Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia

Sete documentos oficiais do governo chinês, publicados entre abril de 1999 e outubro de 2001, mostram claramente a violenta repressão por parte do governo chinês contra muitos movimentos religiosos não autoriza-dos, em primeiro lugar contra as Igrejas cristãs clandestinas. Os sete documentos têm a denominação “top secret” e foram revelados por duas organizações localizadas nos Estados Unidos, a Comissão para a Investi-gação sobre a Perseguição da Religião na China e a Freedom House.

Embora altamente confidenciais, os documentos conseguiram sair do país graças à colaboração de alguns altos funcionários do governo chinês, simpatizantes de alguns desses grupos religiosos reprimidos.

O que salta aos olhos é a existência de uma campanha, orientada pelas autoridades chinesas, cuja finalidade é reduzir ao silêncio todas as religiões “não aprovadas”. O governo chinês permite a atividade religiosa somente dentro das instituições rigidamente controladas por ele, as assim chamadas “Associações Patrióticas”. Estas têm que se cadastrar e seus membros passam continuamente por controles e fiscalizações sobre suas atividades.

Os documentos da perseguição

A ação repressora das autoridades chinesas teve como objetivo principal as Igrejas cristãs clandestinas e a organização Falun Gong, uma entidade muito difundida atualmente e que visa à manutenção da boa forma física, junto com uma vaga orientação espiritual oferecida a seus membros.

O presidente chinês Jiang Zemin em dia de vacinação infantil

Saber o que pensam as autoridades chinesas, entender o significado do que está acontecendo naquele país é um desafio para qualquer um,
até para os mais competentes especialistas em política internacional.

Pe. Ângelo Lazzarotto do Pime, durante muitos anos missionário em Hong Kong e, até hoje, mantendo muitos contatos com o mundo chinês, só aparentemente concorda com tudo aquilo que dissemos a respeito da situação religiosa na China. Ele reconheceu tudo aquilo que até aqui foi dito a respeito da política religiosa do governo chinês e confirmou que, no Congresso nacional sobre religiões, realizado em Pequim em dezembro de 2001, foi reafirmada a vontade de manter cada vez mais sob controle toda atividade religiosa. Essa, contudo, representaria a posição da ala mais conservadora do Partido, que era maioria naquele congresso.

Mas o sacerdote afirma também que se sabe, de fontes seguras, que o presidente Jiang Zemin teria reconhecido que os seguidores das religiões poderiam constituir um fator positivo para a modernização do país. O primeiro ministro Zhu Rongji teria pedido que fossem convocadas pessoas mais jovens e mais preparadas para gerir as questões religiosas em nome do governo. Portanto, apesar das pressões mais conservadoras, não seriam poucos os que, dentro do Partido, reconheceriam que está na hora de mudar, de aceitar os parâmetros internacionais que vêem a religião como um fator que pode ter conseqüências positivas e construtivas para o próprio governo.

Se a situação mudar, há motivos para acreditar na possibilidade de uma maior e mais fácil difusão da religião na China, devido

• ao sentimento de vazio que se criou por causa da economia de mercado, que poderíamos chamar de selvagem, e atualmente difundida no país;

• à difusão da Internet que consegue pôr a China em contato com o mundo inteiro. Para muitos, a Internet poderia constituir a nova “rota da seda” que tornará possíveis esses contatos entre o povo chinês e as grandes religiões.

A Agência internacional Fides publicou, durante a quaresma deste ano, uma lista de 33 pessoas, bispos e padres que foram seqüestrados, isto é, foram presos pela polícia sem nenhum motivo e, que desde então, desapareceram, ou estão sendo processados, ou confinados em prisão domiciliar.

Essas pessoas foram presas por uma única razão: não querem pertencer à chamada Associação Patriótica. Não querem fazê-lo, pois sentiriam cortada sua ligação com o papa e a Igreja universal. Pertencer à Igreja patriótica significaria para eles perder sua liberdade na prática da religião e permitir que esta se submeta à política.

Em 30 de outubro de 1999, foi aprovada uma lei que regula os cultos chamados “hereges” e que coloca os crimes de religião entre as ameaças à segurança nacional, crimes esses que podem ser punidos pela prisão perpétua ou até pela pena de morte.

Recrudescimento da perseguição

Tudo pode ser resumido em poucas palavras: a China está tentando tímidas aberturas para o mundo ocidental. Ela teme que estimulem as pessoas contrárias ao regime a se manifestarem, portanto, quer reprimir, antes que nasçam, quaisquer manifestações de protesto, confiando que, por causa justamente das mesmas aberturas, o mundo será mais tolerante com os problemas de falta de liberdade no país.

As aberturas de que falamos são:

A China está fazendo parte da Organização Mundial do Trabalho (WTO) e teme, por causa disso, desordens sociais.

- O país manifestou-se favorável à luta contra o terrorismo que foi declarada em nível mundial, depois dos atentados de 11 de setembro. Através da desculpa de repressão ao terrorismo poderiam ser aceitos, pela opinião pública mundial, eventuais atos de repressão a outras organizações, à condição que, de qualquer maneira, possam ser apresentados como repressão ao terrorismo que, todo mundo o sabe, pode ter matrizes religiosas.

- Prepara-se a instauração de relações diplomáticas entre China e Santa Sé, mas o governo quer estar prevenido para quando, e se esse momento chegar. O Partido Comunista Chinês sempre pensou que a liberdade religiosa só pode ser uma semiliberdade controlada. Num documento secreto do Partido, de 16 de agosto de 1999, lê-se que “na perspectiva de possíveis relações diplomáticas com o Vaticano, devemos aumentar o controle sobre as comunidades e potenciar a Associação Patriótica”. O que está aconte-cendo com a Igreja clandestina representa fielmente as perspectivas traçadas naquele documento.

É verdade que a história demonstra que a liberdade re-ligiosa foi um dos motivos que mais influenciaram a mo-dernização de países como o Japão, a Coréia do Sul e Hong Kong (antes da anexação à China). Mas a preo-cupação principal dos chefes de governo chineses é ou-tra: não perder o poder. A verdadeira causa dessas per-seguições, contudo, talvez seja outra: conforme Free-dom House publica, o que está na base dessa ação re-pressora é a frustração e a insegurança das autoridades políticas que não podem deixar de constatar um renas-cimento religioso em toda a China, que se mani-festa não tanto na participação às Igrejas oficiais, mas na adesão aos grupos não aprovados, clandestinos.

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