Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia


Pe. Pelosin com as crianças da comunidade

 

A Tailândia é um
país de maioria budista,
muito procurado por
milhares de turistas
ocidentais. O Pime está
presente, desde 1972,
entre as tribos das
montanhas, em Bangcoc,
para um serviço ao
seminário nacional
teológico e com a
pastoral paroquial

Hélio Pedroso

Os missionários na Tailândia trabalham com dedicação e desprendimento, mas é um trabalho árduo, cujo resultado sempre parece pouco, comparado aos esforços de homens e de meios empregados que, certamente, são grandes diante
de Deus. A Igreja católica conta somente com 250 mil fiéis, numa população de 61 milhões de pessoas.

Alguns trabalham com as tribos das montanhas que têm suas próprias tradições e línguas e que vieram para a Tailândia, fugindo dos massacres dos comunistas nos anos 50/60. Essas tribos ficaram sempre à margem da sociedade tailandesa, sobrevivendo com precárias plantações no meio da floresta, às vezes, obrigadas por chefões locais a cultivar o ópio. Entre os missionários que lá trabalharam, destacou-se pe, Zimbaldi que ajudou
as tribos a modificarem suas plantações para escaparem do jugo dos traficantes.

Atualmente, a TV e a sociedade empurram as populações tribais para a ilusão das grandes cida-des, onde pensam encontrar uma vida bem melhor. Na realidade, sem documentos e não falando a lín-gua tai, eles são humilhados e explorados. Para o governo central, eles não existem e não têm direitos. Somente os missionários criaram algumas atividades de apoio, sobretudo para a educação da juventude, e intercedem junto ao governo a fim de que essa gente possa se inserir e receba a cidadania num país onde vive, há quase cinqüenta anos. Em Bangcoc, o trabalho missionário, concentrado na paróquia, realiza-se na grande linha de testemunho dentro de uma sociedade em que pouquíssimos são cristãos e,

em particular, na promoção humana e cristã nas favelas, onde todos são budistas. Ali a opção é ajudar as crianças e os missionários compraram duas casas para hospedar meninas e meninos. Nessas casas, elas encontram sempre alguém que, com todo o carinho, as ensina e ajuda a fazer as tarefas, recebem material para freqüentar escolas e gozam de um ambiente amigo e saudável. A missão também distribui leite em pó para os recém-nascidos que, na maioria, nem têm pai.

Uma festa tradicional

No dia 15 de novembro, celebra-se uma festa tradicional, a Loy Kratong. Ao cair da noite, as pessoas vão às ribanceiras dos muitos rios e canais do país e depositam, sobre as águas, uma bandeja em forma de flor de lótus, repleta de flores, velas, incenso e algumas moedinhas para agradecer ao rio pelo dom da água. É o período do fim das chuvas e os tailandeses rezam para que o mal que se tenha, por acaso, cometido seja levado pelas águas do rio junto com a bandeja.

No ano passado, conta pe. Cláudio Corti que estava ajudando pe. Pelosin na favela, os missionários pensaram que poderiam celebrar, com todas as crianças, a festa de Loy Kraton e foram todos ao canal de água suja e podre que passa no meio da favela. Comeram, rezaram, cantaram e brincaram. No fim, depositaram a bandeja-barquinho sobre as águas pretas do canal, pedindo a Deus para que ficasse sempre perto dessas crianças e lhes assegurasse um futuro de serenidade e de paz.

 

Tailândia

Faz trinta anos que o Pime marca sua presença na Tailândia, “o país dos homens livres”. Os primeiros missionários foram para o norte, perto da ex-Birmânia, para dar assistência aos cristãos que tentavam de fugir daquele país que se tornava um ditadura militar comunista. Dois padres ficaram mais ao sul, para estudar a língua tai e tentar um diálogo com o budismo, até então impenetrável à mensagem evangélica.

Pe. Ângelo Campagnoli lembra aqueles anos: “A amizade mais interessante foi com um bonzo, chefe do maior templo budista da cidade. Ele vinha freqüentemente me visitar: falávamos de coisas em comum, como a formação moral, especialmente dos jovens, a maneira de entender o mundo, os valores humanos, o destino de cada pessoa. Havia entre nós uma relação de amizade que enriquecia a ambos.

Um dia, durante a nossa conversação, entramos no âmago do problema. Procurei fazê-lo entender que, embora respeitando o budismo, não me satisfaziam totalmente seus valores: somente no cristianismo encontrava aquele “algo mais” que conseguia me preencher.

“O que você disse me perturbou – respondeu o bonzo – não me sinto mais tranqüilo como antes e penso que isto não seja um bem para mim porque o valor supremo é a paz interior. Por isso, se o que me disse tira a minha tranqüilidade interior, é melhor que não nos falemos mais”.

Desde então, não faltaram encontros ocasionais, mas, embora continuasse a amizade, nunca mais houve uma sincera troca de idéias.

Essa experiência abriu-me os olhos sobre o significado do diálogo. A atitude acolhedora é uma característica bonita, mas não coincide com uma sincera disposição para o diálogo.

O budista, por educação, acolhe e aceita todos, tolera e, paciente, escuta. Mas, para um verdadeiro diálogo, é preciso dar outros passos, superar os limites que meu amigo bonzo via como um beco sem saída.

O diálogo, pelo menos lá na Tailândia, existe mais com a gente comum, do que com os representantes oficiais do budismo. Outras tentativas e experiências com os budistas foram feitas e alguns deram frutos inesperados”.

 

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