Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja
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500 ANOS DEPOIS DE CABRAL, OS BISPOS
PEDEM UM NOVO BRASIL
Alberto Antoniazzi De 26 de abril a 3 de maio, aconteceu em Porto Seguro, Bahia, a 38a Assembléia Geral da CNBB. A data e a localidade foram escolhidas para comemorar os 500 anos da chegada das caravelas de Cabral e, especialmente, a primeira Missa, celebrada na praia da Coroa Vermelha, em 26 de abril de 1500, pelo capelão da frota portuguesa, frei Henrique de Coimbra. O início da Assembléia foi marcado exatamente pela celebração
de uma Missa solene, no dia 26 de abril, presidida pelo representante
enviado do Papa, o cardeal Ângelo Sodano, secretário de Estado
no Vaticano. Estavam presentes, apesar da chuva, cerca de 8 mil fiéis,
dezenas de padres, 330 bispos do Brasil (inclusive muitos bispos eméritos)
e 17 bispos de outros países, como os de língua portuguesa
- Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique
e Timor (representado pelo Prêmio Nobel da Paz, Dom Carlos Filipe
Ximenes Belo) - e outros: Canadá, Estados Unidos, Itália,
mais o bispo presidente do CELAM, o colombiano dom Jimenez, e o vice-presidente
da CAL (Comissão da Santa Sé para a América Latina),
dom Calderón. A pauta da Assembléia A assembléia dos bispos, de 27 de abril a 3 de maio, reuniu-se no Centro de Convenções de Porto Seguro, recém-inaugurado. A duração foi menor que a de costume (8 dias em lugar de 10) e várias celebrações, motivadas pela comemoração dos 500 anos, encurtaram ainda mais os trabalhos da Assembléia, que acabou discutindo principalmente o tema central. Vale a pena, contudo, recordar as principais atividades que empenharam os bispos nestes dias: três conferências de professores universitários sobre a realidade brasileira ; o retiro espiritual, pregado por Dom Antonio Ribeiro de Oliveira, arcebispo de Goiânia; a Missa de 1º de maio, dedicada aos trabalhadores; a "análise de conjuntura", apresentada pelo pe. Virgílio Leite Uchoa, que está deixando o cargo de assessor da CNBB; uma intervenção de um representante dos índios da região, Nailton Pataxó; as celebrações ecumênica e inter-religiosa, a primeira com representantes das Igrejas anglicana, metodista, luterana e presbiteriana unida, a segunda com a presença de um rabino, de um muçulmano, de uma monja budista e de uma "mãe de santo" , representando um culto afro-brasileiro. Propostas para o futuro A discussão do tema central teve como base um anteprojeto de Carta
ou Mensagem dirigida à sociedade brasileira. Havia divergências
a respeito do conteúdo da Carta. Uns preferiam uma mensagem pastoral
mais simples, dirigida às comunidades. Outros queriam uma carta
mais ampla, dirigida a toda a sociedade, dialogando sobre os problemas
atuais e os desafios futuros do Brasil. Um novo plano de evangelização Declarações pessoais de um ou outro bispo à imprensa
foram mais críticas em relação à política
econômica e social, demasiadamente favorável aos ricos e
poderosos, gerando fome, sofrimento e profunda insatisfação
na maior parte do povo. A Assembléia aprovou também a proposta
de criar uma Comissão episcopal, para estudar essa insatisfação
popular e propor medidas. Gildo Terena teve sua imagem conhecida através dos meios de comunicação, por ter caminhado, de joelhos e com os braços abertos, em direção à tropa de choque da PM baiana, que atacou manifestantes indígenas no dia 22 de abril de abril, em Santa Cruz de Cabrália. Publicamos sua declaração sem correções Estou aqui falando através de todos os povos nativos do Brasil que esteve aqui na nossa marcha, querendo outros 500. Com esses outros 500 que nós entramos, foi difícil colocar na minha consciência o que o governo fez para nós. Foi difícil entender o que ele queria para nós e fomos massacrados. Eu mesmo, a minha pessoa, eu coloquei à disposição da tropa de choque para que pudessem acabar comigo, mas que não acabassem com o povo que estão em extinção. Doeu em mim, eu vi mulher chorando sem saber de nada. Doeu em mim, ver crianças olhando com desespero. Eu sabia que eu era um ser humano, mas não um animal para ser tratado com bombas, com os cavalos. Eu olhei para mim: eu coloquei primeiramente a Deus no meu caminho que me protegesse de todo o mal que ia acontecer comigo, eu abri as minhas mãos, pedi a orientação do Pai, que Ele pudesse me proteger. Aí, com humilhação de todos os povos em mim, me pus, me humilhei dizendo: parem com isso! Não sabemos o que estão fazendo, nós não sabemos o que está acontecendo com nós, nós estamos apenas protestando com faixas, com cartazes, com camisas dos outros 500 anos que queríamos. Doeu em mim, joelhei ali, implorando paz, implorando paz, só que ninguém me ouviu porque eu sou um, sou um ser humano não governante. Aí eu implorando, cheguei na frente de todos os batalhões, pedi que não fizesse aquilo mais, porque nós ia parar, para que nós não pudesse ser massacrado mais uma vez no entrando os outros 500 anos de novo. Aí eu senti como se fosse os Cabral entrando na nossa terra brasileira, eu senti de novo outros 500 anos que eu ia sentir de massacre e violência para meu povo. Eu coloquei de joelhos, andei mais de cinco metros de joelhos, pedi para que eles parassem. Eu fui andando, andando de joelhos, eu cheguei na frente deles, eles diziam o soldado, que estava só cumprindo a missão deles. Aí quando eu levantei, vi um daqueles colocando mais um, mais uma bomba, para jogar pro lado do meu povo, eu abri os meus braços, que eles eram prá jogar em mim e não neles e nisso eu fui empurrado pela bomba e eu cai no chão sem defesa nenhuma. Sem agressão nenhuma, eu tentei levantar e fui pisoteado pelo batalhão. Senti como se fosse animal depois. Eu chorei, eu não agüentei ver em mim que um índio pisado, pisado no começo de uma nova era dos 500 anos. Eu chorei, chorei me perguntando, o que eles estavam fazendo. É doído, é doído em mim. É doído ver meu povo triste de longe, de todo o Brasil, foi para protestar com paz. |
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