Revista "MUNDO e MISSÃO"

História

Aparentemente bem diferente do protótipo tradicional da mulher islâmica, tão divulgado pela mídia nos últimos, esta marroquina, que entrou clandestinamente na Itália, mostra-se satisfeita com sua nova vida

Fui recebida por Fátima num bom apartamento na zona central de Milão. A acolhida foi calorosa, com refrescos e música, apesar de uma visível apreensão de falar com estranhos. Sossegava-lhe o fato de tratar-se de uma revista brasileira, portanto, bem distante de seu mundo e de possíveis represálias. De qualquer modo, a primeira coisa que me pediu foi que não tirasse fotografias e que não fosse revelado o nome de sua família.

Fátima tem 28 anos e nasceu em Beni- Mellal, pequena cidade da zona rural marroquina. Não se expressa mal em italiano, mas seu vocabulário ainda é pobre e seu sotaque bem marcado. Nada de xador ou véus, mas calça comprida, blusa decotada e meio transparente, maquiagem completa. É uma mulher bonita e parece ter consciência disso. Mostra-se atenta para poder responder bem e, de início, reservada em tecer comentários críticos sobre o próprio país. O tom da conversa, todavia, foi mudando e manteve-se confidencial, até que começamos a falar de política.

A história de Fátima é semelhante à de tantas mulheres que trocaram seu país pela Itália, sua situação de pobreza e limite pela possibilidade de ser livre e decidir a própria vida.

Na pequena cidade em que vivia com sua família, conseguiu estudar até os 13 anos porque os pais achavam que não era importante, visto que seu destino era o casamento. Assim, casou-se aos 20 anos, mas não deu certo porque o noivo gostava de uma outra moça, mas, como não tinha dinheiro, não podia decidir com quem se casar. A separação veio não muito tempo depois e, com ela, a realidade do desemprego. Só no campo havia oferta de trabalho e o salário era baixíssimo. Na cidade, a situação não é muito melhor: uma vendedora de loja, trabalhando 9 horas por semana, ganha 50 dólares ao mês, cerca de 150 reais.

Diante do desânimo, a mãe de Fátima sugeriu-lhe que fosse para a Itália, onde já estava sua irmã, casada com um italiano. O conselho foi rapidamente aceito e ela partiu como clandestina.

PODER DECIDIR A VIDA

O primeiro trabalho foi num restaurante, lavando pratos. O segundo, o terceiro e os outros também. Toda as vezes que alguém começava a dar muitas ordens, ela mudava de emprego, sentindo-se completamente feliz e livre de poder decidir sua vida, sem ter que obedecer às imposições que lhe vinham de sua situação econômica e do fato de ser mulher.

Para Fátima, uma das melhores vantagens de estar na Itália vem da possibilidade de poder trabalhar: "Posso escolher onde e como trabalhar e sei que vou ganhar um salário digno que me permite viver. Não há diferenças gritantes entre as pessoas. Além disso, posso ir ao médico e sei que ele vai cuidar de mim; posso vestir a roupa que quiser e ninguém vai falar mal de mim; posso sair com um homem e não vão achar que sou desonesta".

Nesse momento da entrevista, o tom começa a mudar um pouco e os elogios, anteriormente feitos à família e ao país, parecem um pouco exagerados. E ela se lembra com certa mágoa da vez em que foi ao posto médico do governo e quase morreu, porque lhe deram o remédio errado, o único remédio que tinham. Lembra-se também de que não podia conversar em público com nenhum homem, muito menos sair com ele, porque as pessoas já diziam que era prostituta. E com uma prostituta ninguém quer se casar. Foi por isso que teve que parar de estudar cedo: para ser uma moça recatada, que não falasse com homens, que não soubesse nada da vida. Foi por isso que seu marido não pôde se casar com a moça de quem gostava ...


Mulheres marroquinas comemorando o direito ao voto

Outro fator que a levou a escolher a Itália como terra de salvação foi porque ali, "quando pegam um imigrante clandestino, sem documentos, nunca o mandam de volta para seu país". Talvez por conta disso a Itália venha recebendo refugiados e clandestinos de todas as partes, agravando os problemas de emprego, moradia e ... criminalidade.

Entre as lembranças que Fátima parece querer esquecer está a influência da família na vida dos jovens. Os filhos de famílias não ricas são constrangidos a aceitar a vontade dos pais, porque, como não têm dinheiro nem casa, também não têm direitos. A situação financeira comanda a vida, as escolhas, a felicidade.

LONGE DAS MESQUITAS

Quando comecei a perguntar-lhe sobre sua religião, Fátima pareceu-me fria e indiferente. Quase pensei que tivesse se convertido. Aliás, convertido é o homem com que está casada agora, um pequeno empresário italiano, a quem ela ajuda, trabalhando esporadicamente como digitadora. Fátima é sua segunda esposa muçulmana. A primeira foi devolvida aos pais porque o ex-católico não agüentou a mulher que queria cumprir fielmente os preceitos de sua religião, sobretudo os momentos dedicados à oração. Isso implica muitos cuidados, como lavar as mãos e os pés e tomar banho completo, se teve relações com o marido, antes de rezar.

Fátima não critica os costumes, o distanciamento que a religião impõe às mulheres, como o fato de não poder rezar quando estão menstruadas nem quando deram à luz. Todavia, ela não vai mais à mesquita, nem reza em casa, pratica muito pouco. A palavra fé
não entrou na conversa e parece distante da questão religiosa. Questionada sobre os jovens e a religião, Fátima afirmou que "eles não querem mais seguir o islã, mas seu desejo é transformar o país numa democracia livre e aberta". Quem fez a ligação entre religião e política?

E A FELICIDADE?

Hesitei muito em perguntar-lhe sobre a felicidade e, quando toquei no assunto, ela se esquivou várias vezes e resolveu até falar da Arábia Saudita, onde as mulheres têm pouca liberdade e são até mortas se saírem sozinhas com um homem que não seja seu marido, onde os homens com dinheiro buscam, fora do país, relações extraconjugais. Usava a Arábia para comparar com o Marrocos, para dizer que em seu país as coisas não eram tão ruins, mas também porque é da Arábia que saem programas de televisão por assinatura que defendem o mundo islâmico, buscando isolar a religião da política, mas fomentando o desprezo aos israelenses e a defesa dos palestinos.

Percebi que a conversa estava se desviando para um caminho mais perigoso. Não insisti e voltei à felicidade: o que a fazia feliz? A resposta veio em voz baixa, com os olhos desviados dos meus. Fátima parecia esquecer que tinha uma nova vida, em outro país: "No Marrocos, a mulher feliz é aquela que tem um marido bom, que a sustenta, que providencia tudo para casa, que não bebe, que não vai com outra, que não bate na esposa. Aqui, eu só quero viver com meu marido, sem a interferência da família". Creio que entendi o que quis dizer.

A entrevista terminou com a chegada do marido que entrou nervoso e quase gritando, sem ligar para minha presença em sua sala. Foi minha vez de ficar sem graça e assustada. Fátima deu-me um sorriso de desculpa e acompanhou-me até a porta.

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