Revista "MUNDO e MISSÃO"
História
O ódio encapuzado por Pedro Miskalo
Uma das idéias mais divulgadas ultimamente é essa: o ódio é reação a uma ameaça. Segundo essa corrente, o fanatismo ocorre quando o grupo social, geralmente minoritário, sente-se ameaçado, e considera que essa ameaça coloca em risco sua cultura, religião ou privilégios territoriais e econômicos. As civilizações sempre acolheram grupos de “iniciados” em associações ocultas por uma aura de mistério. Os segredos das pirâmides; a doutrina místico-religiosa dos druidas na atual Irlanda e dos essênios em Qumran, nas encostas do Mar Morto; a Cabala judaica, baseada em princípios de Zoroastro; os Templários, uma “milícia de Deus” na Europa do século 11; a Maçonaria francesa e a Ordem Rosacruz.... A Ku Klux Klan, no atual Alabama. KU KLUX KLAN (KKK) O nome é estranho. Parece ter-se originado da palavra grega kyklos (círculo), à qual se acrescentou klan (clan = raça, clã). Seus membros fariam parte de um círculo; portanto, de um clã fechado, secreto. A KKK nasceu em 1867, dois anos após o fim da Guerra da Secessão, quando um grupo de confederados brancos de Nashville, derrotados, para vingar sua ruína, assustavam os ex-escravos negros. (A abolição da escravidão ocasionara a guerra e a conseqüente derrota sulista).
No início, era um movimento como o das atuais gangues metropolitanas. Rapidamente ganhou força ideológica, que resultou na prisão de seus membros. A entidade sofreu o golpe, mas sobreviveu. Em razão de atentados racistas, que se tornaram acintosos, a entidade foi abolida em 1877, para ressurgir em 1911, de uma “visão” de Willian J. Simmons, em Atlanta, na Geórgia. Quatro anos após a visão, Simmons e quinze amigos subiram a Stone Mountain, perto de Atlanta, na noite do Dia de Ação de Graças e construíram um altar de pedras, onde colocaram: a bandeira americana, a bíblia, uma espada e um cantil. Ao lado, erigiram uma cruz de madeira e atearam-lhe fogo. Iluminados pelas chamas, juraram fidelidade ao Império do Invisível, como Cavaleiros da Ku Klux Klan. Atlanta se tornou a sede administrativa da entidade, enquanto Stone Mountain se transformava em sede espiritual. Três anos depois, suas fileiras contavam com 1.500 homens de Alabama e Geórgia. Em junho de 1920, o jornalista E.Y Clake recebeu plenos poderes para reconstruir a organização. Extremamente radical e protestante conservador, ele definiu as normas para os adeptos, mobilizando-os e norteando-os contra negros, judeus e estrangeiros. A Igreja católica era um alvo secundário de sua antipatia. Sob o senso de organização de Clake, a expansão da entidade foi fulminante. Em 1922, a KKK contava com um milhão de membros. Mas perdeu forças às vésperas da grande depressão econômica de 1929. Recuperou-as novamente na década de 1960, quando se opôs à política democrata de integração racial de Kennedy e, depois, de Lyndon Johnson (1963-69).
Todos, com as mesmas características e inimigos comuns: negros, judeus, latinos, católicos. Além de intimidar, alguns desses grupos esfolaram, enforcaram e queimaram “inimigos”, principalmente negros do Alabama, onde as organizações obtiveram maior evidência. Casas e igrejas foram saqueadas e incendiadas. Apesar dos movimentos pacifistas, a viúva de uma vítima da KKK declarou recentemente, em um programa de televisão: “O racismo faz parte da cultura americana e é tão normal quanto a torta de maçã”. Hoje a Ku Klux Klan está nas nossas casas, firme e forte, via internet. A KKK NA INTERNET
Como os seus pares neonazistas da Europa, também a KKK americana descobriu o enorme potencial de comunicação e de propagação de idéias, que é a internet. O seu site nasceu e proliferou, gerando uma infinidade de outros, alguns no nosso país. Uns mais racistas, outros menos. Todos, no entanto, apregoam sua superioridade racial e a necessidade de “limpeza étnica”, através de linguagem dúbia, mais ou menos assim: “não somos racistas, só não queremos negros por perto”. Ou então: “respeitamos a religião judaica, apesar de ser diabólica”. E assim por diante. O Credo dos Cavaleiros da Ku Klux Klan do Texas pontifica: “Nós, a KKK, reverentemente reconhecemos a majestade e a supremacia de Jesus Cristo e reconhecemos sua bondade e divina providência. Erguemos nossos rostos para Deus, nosso pai, reconhecendo que este país foi fundado como uma nação Branca sob seus propósitos, tais como revelados na Sagrada Escritura” (texasknights.com). Segundo o Centro Simon Wiesenthal, existem mais de 2.400 sites que disseminam o ódio racial. COMO REAGIR? Francisco Oliveira, editor-chefe da revista “Raça”, declarou ao site Varsóvia Online: “O mundo está ‘internetizado’. Como a internet é porta aberta a todos, as pessoas vão entrando nessas pequenas ilhas e vão disseminando o ódio, essa ignorância. Mas, eu acho que isso não vai se difundir, mesmo porque, quando você tem um foco de doença, você já cria mecanismos para combatê-la. Os próprios usuários, cuja maioria procura a internet de forma inteligente, para obter informação, trocar idéias, vão combater isso.
Para cada depoimento neonazista, (é preciso) mostrar que o mesmo quer destruir uma comunidade e, depois, a sociedade. A única maneira de contra-atacar é com a verdade. Para cada site sobre racismo, a gente deve propagar a tolerância, a democracia e o pluralismo”. O BRASILEIRO DISCRIMINA? O racismo nos remete à idéia de superioridade racial. Já o preconceito vai além da questão étnica ou da cor da pele. Quando alguém vê um pobre dormindo na rua e deduz que todo pobre é vagabundo, está sendo preconceituoso, porque generaliza. E um dos pecados freqüentes é a generalização: “os políticos são corruptos... os portugueses, burros... os negros, ladrões... os nordestinos, favelados...”, e os exemplos se multiplicam. Quando o sujeito é flagrado por um negro ou português, no meio de uma piada, dá-lhe um tapinha nas costas e um sorriso amarelo:
É a segunda maior população negra do mundo, só inferior numericamente à população do mais populoso país africano, a Nigéria”. A pesquisadora Elza Berqui afirma que a miscigenação racial atingiu 21% no Brasil, em comparação com os Estados Unidos, onde ela ficou em torno de 4%. Com esses números, vendemos a imagem externa de uma “democracia racial”. No entanto, nossos cidadãos negros são minoria, se entendermos por “cidadão” aquele que usufrui dos benefícios sociais. NEONAZISTAS BRASILEIROS Os grupos mais organizados são os “White Power” (poder branco) e os “Skinheads” (carecas), cujas idéias estão mais próximas da cultura brasileira do que, por exemplo, as da KKK, tipicamente ianques. Apesar do “Imperial Klans of Brazil” manter site brasileiro, os brasileiros da KKK ainda não conseguiram um espaço muito corrosivo na internet. Os “Carecas do ABC” não cultivam o ódio contra os negros, embora sejam radicalmente contra homossexuais, judeus e nordestinos. Já os membros do “White Power” rejeitam também os negros. Além das agressões físicas, tais grupos difundem seu ideário de ódio através de panfletos e da internet. Orkut, uma ferramenta da Google (www.orkut.com), é um site de relacionamentos que permite ao internauta ter, a um clique do mouse, uma lista de amigos e comunidades com perfis semelhantes. Muito comentado pela mídia brasileira, o Orkut também tem seu lado sombrio, pois reúne comunidades virtuais racistas e xenofóbicas contra nordestinos, velhos, argentinos, excluídos. E divulgam, por exemplo, idéias de como “matar índios”, “expulsar baianos”, “curtir crianças”, “criar organizações nazistas”. “Grupos nazistas no Orkut agregam mais de mil integrantes”, relata a Agência Repórter Social. A mesma Agência assegura que milhares de pessoas incentivam a proliferação de sadismo e de ódio à criança (www.reportersocial.com.br). Conforme a Polícia Federal, o site não pode ser punido, por ser hospedado nos Estados Unidos. Ironicamente, as regras do próprio Orkut prevêem a exclusão de material ofensivo à raça, etnia, religião, sexo. Recente relatório da ONU alerta nosso governo: “Apesar da ocorrência generalizada de ofensas de discriminação, as leis domésticas são raramente aplicadas”, informa a Agência Estado. A ONU pede maior controle sobre as organizações racistas e o uso da internet. E insiste: “o governo terá de se esforçar mais, se quiser reduzir as desigualdades raciais no país”. É ver para crer!r si mesma, a condição para merecer o Paraíso. |
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