Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África

 

por Isabel Gomes

Após quase três anos de missão em terras angolanas, se me fosse dado fazer um balanço, diria que a missão é um dom de Deus e uma experiência mútua de partilha, de doação, de escuta, de crescimento e amadurecimento

uitas coisas aconteceram desde que cheguei a Angola: o país estava em guerra; a miséria humana era gritante, a grande maioria da população apinhava-se nas grandes cidades em condições desumanas; não se podia circular nas estradas, por medo dos ataques constantes; não se podia ir às aldeias; vivia-se todo um clima de desconfiança, de medo, de contra-informação. Como franciscana missionária de Maria, a serviço da evangelização, junto com as minhas irmãs, pude testemunhar, viver e sentir várias destas situações pelas províncias por onde passei, escutando o testemunho das irmãs que lá vivem há muitos anos e das populações sofridas.

Com a chegada da paz, operou-se uma grande transformação: em cada rosto, marcado pelo sofrimento humano, vimos despontar a esperança, a confiança, a solidariedade há muito enterradas sob a capa do medo. Nunca esquecerei o que senti no dia da marcha pela paz, em Luanda, quando, também eu, com várias irmãs, nos juntamos ao povo delirante pelas ruas, num abraço fraterno. Éramos milhares, sem olhar raças, crenças, ideologias, todos num só coração e numa só alma.

Muitas situações melhoraram, mas muito mais restava para fazer e, agora, de forma mais intensa e, em muitos casos, dramática. Os braços são poucos e os recursos ainda menos. Serão necessárias várias décadas para reconstruir este belo país e reconstruir o tecido humano, no campo social, religioso, educacional e sanitário.

Um povo que ainda sofre

Em janeiro de 2003, pude fazer e viver a experiência da missão, no centro de Angola. Graças à paz, é agora possível ir às centenas de aldeias que pertencem à província de Malanje. Dispersas por uma área considerável e minada de centenas de quilômetros, essas aldeias são acompanhadas por algumas comunidades de religiosos e religiosas, entre as quais as Franciscanas Missionárias de Maria. Foi assim que pude participar e colaborar ativamente nessa missão itinerante de visita e de acompanhamento material e espiritual desses irmãos.

A ir. Lourdes Mary, uma jovem indiana, e eu, juntamente com um frade menor brasileiro, visitamos várias dessas comunidades vindas das matas, após o fim do conflito bélico, e que não recebiam a visita de missionárias há várias décadas por causa dos violentos conflitos. Ainda agora, é impressionante viajar por essas estradas de terra batida, curtidas pelo sol, totalmente esburacadas, e encontrar vários postos de controle militar.

Os soldados estão ainda concentrados, vivendo em cabanas de capim, que parecem mais tocas. Muitas estradas estão minadas, margeadas de tanques, de destroços bélicos. É um ato de confiança em Deus viajar por elas. Ao chegar às casas de capim, toda a população saía ao nosso encontro, tocando batuque, baldes, com o que fizesse barulho e cantando com alegria. A visita dos missionários é sempre motivo de festa. Toda a aldeia pára e vai ao encontro dos padres e das irmãs. Todos nos querem abraçar.

Essas pessoas estão sedentas de Deus, de uma palavra de ânimo, mas também de uma mensagem de fé. Fiquei profundamente impressionada com a alegria dessa gente simples, com a força das suas convicções, que os sustentaram durante os longos anos de guerra, escondidos nas matas. Não têm nada, mas acreditam profundamente em Deus! Estão desprovidos de tudo: vestuário, casa, alimentação, escolas, postos de saúde, enfim, de todas as necessidades básicas, mas conservam a alegria de estarem vivos, de terem sobrevivido e valorizam a vida como nunca.

Os sobreviventes

No entanto, há algo que nos impressiona muito: são os nomes dados às novas aldeias e às crianças que nasceram durante os longos e terríveis anos de guerra. Encontramos nomes de jovens em línguas locais como “podre”, “fome”, “dor” e aldeias batizadas de “sofrimento e sangue na terra”, “sangue e fúria”. Estes nomes refletem a face negra da guerra e todos os sofrimentos pelos quais as pessoas passaram, sendo obrigadas a fugir para a mata, a esconder-se como bichos para evitarem os raptos das moças e os ingressos forçados dos rapazes nas fileiras dos dois braços armados, entre outros.


Nas imagens, flagrantes da situação da Angola
após a longa guerra civil. Miséria, fome e destruição fazem parte da vida dos moradores

Quando escutamos as pessoas e ouvimos a tragédia das suas vidas, fazemo-lo com muito respeito, diante do mistério que elas encerram. Ficamos tocados pela profundidade da sua confiança em Deus providente, em Deus Pai. Esse povo simples dá-nos lições de teologia! Evangelizamos, mas somos muito mais evangelizados! Apesar de toda carga negativa que ainda perdura, a visita às aldeias é uma experiência maravilhosa, em que vemos como Deus continua presente, a trabalhar com o seu Espírito.

As pessoas carecem de tudo, mas dão-nos exemplos de perseverança, de coragem, de criatividade e de muita fé. Procuramos ajudá-las quer a nível material, quer a nível espiritual, com o apoio da Igreja, de organizações internacionais, da Cáritas e com todas as ajudas oferecidas e sempre bem-vindas. A missão, além dos dramas que encerra, tem também momentos de algum humor, como aquele, entre tantos outros, em que nos vimos quase envolvidos num parto.

Numa das visitas às aldeias, já no fim do dia e de regresso a casa, fomos interceptados na estrada por um idoso, cansado, que nos conduziu até à sua aldeia. A filha mais velha, uma mulher já de quarenta anos, estava em trabalho de parto desde a noite anterior, sem sucesso. Como é de tradição, ela tinha levado uma sova para ajudar o bebê a sair. Os familiares, preocupados com o insucesso do tratamento tradicional, já lhe tinham improvisado uma padiola presa entre duas bicicletas para transportá-la até Malanje, a cerca de 90 km de distância, em pleno descampado, e já no fim do dia.

Quando nos viram chegar com a nossa camioneta aberta, toda a aldeia veio ao nosso encontro e os homens trouxeram a parturiente em péssimas condições: esgotada, cansada. Ficamos muito preocupados ao ver o seu estado. Já aconchegada na camioneta, partimos à procura de um posto médico, onde nos pudessem ajudar, já que receávamos que o bebê nascesse antes de chegar a Malanje. O frei que guiava confiava naturalmente em nós, irmãs, mas nenhuma de nós era enfermeira ou tinha experiência de parto.

Graças a Deus, acabamos por encontrar um posto dos Médicos Sem Fronteiras, onde estava uma enfermeira angolana que aceitou acompanhar-nos até Malanje, já que o parto era de risco. Foi uma viagem que durou uma eternidade, porque a noite já tinha caído e estávamos em pleno descampado, numa estrada de terra batida, aos saltos, procurando evitar os maiores buracos, a fim de não acelerar o parto, e rezando a todos os santos que conhecíamos para que chegássemos a tempo.

Acabamos por chegar, já noite avançada, ao hospital, onde deixamos a parturiente em boas mãos. Em Luanda, a capital, os desafios da reconstrução passam também pela formação integral da juventude. De fato, a Igreja católica tem na educação dos jovens uma tarefa primordial, em todos os níveis: humano, social e religioso. Esse é um dos grandes desafios que se apresentam à sociedade angolana: o da formação à vida dos que serão a força motriz do país nos próximos anos. Assim é a nossa missão: um desafio contínuo de partilha de fé e de encontro do outro.

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