Revista "MUNDO e MISSÃO"

História

por Patrizia Bergamaschi

hovia. Chovia como em quase todas as noites daquele dezembro tropical. As luzes e os barulhos começavam a esmorecer, deixando um rastro de fadiga, que a madrugada não conseguiria apagar das calçadas paulistanas. E foi nessa noite de chuva morna que João Taxibé, nordestino, de muito sangue índio, chegou à cidade. Veio para trabalhar no metrô: a nova linha precisava ser concluída antes da próxima eleição.

Veio para trabalhar, mas chegou antes do tempo: não tinha um endereço, não conhecia uma pessoa. Trazia só uma mochila de cor forte, bem com jeito de sol, onde guardava a camisa branca - "Os paulista gosta, fio", dissera a mãe conformada com os muitos caminhos que os separariam, o chinelo de couro de cabra, as camisetas coloridas, o quadro espelhado de Nossa Senhora Aparecida, presente da irmã, para ele não esquecer de casa.

Por conta dessa pressa angustiada, João veio correndo, deixando família "pobre, mas honesta, viram?" e nem se lembrou de que logo seria Natal. A festa só voltou-lhe à memória, quando se viu perdido na cidade, com vergonha de pedir ajuda e passar por nordestino bobo, com receio de gastar as quatro notas de vinte que escondera no sapato, com um friozinho aborrecido pela roupa molhada, com aquele gosto incerto de tristeza que começava a se instalar.

Perambulou pelas ruas, buscando abrigar-se sob as marquises. Ficou até com vontade de sentar-se à entrada de uma dessas portas grandes e fechar um pouco os olhos secos de tão abertos, mas muita gente miserável já se instalava. João sentiu medo e sentiu vergonha de sentir medo. E como não havia lugar para ele nas escadarias, voltou a caminhar e perdeu a noção do tempo que caminhara. Enfim, totalmente exausto, conseguiu sentar-se sob um viaduto ao lado de um canteiro de obras do metrô.

Ali não havia mendigos e, sozinho, desafogou-se em lágrimas. Lembrou-se do presépio de sua casa, com figurinhas toscas de barro, dos beijos estalados que ele dava na cabeça achatada do menino Jesus, das vaquinhas de todas as cores (que gosto teria carne fresca?), das flores miúdas que a avó recortava para enfeitar as lamparinas. Já estava quase decidido a pegar o ônibus de volta e esquecer aquela história de "ficar rico em São Paulo", quando ouviu choro de criança nova.

Pensou que delirava, mas um sobressalto doído no peito repetia-lhe o nome do Salvador. Sacudiu a cabeça para afastar o sonho maluco. O choro miúdo voltou a insistir em seus ouvidos desconfiados e de tal forma, que ele se virou para procurar de onde vinha. Bem no alto do paredão sob o viaduto, João viu luzes e descobriu um buraco. Entrou hesitante: ali, junto a um homem que dormia ao lado de uma pá e de uma grande tesoura de jardineiro, uma mulher, ainda bem nova, amamentava um nenê pequeno.

Quando João balbuciou qualquer desculpa, a moça sorriu, identificando-se com o sotaque cantado. E João Taxibé sorriu, com medo de entender tudo e de sentir que seu coração explodia, porque nele acabara de nascer uma estrela...


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