Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Brasil
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O PASSADO MISSIONÁRIO
a partir dos 500 anos Giorgio Paleari O V ENOIM (Encontro Nacional dos Organismos e Instituições Missionárias), realizado na sede das Pontifícias Obras Missionárias, nos dias 23-26 de novembro de 2000, desenvolveu e aprofundou algumas temáticas missionárias que poderão nortear nossos passos no futuro. As pistas poderão enraizar melhor nossa ação missionária A memória e a história A partir de 1500, quando os primeiros missionários começaram a chegar ao Brasil e à América Latina, um longo caminho foi percorrido no meio de muitos percalços e contradições. A história é mestra de vida e, através dela, novos erros podem ser evitados e novas veredas podem ser trilhadas. Um dos erros a ser evitado é a associação entre o poder temporal e a ação missionária, a espada e a cruz. A memória desses quinhentos anos de evangelização reafirma um compromisso com um maior respeito das culturas e dos povos em vista de uma autêntica inculturação do Evangelho. O outro e o diferente têm, em nosso continente, rostos e feituras bem precisas: são os negros, os índios, os camponeses pobres, os excluídos da globalização, os moradores das cidades, etc. Somente uma evangélica opção preferencial pelos pobres e excluídos nos permitirá trilhar caminhos proféticos da missão. O ponto de partida de nossa missão é o mesmo Jesus, pobre e misericordioso que acolhe a todos, propriamente porque se coloca ao lado dos que não têm esperança e que são excluídos. A Igreja missionária, no seguimento de Jesus, penetra nas brechas e nas rachaduras do sistema neoliberal, excludente e causador de morte, para implantar os sonhos dos pobres e excluídos. A mensagem missionária não faz nenhuma redução ética ao Evangelho e não atenua o anúncio radical do Reino de Deus. O profetismo O termo que melhor consegue iluminar o caminho missionário é o "profetismo". Jesus, o profeta por excelência, revela alguns traços peculiares. Antes de tudo, o profeta é quem tem uma proximidade com Deus. As palavras pronunciadas são palavras de Deus com um timbre humano. É propriamente essa intimidade profunda com Deus que legitima a denúncia e o anúncio do profeta. Ele mesmo não diz as próprias teorias e nem transmite as próprias idéias. É Deus que faz o julgamento sobre os acontecimentos e a história. O profeta é, também, alguém que está sintonizado com os acontecimentos da vida e está mergulhado no sulco da história. É alguém atento aos sinais dos tempos. A denúncia da injustiça e o anúncio da esperança fazem com que o profeta seja, quase sempre, denegrido e perseguido. O martírio é o preço a ser pago, como o foi por Jesus. Na trilha dos missionários profetas da América Latina (frei Antônio de Montesinos, Bartolomeu de las Casas, dom Oscar Romero, Margarida Alves, dom Hélder Câmara e tantos outros), a Igreja missionária se faz pobre, itinerante e pascal, calçando as sandálias do pescador. Hoje, diante das muitas exclusões e da morte dos pobres, a Igreja não enfeita seu discurso, mas, a exemplo do Mestre, anuncia a presença do Reino em sua radicalidade, até o martírio. A eclesialidade e a universalidade A missão não é uma aventura individual e solitária. Surge no âmago de um Deus, que é comunhão trinitária, e é confiada à Igreja que se põe a serviço da missão. A Igreja é toda ela missionária e missão é tarefa de todo um povo de profetas, de reis e de sacerdotes. A missão, neste sentido, está entrelaçada no mesmo ser da Igreja e encontra sua vitalidade em todo o dinamismo de sua ação evangelizadora. Guiadas pelo Espírito de Deus, todas nossas comunidades se tornam os sujeitos da missão. No texto das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (1999-2002), a palavra "missão" parece ter entrado no vocabulário e no imaginário da Igreja. Fala-se de "missão da Igreja", de "missão evangelizadora" e, também, de "abertura universal". Há uma necessidade de captar melhor a missão em sua dimensão de "além-fronteiras", de "ad gentes" e de universalidade. A pérola mais preciosa do caminho missionário é propriamente sua abertura universal até os confins do mundo. A abertura missionária não é, primeiramente, uma conseqüência da maturidade da comunidade cristã, mas é a condição para sua maturidade. Não se pode esperar que tenhamos tudo acertado para sair para a missão. As comunidades amadurecem, abrindo-se e partilhando sua fé. A universalidade é estímulo para o surgimento de novos agentes de evangelização, para servir nas situações de fronteira e para fazer explodir um novo ardor. O surgimento de um Organismo Missionário Nacional para a dimensão "ad gentes" poderá contribuir para dinamizar mais a abertura para a universalidade. A organização e a animação Se, de um lado, o caminho da missão dá graças a Deus pelo fato de que nossa Igreja está se tornando cada vez mais missionária, do outro, reafirma o compromisso de incentivar mais a animação missionária de nossas comunidades. Toda ação evangelizadora e todas as pastorais devem assumir o dinamismo missionário como elemento vital. A catequese e a liturgia, como toda atividade eclesial, devem ser marcadas pelo ardor missionário. A animação missionária é propriamente esse dinamismo que impulsiona toda evangelização. A organização missionária, por sua vez, nos seus diferentes níveis, põe-se a serviço da animação da Igreja e suscita, com seu dinamismo, uma abertura constante para a universalidade. Nenhuma Igreja basta-se a si mesma. Tornar-se-ia um gueto fechado e sufocante. A missão dinamiza e impulsiona para abrir todas as comunidades às situações missionárias e ao além fronteiras. Junto com a animação e a organização, há necessidade de um processo de formação em todos os níveis, incluindo os sacerdotes e os bispos, para aprofundar e suscitar o espírito da missão. A Palavra de Deus A Palavra de Deus, antes de representar uma das tantas temáticas, é o ponto focal que ilumina e torna consistente o caminho da missão. É palavra escrita, mas, antes de tudo, é a mesma pessoa de Jesus Cristo, Palavra encarnada do Pai. Seguindo o projeto "Ser Igreja no Novo Milênio", o livro dos Atos dos Apóstolos foi escolhido para aprofundar o caminho de nossa Igreja. Desde o começo, as comunidades cristãs constituíram-se como missionárias e fizeram da missão sua razão de ser. O Cristo pascal e seu Espírito impulsionaram os cristãos a saírem do círculo estreito do judaísmo e a se espalharem por todos os recantos do mundo conhecido. Esparramando-se no contexto grego e helenista, tendo no apóstolo Paulo seu importante protagonista, as comunidades cristãs enfrentaram as primeiras dificuldades para a inculturação do Evangelho, para responder aos desafios das novas situações e do mundo urbano, para reconstruir uma comunhão na missão e para tornar mais efetivo o serviço no meio dos pobres. Como pessoas pobres e sem recursos, os primeiros missionários percorreram os caminhos da missão, tendo como única certeza a presença de Jesus. Seduzidos pelo amor do Mestre, ofereceram suas próprias vidas, até o martírio, pela causa missionária. |
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