Revista "MUNDO e MISSÃO"

História

 

DOS INÍCIOS ATÉ O SÉCULO IX

A partir desta edição,
MUNDO e MISSÃO oferece a seus leitores a oportunidade de aprofundar seu conhecimento sobre a Igreja Oriental e sobre seu relacionamento com a Igreja do Ocidente, no passado e
no presente

variedade de idiomas, a dispersão das igrejas por inúmeros centros políticos, a diversidade de formação dos bispos e mestres encarregados de ensinar a doutrina cristã e o temor de falsear a pureza dos ensinamentos cristãos levaram umas igrejas a condenarem outras, mesmo quando tinham que romper o único sinal de sua identidade: a união.

Hoje, causa constrangimento ouvir a frase atribuída a Gandhi: “Na Europa, aprendi a venerar Cristo e a desprezar os cristãos”. A unidade plena, como todos os dons de Deus, não se adquire de uma vez por todas, mas se conquista dia a dia, momento a momento. Por isso, no discurso da Última Ceia com os apóstolos, Cristo previa que os seus seguidores enfrentariam desuniões.

AS PRIMEIRAS DIVERGÊNCIAS

Nos primeiros séculos, sob o regime de cruéis perseguições, os cristãos da Ásia tiveram uma controvérsia com Roma a respeito da celebração da Festa da Páscoa. Tudo se resolveu graças ao bom senso do papa Aniceto (155-166) e, mais tarde, do papa Victor I (189-199). Uma separação mais grave, ainda na época das perseguições, foi a dos anos 220 a 235 entre um papa liberal, Calixto I e seu opositor, Hipólito, teólogo rigorista, que negou obediência a Calixto e se tornou o primeiro antipapa.


Interior da Igreja
dos Santos Apostolos

Este primeiro cisma terminou quando Hipólito sofreu o martírio junto com o papa Ponciano, em 235. Depois que o Imperador Constantino proclamou a liberdade religiosa, no século IV, as separações entre as Igrejas surgiram, quase sempre, por motivação política, muitas vezes por imprecisão da linguagem teológica e, outras vezes, por incompreensões e estreiteza de vista. A facção que conseguia apoio do governante costumava impor-se às demais, e assim, os cismas se propagaram.

Foi o que aconteceu com a doutrina do Arianismo:

Ário ensinava que Jesus não era Deus. Foi condenado pelo Concílio de Nicéia, em 325, mas a sua heresia perdurou após o Concílio, porque os bispos arianos conseguiam a proteção do imperador.

O NESTORIANISMO E MONOFISISMO

As separações maiores entre as igrejas surgiram um século depois, a partir do ano 425, quando eclodiram as controvérsias a respeito de Jesus Cristo – Deus-homem e homem-Deus. Quem foi, afinal, esse Jesus que mudou os rumos da humanidade? Nestório, eleito Patriarca de Constantinopla em 380, querendo entender o mistério da Encarnação do Verbo, acentuou a humanidade de Jesus, ofuscando a divindade, ensinando que o título de Mãe de Deus, dado à Virgem Maria pelos cristãos, não era correto.


Carlos Magno foi um dos grandes
articuladores da unificação
da Europa após a queda
do Império Romano

Maria era Cristotókos isto é, “a que gerou Cristo” e não Theotókos “a que gerou Deus”. O pensamento de Nestório encontrou forte oposição no teólogo Cirilo de Alexandria. Nestório, deposto, foi exilado e seus seguidores instalaram suas comunidades fora das fronteiras do Império Romano, na Pérsia (o Iraque de hoje), chegando até à Índia e China.

A doutrina oposta ao Nestorianismo, ensinada eloqüentemente por Cirilo, prevaleceu em Alexandria, onde seu sucessor, o Patriarca Dióscuro (444-451) exagerou sua tese, insistindo que, em Jesus, havia uma só natureza, a divina, de onde o nome dado à heresia de Monofisismo (do grego: mono+físis: uma só natureza de Cristo, a divina). Em Constantinopla, um forte defensor desta doutrina foi o monge Êutiques. O Concílio de Calcedônia, em 451, condenou Dióscuro e a doutrina monofisita.

Os legados papais leram a carta dogmática do Papa Leão I (“Tomo a Flaviano”), uma obra-prima de teologia sobre a pessoa de Cristo Deus e Homem. O Concílio foi um triunfo da Ortodoxia mas, no Egito, os cristãos das margens do Nilo, que tinham o Patriarca de Alexandria como um verdadeiro monarca, ao verem Dióscuro deposto e punido, tomaram a atitude imperial como humilhação nacional e escolheram como novo patriarca um forte adversário de Constantinopla.

Desde então, todo o Egito recusou obediência à Calcedônia e rompeu a unidade da Igreja, aderindo à doutrina monofisita de Dióscuro e condenando tanto o Papa de Roma como o Patriarca de Constantinopla. Nos séculos VII e VIII, a rápida propagação do Islã pelos territórios das várias igrejas separadas entre o Nestorianismo e Monofisismo, na Pérsia, Síria e Palestina, acentuou ainda mais a divisão e o desprezo da Igreja Imperial, que representava uma cultura greco-romana estrangeira.

AFASTAMENTO ENTRE CONSTANTINOPLA E ROMA

Quando, na noite de Natal do ano 800, o papa Leão III consagrou Carlos Magno imperador do Ocidente, alargou-se a distância entre o Império Bizantino e o Ocidente. Com a divisão dos impérios, deu-se também a divisão do Cristianismo em ocidental e oriental. Para os bizantinos, a coroação de Carlos Magno como imperador era um ato de arrogância e sacrilégio. Da divisão do Império nasceu também a divisão, cada vez mais acentuada, entre os cristãos de um e de outro império.

A grande controvérsia que levou a um cisma momentâneo entre Roma e Constantinopla envolveu o Patriarca Fócio e o Papa Nicolau I, em 868. Fócio tinha sido nomeado patriarca após a renúncia (forçada) do Patriarca Inácio. Partidários de Inácio enviaram falsas informações a Roma e, com base nelas, o Papa Nicolau I depôs e excomungou Fócio. Em Constantinopla, Fócio acusou os latinos de uma série de erros teológicos e disciplinares, com base nos quais, excomungou o próprio Papa.

A excomunhão não chegou a alcançar o Pontífice, que havia falecido antes de ouvi-la. Durante alguns anos, a situação do Patriarcado e do próprio Império permaneceu oscilante e Fócio foi reabilitado no seu posto. O cisma terminou quando o patriarca sucessor de Fócio restabeleceu a unidade com Roma. Mas, a chaga aberta da separação iria ter a repercussão mais grave no século XI com o grande e definitivo cisma que até hoje separa o Oriente do Ocidente.

(O cisma definitivo entre Oriente e Ocidente
será matéria da próxima edição)

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