|
A história do papa bom
Ernesto Arosio
CRONOLOGIA
· 1881 - O futuro papa João XXIII nasce no dia 25 de novembro,
em Sotto il Monte, uma cidadezinha ao pé das montanhas dos Alpes,
numa família de lavradores e recebe o nome de Ângelo José
Roncalli.
· 1892-1900 - Estuda no seminário de Bergamo.
· 1901 - Cumpre o serviço militar obrigatório.
· 1904 - Enviado a Roma para estudar teologia, é ordenado
sacerdote em 10 de agosto, tornando-se, em seguida, secretario particular
do bispo de Bergamo.
· 1921 - Em 18 de janeiro, assume a presidência do Conselho
de Propaganda Fide para a Itália, secretariado do Vaticano que
coordena toda a atividade missionária da Igreja católica
no mundo.
· 1925 - Em 3 de março, é nomeado visitador apostólico
na Bulgária e, no dia 10 de março, é sagrado bispo.
No mês de abril, chega a Sófia, capital de Bulgária.
· 1934 - Em 24 de novembro, é transferido para a Delegação
Apostólica da Turquia e da Grécia, em Istambul.
· 1944 - Em 22 de dezembro, é nomeado núncio apostólico
da França.
· 1953 - Em 12 de janeiro, é eleito cardeal-patriarca de
Veneza.
· 1958 - Em 28 de outubro, é eleito papa e escolhe o nome
de João XXIII.
· 1962 - Em 25 de janeiro, anuncia o Sínodo da diocese de
Roma e o XXI Concílio Ecumênico (Vaticano II) que é
instalado em 11 de novembro de 1962 em Roma.
· 1963 - Falece em Roma, no dia 3 de junho.
A casa natal de João XXIII ainda chama os devotos que acorrem
em massa para visitar essa humilde morada de camponeses que deu aos nossos
tempos um personagem, responsável pelo início de uma profunda
mudança na Igreja e no mundo. Um de seus sucessores, João
Paulo II, com as mudanças políticas, a queda do comunismo,
o fermento dentro da Igreja e os novos movimentos religiosos, alargou
os limites dessas mudanças que se refletem ainda hoje em todos
os lugares.
Mais de 800 mil pessoas visitam anualmente essa relíquia de um
homem que, na simplicidade mas também na argúcia, se tornou
um dos papas mais amados. Não foi por acaso que foi chamado de
o papa bom.
O papa que, freqüentemente, sem ser percebido, deixava o palácio
do Vaticano, para conhecer a Roma dos pobres, já dizia no discurso
de sua posse como cardeal de Veneza: "Venho da humildade e fui educado
para uma pobreza satisfeita e bendita que tem poucas exigências,
que protege o florescer das virtudes mais nobres e mais altas e prepara
para as elevadas ascensões da vida. A Providência me tirou
da minha aldeia natal e me fez percorrer os caminhos do mundo no Oriente
e no Ocidente, aproximando-me de pessoas de diferentes religiões
e ideologias, em contato com os problemas sociais agudos e ameaçadores
e conservando-me a calma e o equilíbrio do aprendizado, sempre
preocupado mais em unir do que separar e suscitar contrastes".
Esse discurso já é um programa de vida, construído
em muitos anos de experiência, fruto da junção da
simplicidade da vida camponesa e de sua bondade e virtudes humanas. Por
isso, ele se tornou amado pelo povo e estimado também pelos não
católicos.
Sua vida de padre, bispo, diplomata, delegado apostólico em terras
de grandes contrastes, de cardeal e de papa está repleta de casos
que mostram seu caráter.
Quando foi a Milão para acompanhar os restos mortais do fundador
do Pime, dom Ângelo Ramazzotti que iam ser transladados para a igreja
da Casa Mãe do Pime, fomos acompanhá-lo com toda a pompa
a que um cardeal tinha direito pelo protocolo: com incenso, velas e cortejo.
Ao terminar a cerimônia, devia ser reconduzido aos seus aposentos
com todas essa pompa, mas ele, quebrando o protocolo, mandou apagar vela
e incenso e ficamos conversando, como se fosse um velho amigo, num diálogo
ameno e alegre, rico de histórias. Embora fôssemos estudantes
de Teologia, sentíamo-nos à vontade com ele.
Era o camponês que aceitava as pompas que ainda dominavam a vida
dos altos escalões eclesiais, mas não vivia escravo delas.
Gostava mais de uma boa conversa que da rigidez das cerimônias.
Naqueles tempos, isso deixava admirados os ouvintes e escandalizados os
mestres de cerimônia e os amantes das pompas, mas ele era assim.
No dia 3 de setembro deste ano, trinta e sete anos após sua morte,
ele foi beatificado, fato bastante raro na história das beatificações
e, até agora, ainda não se levantou nenhuma voz que se opusesse
a essa precoce beatificação de Roncalli.
Os fatos e a vida
Não pretendemos aqui escrever a biografia do papa, tarefa impossível
de ser feita em poucas linhas, mas somente salientar o lado humano dessa
figura que, chegando a tão alto cargo, nunca rejeitou as suas raízes
de membro de uma família de camponeses do século passado,
que tinha uma vida dura e uma disciplina férrea para sobreviver
e educar os treze filhos.
Sua configuração física dava-lhe um semblante alegre
e risonho. Nada de diáfano, hierárquico ou aristocrático,
como seu predecessor Pio XII. João XXIII era uma figura humana
afável, um homem plácido, que dormia - como ele mesmo afirmava
- com sonhos tranqüilos, porque quem dirige a Igreja não era
ele mas o Espírito Santo.
Numa foto oficial de protocolo onde aparece ainda com o barrete de veludo
vermelho bordado em branco, calcado numa maneira pouco aristocrática,
o papa respondeu a quem queria corrigi-lo que assim era melhor, porque
o barrete lhe esquentava as orelhas.
Mas também foi o papa que, pela primeira vez na história
da Igreja, introduziu reformas que assustaram os tranqüilos conservadores,
bispos, cardeais e fiéis, acostumados demais com uma Igreja em
que nada ou quase nada mudava. O lema a Igreja é eterna era jocosamente
aplicado também a essa sua imobilidade. Com papa Roncalli, as coisas
começaram a mudar e a Igreja, após seus quatro anos de pontificado,
não era mais aquela, mas vibrava interiormente de fermentos e forças
latentes abafadas até então. Dizia-se, nos tempos do Concílio,
que o papa queria abrir umas janelas para arejar a Igreja mas, de fato,
foi um escancarar de ja-nelas e portas assustando muita gente e causando
crises em quem pensava que a Igreja fosse monolítica e que a fé,
o direito canônico e as tradições fossem uma coisa
só.
Pela primeira vez, entrava no Colégio cardinalício, a mais
alta representação da Igreja católica, um cardeal
negro, Rugambwa, da então Tanganica, atual Tanzânia. Foi
João XXIII que beatificou o primeiro santo mulato, são Martinho
de Porres, do Peru; que tirou dos missais os impropérios contra
os judeus e iniciou os contatos com todos os que conseguiam entender sua
boa vontade para superar quatro séculos de ódio e incompreensões
entre os cristãos, que eram chamados de "separados",
e que daí em diante se tornariam "irmãos". Quando,
pela primeira vez, após séculos de indiferenças,
o primaz anglicano, Geoffrey Fisher, saudou o pontífice, disse:
"Santidade, faz quatro séculos que não nos encontramos".
O Concílio Vaticano II
A grande novidade, porém, foi a convocação do Concílio,
que chegou como um bomba também para os seus colaboradores mais
íntimos e que o próprio João XXIII teria definido
como um "vespeiro".
Não somente o Concílio assustou, mas também, no começo,
foi encarado com certa leviandade: o New York Time, por exemplo, escreveu
maliciosamente que na Igreja "tudo era igual ao Soviet Supremo de
Moscou: mudar para ficar igual". Por parte de algumas autoridades
eclesiais conservadoras, houve tentativas de "redimensionar o Concílio",
dizendo que isso era "um problema interno da Igreja católica"
e não interessava ao mundo. As comissões que foram formadas
para a preparação também achavam que tudo não
passaria de uma parada, uma apresentação de uma lista de
temas previamente discutidos por elas e que, com uma votação
final, tudo estaria resolvido. Vários jornais escreveram que o
Concílio era, de fato, coisa interna da Igreja e que nada causaria
ao mundo nem mesmo à própria Igreja.
João XXIII, porém, não o entendia assim. Instituiu,
logo em seguida, o Secretariado pela Unidade da Igreja e enviou convites
às Igrejas cristãs separadas para que enviassem observadores
ao Concílio. Algumas Igrejas, desconfiadas, ignoraram os convites,
mas outras participaram enviando seus representantes, iniciando-se assim
o diálogo ecumênico, hoje tão natural e profícuo
entre as Igrejas cristãs.
Havia, de fato, bastante confusão nas altas esferas da Igreja,
tanto que, pouco antes da indicação do Concílio,
saiu até um decreto pelo qual o latim não somente continuava
como língua litúrgica oficial da Igreja católica,
mas o idioma com o qual se ensinaria teologia nos seminários. Este
decreto ficou só no papel.
A história recente demonstrou e demonstra a contradição
dessas curtas perspectivas de pessoas que não souberam antever
as mudanças não só dentro da Igreja, mas de toda
sociedade. João XXIII, que foi julgado um papa de transição
na espera de outro mais jovem, em poucos anos, revolucionou totalmente
a Igreja e, hoje, após 48 anos da sua indicação,
ainda estamos vivendo muitas mudanças iniciadas por ele.
Podemos até duvidar que papa Roncalli adivinhasse ou previsse as
transformações pelas quais a sociedade iria passar, mas
permanece o fato de que o Concílio preparou a Igreja e os leigos
cristãos para viver e procurar soluções para uma
religião mais encarnada e atenta a seu tempo.
Nem tudo foi um sucesso. Houve até feridas profundas no tecido
da Igreja, mas para uma instituição bimilenar, ainda é
cedo para dar o veredicto final sobre a alçada do Concílio
Vaticano II, em suas implicações e conseqüências.
João XXIII que, apesar da sua bondade e fé na obra do Espírito
Santo, certamente acompanhava com ansiedade todos os passos do Concílio
que ele começou mas não conseguiu terminar, demonstrou sua
vontade férrea de lutar por um mundo mais humano após os
desastres de uma guerra tão violenta. Ficou célebre uma
frase do pontífice pronunciada em seu dialeto natal, numa noite
em que uma avalanche de pessoas e peregrinos, com velas nas mãos,
foram homenageá-lo debaixo de sua janela no Vaticano. O papa, diante
de tantas luzes, cantos e festas, mas cansado depois de um exaustivo dia
de trabalho, apenas disse: "continuemos a nos querer bem" (volemose
ben) e depois continuou: "agora, voltando para suas casas, ao encontrar
seus filhos, façam um carinho neles e digam que é a carícia
do papa".
O papa do mundo
Quando era delegado apostólico, Ângelo Roncalli, recém
ordenado bispo, foi enviado para a Bulgária em 1925. Os tempos
eram difíceis e mais ainda a situação daquele povo.
As populações católicas minoritárias na Macedônia,
expulsas por grupos islâmicos que lhes tomavam as terras, procuravam
refúgio na Bulgária e eram abandonadas a si mesmas. O primeiro
trabalho do futuro papa foi ajudar e organizar essas populações
em busca de paz e trabalho. Transferido para a Turquia e a Grécia,
encontrou situações ainda mais dramáticas.
Poucos meses antes de sua chegada a Istambul, o governo turco tinha decretado
que os sacerdotes de qualquer religião não podiam usar as
vestes eclesiais nem exercitar suas funções fora das igrejas.
Na Turquia, influenciada pelo laicismo do estado de Kemal Ataturk, o governo
não reconhecia a existência de uma representação
pontifícia, nem dom Roncalli como diplomata, tanto que o delegado
apostólico devia ser cuidadoso em sua ação diplomática,
para não ferir a sensibilidade do governo ou ser denunciado por
violar alguma lei. Nos dois países, era proibido qualquer ato que
parecesse fazer propaganda religiosa; além disso, havia uma forte
desconfiança em relação aos católicos romanos
e seus representantes. Dom Ângelo Roncalli soube, com caridade,
prudência e paciência, fazer-se aceitar e aplainar muitas
dificuldades, procurando incentivar relações amigáveis
entre as autoridades das várias religiões que, naqueles
tempos, eram inimigas radicais.
Gostava de visitar mosteiros e igrejas ortodoxas para conhecer toda a
riqueza espiritual que lá existia, representada pelos ícones
e pela arte tão característica.
Por ocasião da morte de Pio XI, conseguiu reunir para a missa de
sufrágio todas as autoridades religiosas cristãs ortodoxas
e as cinco bênçãos ao túmulo, como mandava
o ritual na ocasião, foram dadas por quatro representantes dos
ritos orientais junto com ele. Hoje, acostumados ao ecumenismo, esses
gestos nos parecem de pouca importância mas, naqueles tempos, marcavam
o início de um diálogo muito importante.
Durante a guerra, como representante do papa, ele conseguiu que se declarasse
Atenas, como Roma e Florença, cidade aberta, isto é, cidade
que devia ser respeitada pelos exércitos em conflito, evitando-se
nela confrontos bélicos, especialmente os bombardeios que poderiam
destruir irremediavelmente grandes tesouros artísticos que pertenciam
à Grécia, mas que também eram patrimônio de
toda humanidade. Conseguiu livrar da deportação judeus que
eram caçados pelos nazistas e, durante o sítio da armada
inglesa ao porto de Atenas, obteve a permissão para que deixasse
um corredor livre pelo qual passariam víveres destinados à
população grega faminta.
Sua permanência em Paris, como núncio apostólico não
foi diferente: quando surgiu o movimento dos padres operários,
que despertou certas desconfianças, Roncalli manteve sempre uma
atitude de prudente espera, de modo que a experiência pôde
continuar e ainda continua, inclusive em outros países (ver Mundo
e Missão n.44). Um dos princípios que o núncio repetia
era que "sem um pouco de santa loucura, a Igreja não aumenta
as suas tendas".
O ecumenismo prático
Em Veneza, o patriarca Roncalli vivia uma vida modesta, sem pompa e sem
barreiras formais entre ele e o povo. Costumava passear com seu secretario
pelos canais de gôndola, típica barca veneziana, para conhecer
a cidade, fazer amizade com os gondoleiros ou conversar com as mulheres
e crianças que brincavam nas ruas.
Mandou avisar nas igrejas que o cardeal-patriarca estava à disposição
de todos, sem formalidades. Um jornal da época relata que "recebia
a todos sem nenhuma diferença, fosse autoridade ou o mais esfarrapado
mendigo".
Em Veneza, que durante séculos foi porta do Oriente, o patriarca
dedicava-se ao ecumenismo, especialmente com os irmãos ortodoxos,
repetindo que "o caminho para a unidade das várias confissões
cristãs é a caridade tão pouco observada de uma ou
outra parte".
O papa inesperado
A eleição do cardeal Roncalli foi uma surpresa para todos.
A opinião pública e os jornais apontavam, como provável
pontífice, o arcebispo de Milão, João Batista Montini,
futuro papa Paulo VI, que ainda não era nem cardeal. Jornalistas
faziam vigília diante da casa do arcebispo em Milão, na
espera que este fosse chamado a Roma. Poucas pessoas citavam o cardeal
de Veneza, já idoso, entre os eventuais papáveis, mas ele
foi o escolhido, passando para a história não só
pela convocação do Concílio, mas pela coragem de
quebrar o secular protocolo pontifício.
"Inexperiente ou aprendiz" - como ele gostava de se definir,
continuou sua vida de oração e de dedicação
ao povo. Primeiramente, começou a romper o protocolo, abolindo
as fórmulas elogiosas à pessoa do pontífice, como
por exemplo, "alta e nobre palavra de Sua Santidade"; permitiu
ao povo visitar os jardins do Vaticano, durante seus passeios, parando
para conversar com jardineiros, guardas e turistas. Convidava, muitas
vezes, amigos e autoridades, de maneira informal, a repartir suas refeições,
deixando sem jeito os funcionários do palácio, diante de
quem ele se justificava em tom de brincadeira que a "proibição
não estava escrita no Evangelho".
Às vezes, saía do Vaticano, às escondidas e disfarçado
de simples padre, para visitar paróquias, hospitais, prisões,
amigos e doentes e repetia que, ali no Vaticano, se sentia como um prisioneiro.
Ele queria libertar-se do sufoco das tradições centenárias,
herança dos tempos em que os papas reinavam no Estado pontifício,
e levou para o Concílio esse espírito, separando o que era
questão de fé - e portanto, imutável - daquilo que
era pura tradição humana - e portanto, fruto dos tempos.
Houve até quem duvidasse se o papa João tinha uma idéia
clara do andamento do Concílio ou se tudo não passava de
fruto desse espírito livre e espontâneo. Ele mesmo respondeu,
quando anunciou a intenção de convocá-lo, que isso
não era fruto amadurecido pela reflexão mas "uma flor
desabrochada espontânea, numa primavera inesperada"; em outro
discurso, referente ao Concílio repetia que "nós consideramos
a espontaneidade dessa inspiração na humildade da nossa
alma como um toque imprevisto e inesperado". Foi confiando que Deus
operava na sua Igreja, que o papa respondeu àquela inesperada inspiração,
antes de discutir como poderia ser realizada.
Por que João XXIII?
Quando o cardeal Roncalli escolheu o nome de João XXIII, revelou
logo que era um espírito simples, porém livre, que estava
acima das tradições da história e que algo estava
mudando na caminhada da Igreja.
Antes dele, 22 papas chamaram-se João: um até foi João
XXIII, mas sendo um antipapa (1414), acabou sendo deposto. Depois dele,
nenhum papa assumiu esse nome, talvez pelo medo de ser confundido com
o antipapa. O cardeal Roncalli, sem medo de futuros julgamentos histórico
ou de ser confundido, escolheu o nome João XXIII com toda tranqüilidade.
A desarmante cordialidade
Nos anos em que dom Ângelo Roncalli foi núncio em Paris,
sua cordialidade, modéstia e caridade repartiram-se entre todos,
sem discriminação de religião ou de autoridade. Declarou
abertamente que estava mais à vontade com um ateu ou um comunista
do que com católicos fanáticos.
Manteve contatos com homens de governo, também com os que eram
contrários à Igreja, conseguindo derrubar a prevenção
com conversas alegres, cheias de calor humano. Nas anedotas do núncio,
ficou conhecido o encontro com o embaixador russo, Borgomolov, durante
a guerra fria, período de estremecimentos diplomáticos após
a Segunda Guerra Mundial. No decorrer de uma recepção, o
embaixador encontrava-se isolado e de cara fechada e o núncio aproximou-se
e o abordou de maneira insólita no protocolo diplomático:
"Excelência, nós militamos em campos opostos, todavia
temos algo muito importante em comum: a barriga. Estamos de fato bastantes
barrigudos".
O sério embaixador russo começou a rir e a conversa foi
fluindo mais alegre.
Profundo e sereno conhecedor dos homens
Quando dom Ângelo Roncalli, nomeado patriarca de Veneza, deixou
a Nunciatura de Paris, já tinha conquistado a simpatia do povo
e das autoridades francesas. O discurso da despedida era, de direito,
do chefe da diplomacia francesa, Herriot, um radical com fama de anticlerical,
mas que não pôde deixar de reconhecer, em seu discurso, as
razões da simpatia conquistada pelo núncio Roncalli: "O
povo francês nunca vai esquecer a bondade, a delicadeza de comportamento,
as provas de amizades recebidas, tendo conhecido o núncio apostólico
não somente como diplomata, mas como um amigo que visitou a França
indo até as costas da África, estudioso de páginas
antigas - da nossa história- mas também profundo conhecedor
dos homens. O povo francês, embora com seus defeitos, deixou-se
seduzir pela bondade do coração do Núncio, este italiano
afrancesado que se abriu a nós tão cordialmente".
Na solenidade de entrega do chapéu cardinalício - sendo
o cardinalato um honra pessoal concedida pelo papa a uma pessoa -, a tradição
pontifícia consentia que a entrega da insígnia podia ser
realizada pelos chefes de países católicos. O ato da entrega
do chapéu cardinalício em Paris, no dia 15 de janeiro de
1953, foi marcado por uma cena inesquecível no mundo diplomático:
no momento em que o cardeal Roncalli se abaixava, quase de joelho, para
receber o chapéu, o presidente francês Auriol tentou se esquivar,
debaixo dos olhares fulminantes do chefe do protocolo e, curvando-se sobre
o cardeal, levantou-o, dizendo comovido: "Eminência, levante-se:
sou eu que devo me ajoelhar diante do senhor".
A desarmante cordialidade
Nos anos em que dom Ângelo Roncalli foi núncio em Paris,
sua cordialidade, modéstia e caridade repartiram-se entre todos,
sem discriminação de religião ou de autoridade. Declarou
abertamente que estava mais à vontade com um ateu ou um comunista
do que com católicos fanáticos.
Manteve contatos com homens de governo, também com os que eram
contrários à Igreja, conseguindo derrubar a prevenção
com conversas alegres, cheias de calor humano. Nas anedotas do núncio,
ficou conhecido o encontro com o embaixador russo, Borgomolov, durante
a guerra fria, período de estremecimentos diplomáticos após
a Segunda Guerra Mundial. No decorrer de uma recepção, o
embaixador encontrava-se isolado e de cara fechada e o núncio aproximou-se
e o abordou de maneira insólita no protocolo diplomático:
"Excelência, nós militamos em campos opostos, todavia
temos algo muito importante em comum: a barriga. Estamos de fato bastantes
barrigudos".
O sério embaixador russo começou a rir e a conversa foi
fluindo mais alegre.
Profundo e sereno conhecedor dos homens
Quando dom Ângelo Roncalli, nomeado patriarca de Veneza, deixou
a Nunciatura de Paris, já tinha conquistado a simpatia do povo
e das autoridades francesas. O discurso da despedida era, de direito,
do chefe da diplomacia francesa, Herriot, um radical com fama de anticlerical,
mas que não pôde deixar de reconhecer, em seu discurso, as
razões da simpatia conquistada pelo núncio Roncalli: "O
povo francês nunca vai esquecer a bondade, a delicadeza de comportamento,
as provas de amizades recebidas, tendo conhecido o núncio apostólico
não somente como diplomata, mas como um amigo que visitou a França
indo até as costas da África, estudioso de páginas
antigas - da nossa história- mas também profundo conhecedor
dos homens. O povo francês, embora com seus defeitos, deixou-se
seduzir pela bondade do coração do Núncio, este italiano
afrancesado que se abriu a nós tão cordialmente".
Na solenidade de entrega do chapéu cardinalício - sendo
o cardinalato um honra pessoal concedida pelo papa a uma pessoa -, a tradição
pontifícia consentia que a entrega da insígnia podia ser
realizada pelos chefes de países católicos. O ato da entrega
do chapéu cardinalício em Paris, no dia 15 de janeiro de
1953, foi marcado por uma cena inesquecível no mundo diplomático:
no momento em que o cardeal Roncalli se abaixava, quase de joelho, para
receber o chapéu, o presidente francês Auriol tentou se esquivar,
debaixo dos olhares fulminantes do chefe do protocolo e, curvando-se sobre
o cardeal, levantou-o, dizendo comovido: "Eminência, levante-se:
sou eu que devo me ajoelhar diante do senhor".
João XXIII e a visão da Igreja
Na abertura do Concílio, João XXIII expressou a imagem
de Igreja que ele queria que saísse do Vaticano II. Foi um discurso
contra "os profetas catastróficos que sempre anunciam eventos
cada mais calamitosos, como se o fim do mundo estivesse iminente".
Para a missão da Igreja, apresentou uma conotação
diferente, a da misericórdia, que ele mesmo vivia em relação
a todos: "Sempre a Igreja se opôs aos erros, às vezes,
condenou-os com a máxima severidade. No dia de hoje, todavia, a
Esposa de Cristo prefere fazer uso da misericórdia mais que da
severidade. Ela acha que deve ir ao encontro das necessidades atuais,
mostrando a validade de sua fé mais que as condenações".
|