fé, da caridade e da esperança, na contínua doação pessoal de si junto à Igreja toda.

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