Revista "MUNDO e MISSÃO"
História
E todos aqueles índios eram domésticos, isto é, como dizem por lá, eram camaradas de seu patrão. O que quer dizer a palavra “camarada”? O camarada é um indivíduo que pediu emprestada uma soma qualquer de dinheiro, prometendo pagá-la com seu trabalho. Eu precisava partir para outro povoado e os índios ficavam ao meu redor, falantes, perguntando quando eu voltaria para vê-los. De repente, escuto uma voz firme: era o chefe todo-poderoso de um povoado vizinho que se dirigia a um de seus camaradas, um jovem índio de uns 20 anos. Este, tímido, abaixa a cabeça, mas, entre dentes, murmura palavras cujo sentido desconheço. – Que crime cometeu este índio? perguntei
ao vizinho. Exatamente uma hora depois, eu passava diante da porta de sua casa. Não devia parar, eu sabia, mas queria saber de qualquer jeito o que tinha acontecido com o índio. Pulo do meu cavalo e vejo, dentro da casa, bem perto da porta, o índio sentado num banquinho. Entro. Uma comprida corda de couro lhe envolve o peito e, apertando as mãos contra as costas, vai terminar no teto, onde está firmemente presa. Sozinho com o índio, me aproximei dele. – Olhe para mim, eu lhe disse, você sabe
que gosto de você. Por que está com vergonha? Você promete ficar com seu patrão e obedecer a ele, e eu prometo que vou dar um jeito para que o libertem já e vou falar com seu patrão para que não o castigue. Quando ele chegar, você estará livre e voltará para sua casa. – Ele não vai querer! Disse o índio. Logo uma empregada me trouxe o café fumegante. O boliviano, evidentemente, não queria aparecer. Espero em vão. Então peço que a empregada o chame. Ele vem sem pressa. Diante de mim, fica vermelho, quase tremendo e mudo. – Pedi que o chamassem para lhe dizer, em primeiro lugar, que este moço prometeu ficar com seu patrão e obedecer a ele e, depois, que eu lhe prometi um perdão completo. Quando seu patrão chegar, você lhe diz que o padre Barbabranca parou um pouco em sua casa, que viu o jovem índio amarrado e o fez prometer que ficaria; e que por sua vez, o padre Barbabranca lhe pede de perdoar o moço e não lhe dar nenhum castigo. Entendeu? Nenhum castigo! Não quero nem que lhe dirijam uma só palavra de reprimenda. Você vai lhe dizer isso, não vai? – Vou sim, respondeu o boliviano. Mas não saia até a chegada de seu patrão. Ele não vai brigar com você. Fique tranqüilo e mantenha sua palavra. Bom moço. Ficou de pé, a cabeça reta, o sorriso nos lábios. Com as mãos, limpa as últimas lágrimas, como para melhor me ver. Sua alegria me faz tanto bem! Leve, monto na sela para continuar meu caminho e durante um bom tempo cantei louvores a Deus. Dois anos mais tarde, passando pelo mesmo caminho, cruzo com um índio conduzindo um carro. Acho que o reconheço. Ele também, porque deixou seus bois e tirando o chapéu, veio em minha direção sorrindo. (P. Jean-Louis Bourdoux, Histoires du Père Barbabranca) |
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