Revista "MUNDO e MISSÃO"

História

Transmitida de geração em geração pelos índios iroqueses que habitavam o Nordeste
dos Estados Unidos, esta lenda revela o quanto o medo acomoda as pessoas naquilo que parece inevitável. No entanto, como em tantas outras tradições, a presença feminina traz a solução necessária: enfrentamento corajoso e astúcia para vencer o objeto do medo.

ontavam os antigos iroqueses que, naqueles tempos em que os colonizadores ainda desconheciam as terras selvagens e frias em que eles habitavam, havia uma figura terrível e monstruosa que lhes atormentava as noites mais sombrias, em que a Lua se escondia atrás das nuvens espessas. Era a Cabeça Voadora.

Tratava-se de uma grande cabeça suja, com uma enorme e assustadora boca, cabelos horripilantes e asas que a levavam por toda parte. Seu objetivo era espalhar o terror e a violência: sobre qualquer pessoa, sem nenhum motivo ou critério de escolha, ela se abatia com truculência, apavorando homens e animais com seu rugido tenebroso que ecoava noite a dentro. E assim continuava aquele ritual de pavor noturno, perpetuando-se como uma tradição indesejada e infeliz.

Não havia nada a fazer. Certa vez, porém, uma jovem iroquesa, cansada daquelas visitas da Cabeça Voadora e de seus nefastos efeitos sobre toda a tribo, especialmente, sobre as crianças, resolveu que já era hora de acabar com aquilo. Naquela mesma noite, o monstro voltou, bem na hora em que todos estavam reunidos na tenda comunitária. E, como sempre, todos fugiram o mais depressa possível. Com seu bebê no colo, a jovem foi a única a não se mexer.

Depois de buscar novas vítimas, a Cabeça retornou à tenda, ainda mais furiosa por ter sido desafiada. Quem ousava não fugir de sua presença terrível? Silenciosa e sedenta de vingança, viu a jovem mãe, com seu filho no colo, sentada próxima ao fogo.

Falava baixinho com a criança e parecia comer pedaços de brasa que elogiava como um delicioso manjar. A Cabeça, em sua raiva cega, não percebia que a mulher jogava as brasas sem engoli-las, e quis fazer o mesmo para desfrutar de tão grande prazer humano.

Assim, entrou desastradamente na tenda e aproximando-se do fogo, comeu com avidez todas as brasas que sobraram. Por toda a aldeia só se ouviam os urros desesperados do monstro. E toda a noite assim foi. Mas a Cabeça Voadora nunca mais retornou à tribo dos iroqueses.

Adaptação de Patrizia Bergamaschi

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