Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - África
|
Hélio Pedroso Após 11 de setembro, fomos lançados inesperadamente numa guerra diferente das outras: uma guerra técnica contra uma pobreza da Idade Média. Há quem a chame de guerra contra o terrorismo, quem a defina como guerra religiosa, precisamente uma guerra entre o Ocidente cristão e o islã. As definições não correspondem à realidade que é muito mais complexa no jogo político mundial e é preciso lembrar que, a partir da segunda metade do último século, tem havido um recrudescimento das lutas religiosas, sejam elas limitadas a grupos ou mais globais, envolvendo países, como aconteceu na Indonésia, no Sudão, na Nigéria e tantos outros lugares. Se as religiões pregam a paz e a união entre as pessoas, então essas guerras são absurdas e incoerentes. Todavia, um fato que não pode ser ignorado é o sofrimento dos cristãos nessas situações, tendo em vista que eles estão na mira dos fundamentalistas. Aqui também vale aprofundar a análise das causas e examinar alguns exemplos mais atentamente. Um caso típico de
intolerância religiosa-étnica, influenciada também
por fatores socioeconômicos é a Nigéria, país
rico em petróleo, formado por várias etnias. O sul é
fortemente cristão e o norte islâmico.
Desde os anos 90, com a ditadura do sultão Sani Abacha, um forte e maciço investimento de dinheiro da Arábia Saudita, Líbia e de magnatas muçulmanos permitiu aos jovens islâmicos da Nigéria de freqüentar escolas e universidades em países com essa fundamentação religiosa. Foram construídas mesquitas praticamente em todas as aldeias e os chefes muçulmanos foram orientados para casar com várias jovens e abrir negócios, a fim de exercer um predomínio sobre o povo pobre. Isso continua, e o presidente do país, general Olusegun Obasanjo, mesmo sendo cristão, não conseguiu impedir que os governadores implantassem a sharia, ou lei islâmica, e administrassem seus Estados conforme essa rígida lei muçulmana. No dia 20 de dezembro do ano passado, o Estado de Gombe foi o último a implantar a sharia, apesar dos protestos dos bispos e da liderança cristã que apela para a Constituição de 1999. Os governadores muçulmanos respondem que a sharia se refere somente aos muçulmanos, mas, na realidade, uma vez incorporada ao sistema judiciário dos Estados, indiretamente torna-se obrigatória para todos. No dia-a-dia, esses governadores usam do poder do dinheiro dos países árabes para cercear as liberdades dos não muçulmanos. O bispo dom John Olorumfemi Onalyekan denuncia que, desde que a sharia foi adotada pelos Estados, ela se tornou lei oficial, razão pela qual, indireta e diretamente, atinge os muçulmanos, os cristãos e os tribais.
Desde 1999, ano em que terminou a ditadura e se implantou a Constituição, que pouco vale, já houve muitas revoltas, choque entre cidadãos e a polícia, deixando um saldo de mais de 6000 mortos. O último choque inter-religioso aconteceu no fim de 2001, na aldeia de Dagwaom Turu, na periferia de Jos, Estado de Plateau. Nessa aldeia, houve somente 20 mortes, por causa da pronta intervenção dos militares que impediram um massacre maior. Parece que esta matança foi uma vingança contra os cristãos devido a um choque entre as milícias islâmicas e o exército, ocorrida em setembro, onde morreram 500 pessoas. Futuro incerto Na Nigéria, a questão religiosa mistura-se com a situação social: a pobreza absoluta em varias regiões, a quase total ausência da autoridade do governo federal para criar uma política de desenvolvimento fomenta uma radicalização dos jovens, especialmente os muçulmanos, sem trabalho. Há também um fluxo interno de migração, sobretudo do norte para o sudeste: 230 mil cristãos já deixaram tudo para fugir das freqüentes perseguições nas regiões muçulmanas. Numerosas organizações defensoras dos direitos humanos denunciaram, nos últimos meses, a prisão de dezenas de cristãos que acabam sendo julgados pela lei da sharia integrada ao sistema judiciário comum. Diante de todos estes problemas e da fraqueza do governo federal, teme-se a islamização de toda a Nigéria e, para as próximas eleições, não se exclui a possibilidade de que todos os candidatos à presidência sejam muçulmanos. O que resta da Nigéria cristã e tribal estará, então, cada vez mais ameaçado. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]